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Crónica

Professores de verdade? Só fora da Faculdade!

Os professores de Geologia escancararam as portas da Faculdade e levaram-nos lá para fora, onde estão os estratos e as falhas, onde a Terra se mexe e mexeu, criando quadros a céu aberto para o Homem admirar e respeitar, aprender e viver

Texto de João André Costa • 24/09/2017 - 09:36

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Como de costume, mas nem por isso de propósito, cheguei atrasado. O anfiteatro, cheio, olhava em frente para a senhora das limpezas, a qual, com a sua típica saia de serapilheira por cima de umas largas socas e debaixo de uma camisola de malha traçada ao melhor estilo de um mapa picotado, sobre o estrado passeava, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, a mão com um largo pano pelo quadro.

 

Afinal, e para grande alívio, não estava atrasado, pronta, despreocupada e animadamente continuando a conversa enquanto os olhos procuram dois lugares. Chiu, diz-me uma colega, enquanto três outras cabeças se voltam para nós e o Pedro nos faz sinal: é a professora Chica!, sussurra em pânico, e eu, aonde?, ali, no quadro! E só então caí em mim. Bem-vindos à cadeira de Química do primeiro semestre do primeiro ano do resto da tua Faculdade. A mesma cadeira onde haveria de chumbar por cinco vezes ao longo de três anos, entre a primeira chamada, a segunda chamada e a recorrência, e talvez no fim tenha passado por pura e simples teimosia ou, quem sabe, finalmente encasquetar nesta cornadura os mil e um termos da química orgânica (já não me lembro de nenhum) e, por uma vez na vida, sem copiar.

 

A minha mãezinha a orgulhar-se de mim.

 

Mas se colocarmos os cinco chumbos de parte, uma coisa é certa: da professora Chica outra memória não trago para além da sua apresentação poeirenta naquele primeiro dia de aulas. Nunca lhe dirigi uma palavra e a professora Chica, até hoje, desconhece por completo a minha existência.

 

Ora, meus amigos, se isto é dar aulas então não vale a pena ser professor e para debitar matéria basta um gravador! E onde estão os David Attenboroughs da Faculdade de Ciências para me levar mais além, para me inspirar mais além? Ah, isso? Temos o Almaça, outro mais interessado em falar, de si, ao invés de ouvir, num estado evolutivo a meio caminho entre o Homem e a mobília de carvalho, chato, portanto, mais uma razão para não assistir às aulas e ir para casa do Zé mamar shots de Bacardi.

 

E depois havia o Piedade, a quem desenhámos um javali no quadro na primeira aula de Antropologia com o balão de fala por cima a pedir “tenham piedade de mim”. O Piedade não podia ver um rabo de saia. E o pior era os rabos de saia não poderem dizer nada. Houve uma aluna que disse. Muitos anos depois. E o Piedade já lá não está. Falta a prisão.

 

As aulas, no seu geral, eram de um aborrecimento atroz, entre a Biologia Celular, a Biologia Vegetal (copiei), Física (copiei, e muito, obrigado Filipa), Bioquímica (também chumbei, congelei na oral), Fisiologia animal, entre outras, não se falava, não se discutia, o professor é o emissor e os alunos os receptores, e como meia dúzia de colegas gravavam as aulas e passavam os apontamentos (era à vez) deixámos, de todo, de assistir às aulas, passando metade do tempo no café da Faculdade a jogar às cartas. E a minha mãe a pagar as propinas. Em protesto, houve um professor que decidiu gravar a sua aula, entrou na sala, ligou o leitor de cassetes e foi-se embora.

 

Infelizmente, as práticas de Biologia Animal foram a rápida confirmação de quanto temia: ser Biólogo em Portugal é uma seca, ou não fosse o projecto de vida da professora salvar o mesmo mundo que eu, mas desta feita avaliando a qualidade das águas fluviais através da contagem anual das escamas dos peixes... já adormeceram? Agora façam disto um Doutoramento.

 

E se tivermos em conta ser meu desejo dedicar o corpo e a alma aos ursos polares, por aqui se vê o porquê de toda a gente rir de mim. Fui para o ramo de ensino e disse adeus aos sonhos de uma criança, e pagar as contas é preciso.

 

Professores de verdade? Só fora da faculdade!

 

E como para dar aulas de Biologia é preciso saber Geologia, só então vi a chama, só então vi a paixão de quem trabalha no terreno, de quem suja as mãos, de quem mexe e toca, procura, escava, encontra e descobre. Só então tive professores a sério, daqueles que trazemos no coração, na memória, nos braços, até ao fim.

 

O segredo? As pedras não fogem, os animais sim. E como as pedras não fogem, podemos medi-las, desenhá-las, contar a sua história, de onde vieram, para que servem, como nos sustentam, como nos alimentam e são parte de nós, entre dioritos, arenitos, o gnaisse, as argilas e o mármore, o basalto, o granito e tantos outros tipos de rocha. Calhaus, dirão vocês. Eureka, direi eu.

 

Os professores de Geologia escancararam as portas da Faculdade e levaram-nos lá para fora, onde estão os estratos e as falhas, onde a Terra se mexe e mexeu, criando quadros a céu aberto para o Homem admirar e respeitar, aprender e viver. Os professores de Geologia explicaram-nos. Os professores de Geologia falaram connosco. Um especial obrigado aos professores Carlos Marques (sempre com o seu, longo, rabo de cavalo) e Mário Cachão. Gente boa, diria o meu pai, terra à terra, literalmente.

 

Volta não volta regresso à Faculdade, ano sim, ano não. Porque é Verão não vejo ninguém, passeando apenas pelos corredores onde um dia fui. Ainda tenho esperança de um dia encontrar os meus queridos professores, os professores a sério, os de verdade. Nunca serei como eles, terei de ser simplesmente eu e encontrar o meu caminho. Acho que já o encontrei. Até lá fica este abraço, escrito e bem apertado na forma destas palavras. Convosco aprendi.

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