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Palavra de Aurélio

Bonança

Uma vez por semana, vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa

Texto de Aurélio Moreira • 06/09/2017 - 16:09

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Quanto maior a tempestade, mais se espera da bonança. E depois de ter sido sujeito a uma situação aflitiva que só me era familiar nas séries de televisão – bens roubados, homens armados, erros gramaticais crassos e uma governanta aos gritos – só ansiava por um período de acalmia e silêncio, com muito sono, muito chá, música seleccionada, sol sobre uma toalha branca com “croissants” (ou bolos-turcos, como muito bem sugeriu um amigo atento a estas coisas) e açucenas numa jarra arte nova. Mas o destino tinha outros planos – o destino e a Polícia Judiciária.

 

Entre todos os dias do ano, escolheram aquele para recolher prova no local da prática criminal que eu cruamente narrei na crónica anterior. Já agora, que estão aí, curiosos, venham comigo à toca da raposa, ao covil do lobo, à gruta do dragão, à cabana da megera, que é outra maneira de chamar aos aposentos da inconveniente Zulmira, onde será escusado dizer que nunca tinha penetrado, localizados como estavam numa área do castelo pouco acessível a passantes.

 

Fiquei um pouco decepcionado com o par de inspectores que me enviaram, pois não vejo no que se apresentou como principal quaisquer parecenças com os inspectores que eu conheço – Morse, Lewis, Gently ou Clouseau – e muito menos com o comissário Maigret, Hercule Poirot, Perry Mason ou Christopher Marlowe. E o seu acompanhante conseguia ser ainda mais singelo, se é que isso é possível sem roçar o não-ser. Até eu e o meu fiel mordomo Galhardo conseguiríamos imitar melhor uma dupla dos livros policiais do que eles (estou a pensar em Johnny Fletcher e Sam Cragg, de Frank Gruber).

 

Avançamos até ao local do crime. Sabe-se lá quanto tempo debaixo do nosso tecto e dos nossos crédulos narizes se desenrolaram insuspeitas actividades maculadas por medonha ilicitude. Nem o aristocrático “nariz de cavalete” que reivindico (embora sem chegar ao exagero de fazer greve) me serviu para detectar fosse o que fosse para além de um certo cheiro ocasional a esturro, ou talvez mesmo só ocasional. (Em defesa dos parentes, devo ressalvar que a alegada ostentação nasal não é, em todo o caso, suficientemente importante para se falar em probóscide, ao contrário de um caso notável de um mecânico de automóveis – ou revisor de imprensa, não me lembro bem – que em tempos conheci, que era descendente, por via directa, de um pirata da carreiras das Índias. Esse, sim, era proboscídeo).

 

Após um interlúdio tanto mais interessante quanto não conteve anúncios potássicos de comparadores de preços de hotéis nem de produtos para emagrecer que também funcionam como dissolventes dos mais resistentes vernizes náuticos, fomos encontrar uns aposentos em tal estado de revolução que desafiava o vocabulário dos agentes da Polícia Judiciária, força policial muito falha de paleógrafos, lexicógrafos, latinistas e falantes de língua portuguesa pré-Internet, em geral. Ouvi falar em “bagunça”, “chaos”, “maelstrom” e até – pasme-se – em “smorgasbord”, palavra que, por coincidência, me lembro de ter utilizado na festa de passagem de ano de 1979 para 80 para impressionar uma amiga, mas sem grandes resultados palpáveis.

 

Na falta de um Camilo que não fosse menos do que o Castelo Branco (não, não estou a falar do Zé Silva) para descrever tal desarranjo, sugiro apenas que pensem em cenários como os da gruta do Ali Babá e os 40 ladrões, de uma repartição de Finanças no último dia para entregar a declaração de rendimentos antes de haver via electrónica, o rasto de papéis e plásticos na manhã do dia de S. João, no Porto, ou qualquer manhã no Bairro Alto, em Lisboa. Imaginem a “praça da alimentação” de qualquer centro comercial do país com o pessoal da limpeza das mesas em greve ou a do de Torres Novas num sábado qualquer, ou o conjunto completo de volumes da acusação da “Operação Marquês” depois de ter sido consultado pelos visitantes do Serralves em Festa. Não dá para imaginar? Certo.

 

Num exame preliminar sujeito a acertos, foi possível determinar que a nossa falsa Zulmira, para além de contrabando de azeite para a China em motos de sucata que tinha dado o flagrante delito, se dedicava, cumulativamente, à transferência de fortunas para paraísos fiscais, de saltadores de salto à vara, à cópia de álbuns musicais dos anos 70, e ainda estava implicada na “Operação Lava-Jato”, na “Operação Marquês”, no caso BES, no caso PT, no caso Dreyfuss, no caso Benson, no caso das Garras de Veludo, no caso Selminho, na herança Sommer, no episódio “peace in our time”, no assalto ao arranha-céus, nas parcerias público-privadas, na contrafacção de calças de ganga, medicamentos e sapatilhas, na falsificação de títulos de condução de veículos do Butão e na produção de programas televisivos em directo de casas duvidosas onde pessoas duvidosas são escrutinadas por pessoas duvidosas quanto aos seus duvidosos intentos e de onde há expulsões duvidosas que nunca chegam para acabar com a brincadeira duvidosa de se dar ao povo duvidoso o que o duvidoso povo quer.

 

A isto juntam-se acusações de adulteração, pelo calor, da cor de pedras preciosas, de cópia de dados de cartões de crédito de clientes de alojamento local, interferência nos resultados eleitorais dos EUA, ajuda ao programa nuclear da Coreia do Norte, angariação de crentes para a Igreja de Cientologia, de envio de sacos com lixo para as agências de notação financeira em nome de ex-ministros das Finanças, para manter a classificação do país artificialmente baixa e irritar o primeiro-ministro, António Costa, de ter ganho irregularmente a empreitada para calar o Big Ben durante quatro anos e de ter roubado a tecnologia de ponta resultante da associação das assistentes digitais Alexa, da Amazon, e Cortana, da Microsoft, para criar um comentador de um programa desportivo chamado Guerra que, afinal, não é mais do que um holograma criado por computador, tal como, aliás, já se desconfiava.

 

Mas nem este rol de horripilantes falcatruas conseguiu preparar-me para o que se avizinhava. Acedendo ao pedido de visita oficial às masmorras, indiquei ao Galhardo que indicasse aos inspectores o caminho e lhes franqueasse os portões de grades pesadas e vetustas, de onde, para meu espanto, uma meia hora depois, vejo sair forte cortejo de indivíduos que me semelhavam provir de regiões recônditas do globo como a Índia, o Nepal, o Paquistão, o Bangladesh. Se a própria Joan Baez saísse dali também a tocar viola e a cantar, já não acharia extraordinário.

 

Em voz inesperadamente grave para sair de corpo tão reduzido em estatura, explicou-me o inspector n.º 1 que aquele improvável grupo estava prisioneiro nas masmorras e era a mão-de-obra das contrafacções de medicamentos, sapatilhas, calças de ganga, perfumes, memórias RAM, supercola, bilhetes do Benfica, transferências de capitais, investimentos em bens tangíveis, fabrico de colchões de molas e de trens de cozinha em aço inoxidável para vender em excursões de autocarro a Badajoz, Sevilha e Barcelona.

 

E foi preciso trazer três autocarros para levar toda aquela gente para o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que, diga-se de passagem, apesar da falta de uns quantos inspectores para se considerar devidamente operacional, é um bonito serviço. Foi ao ver sair aqueles veículos de transporte colectivo de passageiros transbordando vivacidade e cidadania que me ocorreu montar um serviço particular de circuitos turísticos pitorescos e nas masmorras instalar alojamento local.

 

Temos de aproveitar os ventos da retoma e os turistas que estão a rebentar com os valores das rendas e com os preços das casas. Mas, como dizia o outro, não são um problema, são uma oportunidade (principalmente para quem ainda não foi despejado nem deixou de poder pagar tanto por mês como os quem vêm passar uma semana de férias e ganham salário em libras)...

 

Correio Premente

De Quintílio Carrapeta, lugar do Mal Lavado, freguesia de S. Teotónio, concelho de Odemira: “Meu caro amigo, perdi um guarda-chuva e estou muito enervado, pois era de estimação. Corri tudo. Cheguei a ir a Almeida, à agência da Caixa Geral de Depósitos que foi fechada à falsa fé. Cheguei a ir à fonte de Castelo de Vide, ao alto do Castelo de Monsanto, ao parque termal de Caldelas, à escadaria do Bom Jesus de Braga, à Mata do Buçaco, às linhas de Torres, ao Museu Grão-Vasco, em Viseu, ao zimbório do templo de Santa Luzia, em Viana do Castelo, à Penha de Guimarães, às ruínas da Estalagem Gado Bravo, em Vila Franca de Xira, ao Choupal de Coimbra, à ilha da Culatra, às fisgas do Ermelo, à Lagoa das Sete Cidades, à ilha do Lombo, em Tomar, ao Museu do Cinema de Melgaço, ao sítio das pedras parideiras na serra da Freita, a S. João da Pesqueira, a Vila Nova de Foz Côa, a S. Romão do Coronado, a Lamego, a Figueira de Castelo Rodrigo, a Vilar Formoso, ao Museu Malhoa, nas Caldas da Rainha, à Feira de Velharias de Aveiro, e nada... Agora que não se pode ir a lado nenhum sem guarda-chuva, pois chove em qualquer época do ano, por causa dos chineses, segundo disse o ‘Imperador Trum’, o que fazer?...”

 

Meu caro amigo, pode não ter ainda encontrado o seu estimado guarda-chuva, mas quantos locais interessantes revisitou. Continue a sua digressão e no final escreva um livro de viagens. Daí a ter um programa de televisão só seu, vai um pequeno passo. E que maravilha não confundir um guarda-chuva com um chapéu, ao contrário do título daquele celebrado livro do Oliver Sacks... Parabéns por isso!

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