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Crónica

Musgo

Uma vez por semana, vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa

Texto de Aurélio Moreira • 12/06/2017 - 15:23

Aurélio Moreira
Aurélio Moreira é copy editor no PÚBLICO.
Aurélio é também o nome de um dicionário

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A natureza leva o seu tempo a resolver problemas, mas isso não chega a ser um problema, porque é um tempo que é parte sua, que não se gasta, apenas é. E assim concebe, constrói e apresenta obras completas que nos poderiam fazer ficar mudos de espanto se tivéssemos capacidades de observação e entendimento para tanto. Parece que não, que não temos aptidão para renovar interesse no que ou em quem está sempre connosco. Cansamo-nos. Poupamo-nos para o que é diferente, exótico, raro, caro, importado, estrangeiro ou, sendo nosso, já desapareceu (mas antes de desaparecer era vulgar). A fome do diferente chega a ser tão forte, hoje em dia, que não se conseguem fabricar diferenças à velocidade da “procura”, recorrendo-se à reciclagem das novidades de décadas anteriores à consciência das gerações mais activamente consumidoras. Do mesmo modo, abrem-se negócios “diferentes”, que são sempre baseados em “novos conceitos”, mesmo que sejam o das brincadeiras sem viabilidade económica ou o da gestão ignorante.

 

Quando a obra natural é grande, os mais industriosos entre nós tentam copiá-la em versão sintética, manipulável, reproduzível em quantidades industriais, quase sempre em plástico, prà menina e prò menino partirem à vontade. Assim se produzem montanhas colossais de bricabraque. Outros, com outra abordagem, tentam imitá-la relevando as suas características mais fortes, mais inovadoras, mais aplicáveis na construção do nosso espaço individual ou comum. Assim se fazem objectos úteis. Outros ainda tentam reproduzi-la sob o ponto de vista estético, protegendo cuidadosamente no regaço aquela chamazinha, aquele pedacinho de essência, aquele brilho, aquela cor, reflexo, forma, estrutura, confluência, agregação, conjunto. Assim se fazem obras de arte.

 

Em lugares mais sombrios e mais húmidos do meu castelo, sobre muros, recantos de paredes exteriores, aparecem retalhos de pano grosso em tons de verde lindíssimos, irregulares, descontínuos, como joelheiras de que as esquinas das colunas ou das casas se protegessem de pancadas ou do frio. São cobertores, são mantas, aventais usados pelo reboco das fachadas ou pelo cimento dos terraços feitos do veludo da natureza que é o musgo. Esteve bem o homem ao fazer um musgo artificial com a qualidade do veludo. Esteve bem. Quase conseguiu superar o original, melhorando a macieza, a homogeneidade, a conservação, a plasticidade. Só não está vivo.

 

Em duas épocas do ano, pelo menos, é preciso apelar à coragem de arrancar o musgo aos suportes de que aquele deveria ser adorno perpétuo e respeitado. Não é para todos, mas os mais audazes (a quem, ainda por cima, a sorte favorece), usando de uma brutalidade inconsciente, conseguem separar sem remorso as plantas muscíneas dos seus berços e perpetuar o uso antigo de com ele se fazerem tapetes, sobre tábua ou tabuleiro, para recriação de um modelo reduzido de um presépio, no Natal, ou de uma cascata, no mês dos santos populares, consagrada a Santo António, São Pedro ou São João, de acordo com o padroeiro da terra natal ou adoptiva.

 

Primeiro concebe-se o cenário. Com a ajuda de pedras de tamanho variável, rolhas, papel, cartão, trapos, terra ou, para os mais empenhados, betume, é possível recriar os acidentes topográficos que minusculamente contribuem para criar relevos e fugir ao aborrecimento da tábua plana: aqui uma colina, além um outeiro, um vale, um recôncavo numa encosta, um caminho, um promontório, um campo de cultivo, um lameiro. Tudo forrado a musgo, que só se abre para pôr à vista um leito de rio feito a papel de prata ou de chumbo, ou pintado a tinta azul sobre a base de madeira. Pronta a cascata, que é época delas, é tempo de dispor alguns penedos, alguns raminhos que passem por árvores e, finalmente, o momento mais solene, mais gracioso e de maior entusiasmo: a disposição minuciosa dos bonequinhos de barro seleccionados de enorme colecção disponível, em função do gosto, do plano e da bolsa de cada construtor desta pequenina obra de largo alcance emocional.

 

Com umas cores garridas que parecem querer compensar moldes um pouco toscos, há que escolher quais, entre tantos, vão povoar o terreno coberto de verde, entre reproduções simbólicas nem sempre à mesma escala de casinhas, igrejas, moinhos, pontes e fontanários. Há pastores com ovelhas ao ombro, há ovelhas em pé e deitadas, há pescadores, o padre e os seus acólitos na procissão, vendedoras de peixe, de pão, de gansos, com grandes cestos e gigas à cabeça, cântaros de água, e até uma enorme abóbora, há um conjunto de músicos de banda filarmónica, cada qual com o seu instrumento, há sapateiros, moleiros e burros carregados de sacos. E é não esquecer o santo respectivo, que aqui é o São João. É fácil fazer um grupo feliz de meia dúzia de figuras. E quando o projecto cresce para além da média ou o esmero dos pormenores e acrescentos supera o previsível, convidam-se os amigos para ver.

 

O meu mordomo Galhardo, que executou muito bem este projecto que segui com a máxima atenção, assim mo sugeriu e assim se fez. Mas fomos vítimas do nosso próprio êxito. A tal ponto que a multidão que se aglomerou às nossas portas, via-a perfeitamente retratada na obra “O Caso Girassol”, de Hergé, na última vinheta da página 13, tanto na edição da Difusão Verbo como na original da Casterman.

 

Convido os pais de crianças e jovens a, com este interlúdio de musgo e barro, interromperem a torrente de conteúdos audiovisuais electrónicos que os seus filhos consomem em doses pantagruélicas. E é possível que aqueles que o conseguirem fazer venham a apresentar aos seus descendentes impacientes uma daquelas memórias de infância ou juventude que tanto não se apagam como, quantas vezes, têm a probabilidade de ser repescadas mais à frente, já na casa ou apartamento da criança e do jovem que cresceram, para aí recriarem o que em tempos viram e fizeram, à medida do seu espaço, no Porto, em Lisboa, Londres, Paris, Nova Iorque, Rio, São Paulo, Jundiaí, Presidente Prudente, onde se encontrarem por escolha ou destino. É possível. Mesmo sem musgo, mas sempre com a memória do pedacinho deles que o musgo é.

 

Correio Premente

De Beltrão Coelho de Matos, lugar de Charca de Gravatos, freguesia de São Brás e São Lourenço, concelho de Elvas: “Caro amigo, queria dar-lhe os parabéns pelas coisas que escreve e que demonstram que se esforça e que já deve escrever há muito ano e continua a tentar lá chegar. Não desanime. A única crítica que lhe faço é a de o meu amigo ainda não ter aprendido a fazer devidamente a ligação das suas ideias ao mundo empresarial e quem não consegue fazer essa ligação não se governa porque é nas empresas que está o dinheiro. Abra um negócio, nem que seja a vender pipocas. Aprendi essa com um grande gabiru do marketing que quase foi contratado por esse grande ministro do nosso país, esse grande motor de desenvolvimento que foi o ministro Miguel Relvas. Que cabeça! Assim fiz, pus mãos à obra, concentrei-me no meu projecto e hoje já tenho uma fábrica de concentrado de tomate no meu quintal que é um mimo. Até podia exportar para a Checoslováquia se conhecesse lá alguém, mas não conheço. Além disso, disseram-me no centro de saúde que esse país até já não existe, desapareceu por causa dos gases da estufa que os chineses inventaram para cooperar com os povos subdesenvolvidos e para poderem abrir lojas de monos sem pagar impostos. Lá está: ligaram as ideias ao mundo empresarial. De qualquer maneira, quando passar por aqui, dê uma apitadela que se arranja um peixe frito, umas fêveras, um gaspacho, umas favas com chouriço, o José Cid, qualquer coisa. É mesmo junto à casa do Gregório, não há que enganar.”

 

Caro amigo, obrigado. A sua súmula económica da actual realidade empresarial está à altura do que vamos publicando do trio Bagão Félix-Ricardo Cabral-Francisco Louçã, só que apesar de eles serem três e o senhor só um, a profundidade que demostra na sua análise vai pô-los em dificuldades para tentarem corresponder a um novo nível de exigência. Mas isso é bom, para impedir que eles cruzem os braços e se deixem adormecer à sombra dos louros que julgavam que tinham, se é que conseguem adormecer de braços cruzados. Quando eu passar nas suas imediações, fique descansado que levarei o meu apito da polícia inglesa dos anos 40 que comprei em Portobello Road e usá-lo-ei orgulhosamente.

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