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Palavra de Aurélio

Melancolia

Uma vez por semana, vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa

Texto de Aurélio Moreira • 25/07/2017 - 15:06

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Voltemos à mesa grande do meu escritório-biblioteca, agora célebre, que hoje, em vez de livros, tem sobre o tampo intemporal uma colecção de montinhos de cartas cujos sobrescritos combinam com o branco da cambraia das cortinas, os mais pequenos, e com o amarelo dos reposteiros de veludo, os maiores. Fazem-me bem estas cartas, nesta condição de caixas ainda por abrir, que me permitem imaginar o que eu quiser do seu conteúdo. Como não imagino que outra motivação pode haver para escrever a alguém que não se conhece que não seja a simpatia – exceptuando talvez uma ou outra instituição como a Guarda Nacional Republicana, a Polícia de Segurança Pública, a Polícia Judiciária, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, a Autoridade Tributária e Aduaneira, a Direcção-Geral dos Transportes Terrestres, concessionários de auto-estradas “sem custos para o utilizador”, bancos e demais fornecedores de lenha para nos queimarmos, distribuidores de electricidade, gás, água, Internet, telefone fixo, televisão por cabo –, entendo estas manifestações como donativos misericordiosos.

 

Entre elas seleccionei uma que, mesmo fechada, irradiava o augúrio das boas notícias. E eram. Não são sempre boas as notícias de um espírito sensível partilhando a sua sensibilidade? Li: “Quando escreve as crónicas, em quem pensa? Escreve para alguém em especial?... Fico intrigada quando o leio, pois parece que escreve para mim. E, no entanto, nunca nos conhecemos. É curioso...”

 

Sim, escrevo para alguém especial, alguém muito especial, cuja especialidade maior seja a de sentir esta ou aquela ideia, observação, meditação minha como uma parte que lhe faltava e que se lhe encaixa sem dificuldade, naturalmente. Sabem aquelas pessoas que nos surpreendem por aparecer e nos fascinam por serem como são, nos gestos, entoações, pontos de vista, expressões, sorrisos, suavidades, raciocínios que nos completam, aqueles interlocutores que nunca tivemos perto quando precisávamos deles e que quando se descobrem monopolizamos para recuperar o tempo perdido e pôr a conversa em dia às golfadas, a sentir tudo novo, tão grande tudo em volta? Quem me dera ser assim para alguém que me leia! Imagino-me a ser um instante de frescura no calor das pressões, a lufada que adiou o sufoco, o empurrão que fez chegar ao cimo da colina, de onde se veja uma outra vida com vida, o abraço que revele que existe fuga ao emprego-condenação, às contas por pagar, à terra onde não temos qualidades suficientes para fazer milagres.

 

Procuro sempre aquelas almas a quem o que escrevo possa fazer alguma diferença. Atiro as imagens de palavras como se fossem aviões de papel do alto da torre mais alta do meu castelo alto: quanto mais alto, mais o vento as pode segurar por mais tempo, levando-as mais longe, lá onde possam cair aos pés de quem não as deixe no chão, idealmente de quem goste de as guardar perto do coração, já que foram feitas para essas intimidades, aquelas que cantam os Corrs em “Intimacy”.

 

As portas de vidro do meu escritório-biblioteca abertas para fora, para fazer correr a brisa que corte o exagero de certos momentos do Verão, fazem-me chegar ecos de uma daquelas canções que nos farão estremecer até morrermos, pela significação de universos associados à letra e à música originais pelos nossos episódios de vida: “Sad Lisa”, do Cat Stevens. Não é antiga esta canção, não tem idade, é apenas da minha época. E sê-lo-á sempre. Coincidentemente, representa o tal tipo de pessoa a quem gostaria de escrever quando escrevo: alguém que sofre e cuja evidência maior de que sofre muito é a impossibilidade de me dizer porquê, de quê. É mais difícil de atender, porque não fala, mas é mais digna de respeito e de urgência, porque nem consegue falar. E depois aquele solo de violinio e violoncelo que fala comigo, embora não fale de coisa boa. Fala por ela e fala comigo. Até hoje.

 

Estou aqui, se me quiseres, para me salvar a tentar salvar-te... Serão muito bem-vindas as tuas lágrimas sobre a minha camisa, no meu ombro, pois o amparo que te terei dado fez-me sentir o teu corpo contra o meu, logo existo. E porque existes triste e isso não é como deveria ser, deixa-me levar-te de volta à vida que não consegues ver acima desse sofrimento que cega, dessa escuridão que nos apaga.

 

Às vezes, escrevo para essa Lisa, e também para aquela que, no comboio, de volta a casa após um dia de trabalho fora, tenta esquecer no desenho que faz com uma agulha e um fio de algodão a casa onde vai encontrar mais trabalho e uma vida que não andou no sentido dos sonhos e que agora está parada; aquela Lisa jovem que, no meio da animação de uma festa, se debruça à janela sozinha, à procura lá fora do que não encontra lá dentro e do que não quer encontrar no fundo dos copos com que as pessoas se alegram quando não têm motivos suficientes para se alegrar; aquela Lisa que dá por si a não se reconhecer naquela pessoa que toma conta de uma mãe que não reconhece, como se as duas tivessem sido apanhadas de surpresa por uma situação que veio demasiado cedo, demasiado cedo, e que, aliás, nunca deveria vir porque ninguém, mesmo com ajuda, está preparado para isso e nunca estará; aquela Lisa que, de repente (tudo o que assusta é de repente), ficou sem marido nem filhos, quer porque fugiram para outro país, quer porque deixaram de estar neste ou noutro qualquer e ela foi com eles também, sem saber onde estão, sem saber onde está; aquela Lisa que precisava que as instituições funcionassem como deveriam funcionar para apoiar eficazmente quem já sofreu o choque de uma doença súbita, de uma complicação inesperada e grave numa operação de um ente querido, e tem de enfrentar tudo isso mais a ineficácia dessas instituições que a deveriam ajudar e que por vezes até estão na origem da sua tragédia, a começar pelos hospitais; a Lisa que se esgota em cada dia, a trabalhar para objectivos impossíveis de menos pessoal e mais trabalho, de mais trabalho e menos dinheiro, de horas flexíveis e horizontes inflexíveis, de situação laboral precária e de falta de oportunidades bastante definitiva; a Lisa que perdeu o trabalho com que pagava a prestação ao banco do empréstimo da casa e que agora, mais velha e mais doente, tem de aprender a replicar o milagre da multiplicação dos pães em dez lições, desde que seja rápido; aquela Lisa que já sentiu o frio daquele frio que nunca passará, por mais quente que seja agora e sempre a água do banho, e a fome daquela fome que nunca passará por mais que estejam a abarrotar a despensa e o frigorífico; a Lisa que é o único amparo de uma irmã especial cuja responsabilidade herdou dos pais que morreram, tornando-se irmã-mãe; a Lisa que volta, após o trabalho, para os gatos e os livros mas que procura seja lá o que for que não está nos livros nem nos gatos; a Lisa que chora; a Lisa que sente uma solidão que chupa o sangue até ao desmaio; a Lisa que não volta para casa porque não tem casa; a Lisa que não pode sair de casa porque não tem voz nem escolha, só a realidade de ser telecomandada pelo terror.

 

Muitas Lisas, muitos problemas. Mais problemas do que Lisas. Mais as Lisas que são homens, não os autores da violência doméstica física, mas os recebedores da violência doméstica psicológica. Mas se, por palavras e pensamentos (dispensemos os actos e as omissões), eu for alívio momentâneo do frio de uma dessas e de outras Lisas, aliviando algum do meu frio, se conseguir fazer esquecer a fome de uma delas, esquecendo alguma da minha fome, se conseguir deixá-la saber que nos podemos associar, por momentos, numa irmandade de melancolia benigna, dividindo o que faz mal, diminuindo-o, fazendo-o encolher, criando lugar para entrar o que faz bem, estará servida a necessidade de fazer alguma coisa por aquela pessoa de quem se sentiu a sua pena como nossa. Para quem sofre, beijos, abraços e flores.

 

Já se sabe que eu falo do alto do meu castelo, do alto do conforto publicamente conhecido da minha família, dos meus amigos, das minhas cambraias e veludos, das minhas estantes de livros, das minhas árvores, dos meus pássaros em liberdade, das minhas torres altas, dos meus automóveis, das minhas confrarias, das minhas associações, das minhas medalhas, das minhas honrarias. E, no entanto, dou por mim, de tempos a tempos, de olhar fixo, debruçado à janela...

 

Fecho a janela, sento-me à minha mesa, ponho a tocar a canção-elixir “Gold on them hills”, do Ron Sexsmith, e ponho-me a escrever para quem aconteça de me ler. Ainda há muita noite para passar.

 

Correio Premente

De Perpétua S. Amante, freguesia de S. Domingos de Ana Loura, concelho de Estremoz: “Uma sobrinha minha que anda a tirar um curso superior para ser apresentadora de programas de televisão como a Cristina Ferreira e a Teresa Guilherme e assim e que sabe que eu gosto da Agatha Christie e que preciso de ter coisas para passar o tempo, chamou-me a atenção de uma coisa que o Sr. escreveu num sítio chamado P3 e que me fez soltar umas boas gargalhadas como há muito eu não soltava. E olhe que quem me conhece sabe que eu não sou muito de soltar. Não me leve a mal dizer-lhe que é mais fácil ir a Fátima a pé do que ler uma notícia sua até ao fim, mas já resolvi isso porque a minha sobrinha tem uma coisa no telemóvel que faz resumos de livros que ela usa para estudar e que apara a palha toda e só deixa mesmo o sumo. Foi só quando cheguei ao fim do terceiro resumo que deitei as mãos à barriga e ri a bom rir. Até me atirei para o chão, a pedir bolachas baunilha. Não, o seu mal é faltar-lhe animação e mais personagens, para além daquelas que detestamos. Faltam-lhe as outras, as que nós gostamos, as misteriosas. Falta-lhe intriga, uns venenos, uns inspectores da polícia, uns prazos que prescrevem para salvar os vilões, umas custas judiciais que só um por cento pode pagar, uns inquéritos que dão resultados, tudo passado em casas inglesas. Aconselho-o a fazer um curso de Verão de escrita criativa com a minha sobrinha, que é assim que ela ganha para os seus alfinetes, isso e a alugar o apartamento dela a estrangeiros enquanto dorme no sofá-cama que eu tenho na sala. Experimente. Não sabe o bem que lhe fazia.

 

Agradeço-lhe, penhorado, a preocupação que demonstra ter, ou ter tido, em algum momento, por mim. O seu texto confunde-me. Não faço a menor ideia a que passagem se refere que pode ter sido tão hilariante, mas gostaria. No entanto, quando fala em “bolachas baunilha”, penso que se quer referir a bolachas de baunilha ou, melhor ainda, a bolachas com recheio de baunilha, umas bolachas rectangulares, vendidas antigamente em pacotes de cinco ou seis, constituídas por uma espécie de sanduíche de duas partes de uma bolacha dita americana (tipo língua-da-sogra) com um creme branco de sabor a baunilha no meio. Há 50 anos, era um luxo. Obrigado, mas não gosto de dormir em sofás-camas.

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