Enric Vives-Rubio

Crónica

Sou professora contratada… e feliz!

Passei a tentar ver o lado positivo desta minha vida itinerante. Ando sempre com “a casa às costas”, é um facto, mas aprendi, com isso, que não necessito de uma casa “cheia de muito”. Tornei-me mais minimalista, mais simples, logo, mais livre

Texto de Estefânia Barroso • 02/08/2017 - 11:30

Estefânia Barroso
Estefânia Barroso é professora de Português e de Educação Especial

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Terminou, no passado dia 31 de Julho, o concurso de professores para Contratação Inicial e Reserva de Recrutamento. Para quem não está inserido nestas lides dos concursos, este nome pomposo pouco lhe dirá. Passo a explicar: trata-se do concurso que irá ditar a sorte de muitos e muitos professores que ainda são contratados, não pertencendo, ainda, a nenhum quadro de zona pedagógica nem a nenhum quadro de agrupamento. Assim, e depois de aferidas as necessidades restantes nas escolas, serão colocados alguns professores na contratação inicial no início do ano ou, ao longo do ano, na Reserva de Recrutamento. Quer isto dizer que, neste momento, existem muitos professores (licenciados e, a maior parte, com vários anos de serviço) que ainda não sabem qual será a escola e cidade para eles reservadas em Setembro ou, sequer, se terão alguma escola onde leccionar. Eu faço parte dessa “categoria” de professores contratados e com futuro incerto.

 

Quando me apresento e digo que sou professora de Português sinto algum interesse e respeito por parte das pessoas. Referem como deverá ser difícil ser professora de Português numa época em que a língua-mãe é tão maltratada, numa época em que a juventude se demonstra tão difícil. Quando refiro que sou professora de Educação Especial, no geral, olham para mim como alguém que tem uma missão difícil e sinto que o respeito é ainda maior. Contudo, quando digo que sou “professora contratada”, num ápice o olhar de respeito transforma-se num certo ar de comiseração e pena.

 

O professor contratado é aquele que, como se diz popularmente, “anda sempre com a casa às costas”. É aquele que percorre quilómetros (muitas vezes às centenas) para poder trabalhar. É aquele que luta para ter tempo para a família porque, para além do muito tempo que a profissão lhe rouba, ainda tem de roubar tempo para as intermináveis viagens. É aquele do futuro incerto. É aquele que, no final de cada ano lectivo pensa: “Esta poderia ser “a” escola, a minha escola. É aquele que, todos os finais de ano lectivo se vai embora, deixando saudade em alguns, recordações noutros ou sendo aquele que apenas é alvo de uma breve alusão pelos “professores da casa”: lembram-se da professora de português contratada do ano passado? Que será feito dela? Onde estará este ano? No fundo, professores que rapidamente serão esquecidos, substituídos por outros contratados que entretanto chegarão. E, posto isto tudo, quase que me apetece dar razão aos olhares de pena e dizer: “Coitadinhos dos professores contratados!!”

 

Assumo que durante muitos anos me considerei assim: “Coitadinha!”. Pensava: “Coitadinha de mim! Mereço mais da vida! Deveria escolher outra profissão! Mas… caramba, gosto tanto desta! Sinto-me tão bem quando me é dada a possibilidade de trabalhar!”

 

Contudo, aos poucos, senti que algo mudava em mim. Passei a tentar ver o lado positivo desta minha vida itinerante. Ando sempre com “a casa às costas”, é um facto, mas aprendi, com isso, que não necessito de uma casa “cheia de muito”. Tornei-me mais minimalista, mais simples. Tenho o kit de sobrevivência — aqueles sacos que ficam feitos no final do ano lectivo, que saíram da antiga casa e seguirão para a nova casa quando iniciar o novo ano lectivo. Não preciso de muitos objectos, muita decoração para me sentir em casa. Mais simples, logo, mais livre.

 

Não trabalho, nem vivo, em grande parte do ano, na minha cidade. Mas… tenho o prazer de conhecer e de passar a viver, temporariamente, em várias cidades (e vilas) deste pequeno país. Costumo dizer, com um certo tom jocoso, que posso chamar de casa a quase metade das cidades deste país (releve-se o exagero). Mas a verdade é que eu até gosto disto! Não sou uma cidadã do mundo mas sou uma cidadã de Portugal. Posso dizer que parte do meu coração ficou em várias cidades deste país: Coimbra, Albufeira, Estremoz, Avis… apenas e só para citar algumas! Conheço, por dentro, várias cidades portuguesas assim como as suas gentes. Gosto de conhecer os locais, as tradições, os pequenos restaurantes que apenas os da terra conhecem e onde iremos encontrar, provavelmente, as melhores tradições gastronómicas. Gosto de perceber o quão diferentes podem ser os alunos de cidade para cidade: não existe comparação entre alunos de Portalegre ou Avis e alunos de Albufeira. Tão diferentes nas suas vivências e formas de estar e, contudo, tão idênticos no desafio que representam: conquistá-los, trabalhar com eles da melhor forma para poder atingir os objectivos e deixar, quando vamos embora, a melhor recordação de profissionalismo e humanidade. Não será este desafio constante algo de positivo?

 

Outro factor positivo que constatei: como professora contratada tenho o prazer de conhecer imensas pessoas. Em anos mais positivos dou o epíteto de “família lá da escola”. Inevitavelmente alguns colegas passam, ao longo do tempo, a ser amigos e considerados como família. Passam a ser a família com que podes contar naquela cidade que ainda estás a conhecer. Com eles irás partilhar angústias e incertezas quanto à escola, ao trabalho e ao futuro. Irás partilhar o teu dia-a-dia. Serão aqueles com quem poderás contar para te ajudar num qualquer problema que tenhas naquele local. E, será com eles que irás partilhar os momentos de divertimento, os jantares, os tempos livres que têm de ser vividos fora da tua casa e da tua cidade. Sentes, a determinada altura, que serás o eterno aluno universitário (e não te incomodas com isso!). Manténs o hábito de “hoje jantamos em minha casa? Amanhã na tua?” As actividades implicam sempre “aquela família”: seja uma visita à cidade e aos seus monumentos, uma ida à praia, uma ida ao café mais popular da zona. No fundo, tentas retirar, tu e os que te acompanham, o melhor partido daquela situação precária. E chega o momento em que percebes que, como professora contratada, estás a viver uma vida diferente mas que a estás a aproveitar da melhor forma. Percebes que tens uma liberdade que muitos não têm. Olhas para os teus amigos, aqueles que têm emprego estável, sempre na mesma cidade, os empregos das 9 às 5, e pensas: seria capaz de me adaptar? Hoje, mais do que nunca, penso que não. Penso que um dia esse momento chegará mas, por enquanto, escolhi retirar o melhor que esta vida me dá: liberdade.

 

Sou professora contratada? Sim. Mas não sou coitadinha. Sou livre e trabalho todos os dias para a felicidade. Escolhi retirar o melhor que esta vida me dá: a possibilidade, constante, de fazer novas amizades; a possibilidade de conhecer outras cidades, outras formas de ser, estar e viver. Identifico-me e vivo de acordo com as palavras de David Fonseca:

 

"Sou ave rara, sou fruta cara

Fugi dessa gaiola, não sou de cativeiro

E assim eu fiz, fui ser feliz

Ser feliz é trabalho que dura o ano inteiro"

 

Um dia deixarei de ser, eventualmente, professora contratada. Passarei a fazer parte de um Agrupamento e aquele passará a ser o meu agrupamento de escolas. Eventualmente… Mas por enquanto sou feliz assim. Sou feliz porque aprendi a retirar o melhor da situação, aprendi a ser menos exigente no que às “condições ideais” de trabalho diz respeito, aprendi a ser menos exigente com a vida em geral e, provavelmente por isso, aceito o que a vida me dá. Revoltar-me com a situação só iria dificultá-la ainda mais. Claro que luto para mudar a situação precária. Não me acomodei. Mas enquanto ela muda e não, decidi ser feliz com o que tenho. Quantos poderão dizer o mesmo?

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