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Crónica

A defesa patrimonial começa por ti e agora!

Vamos todos proteger o património e proteger o passado, para que com a história possamos fazer memória dos povos e civilizações que viveram antes de nós e que nos deixaram marcas indeléveis no nosso quotidiano

Texto de João Cid Brito • 08/06/2017 - 09:30

João é mestrando em arqueologia. O teatro é a sua segunda casa.

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As gravuras não sabem nadar! Não, as gravuras não sabem andar de bicicleta, nem tão pouco sabem queixar-se para que indivíduos as possam danificar, a seu bel-prazer. Às vezes questiono-me se as gravuras estariam a prejudicar alguém, para que fizessem uma atrocidade destas. Parece que neste assunto é necessário, voltar atrás, a tempos em que nem eu, nem os presumíveis autores deste vandalismo, se lembrarão. O que é certo, é que este património foi protegido pela maioria dos cidadãos, que não permitiram que uma atrocidade de outrora que seria, a construção da Barragem do Côa, e que deixaria submerso todo aquele património. Este fora reconhecido não só em termos nacionais, mas também internacionalmente pertencendo à UNESCO, levando ainda este assunto à competência do Governo e do Presidente da República, a voz uníssona era clara, preservar todo aquele património e que a obra iniciada pela EDP parasse. A visita de investigadores portugueses e estrangeiros, deram visibilidade àquela que havia sido a descoberta da década e que receberia o galardão da UNESCO em 1998.

 

Décadas passaram, e muita coisa mudou. Não, Foz Côa e as suas gravuras não perderam a sua importância, mantiveram-na, deu-se a construção de um museu e a ideia da preservação sai do papel e dos gabinetes é executada, cria-se em 2011 a Fundação para a Salvaguarda e Valorização do Vale do Côa, realizam-se trabalhos arqueológicos na região, prospeta-se mais território e identificam-se mais gravuras.

 

O Estado Português, a Direção Geral do Património Cultural, o Ministério da Cultura, o Ministério da Justiça, a Direção Regional de Cultura do Norte, os autarcas dos Municípios que compõem o Vale do Côa não podem permitir que estas atrocidades possam passar impunes, estas e outras. Não me querendo restringir a Foz Côa, mas referindo-me cada vez mais à arqueologia e cultura em geral, não é num país que cala, destrói e perdoa ataques severos à cultura que eu quero viver, nem que eu quero exercer a minha profissão. O papel de proteger o património passa também pelas comunidades locais ou associações locais, porque, quem não for capaz de proteger e reconhecer o seu próprio património histórico-arqueológico, cultural, natural, não é capaz de reconhecer o património vizinho. Quem não se orgulha da sua história, não se orgulha da memória dos seus antepassados, e se assim for, com que respeito queremos nós ser tratados, quando alguém analisar o nosso ‘modus vivendi’? Todos os autarcas têm mecanismos de proteção patrimonial, mas que só fazem sentido se com eles se construir um mundo mais uniforme na cultura e na arqueologia, um mundo menos destrutivo.

 

De Foz Côa, para Alcobaça até ao Convento de Cristo, em Tomar, onde quem defende o património, foi novamente ridicularizado por um realizador de cinema, que mais uma vez, lesam o património, mas com conhecimento da Direção Geral do Património Cultural, a fogueira de 20 metros de altura, a destruição de alguns elementos arquitetónicos do claustro que se encontram partidos, alguns sem restauro possível. É de uma falta de civismo e de cultura enorme, quando se utilizam monumentos nacionais ou mesmo monumentos galardoados pela UNESCO, com eventos destrutivos! Não é o valor a pagar pela empresa responsável pelo filme que irá financiar, problemas e destruições irreparáveis, ou até vir a despoletar situações devido a este abuso contra o património. Revolta-me que a Direção Geral do Património Cultural, tanto zele pelos interesses do seu património afeto, aquando dos trabalhos arqueológicos pedidos por um profissional e que deixe passar incólume uma situação que é aprovada por eles, por motivos alheios à defesa patrimonial. Como mestrando em arqueologia e futuro arqueólogo, recuso-me a revisitar sítios como Foz Côa, Alcobaça e o Convento de Cristo, enquanto a tutela não tomar decisões que, acima de interesses económicos estejam os interesses patrimoniais, históricos e arqueológicos, de um passado que deixou à nossa disposição, obras primas de arquitetura.

 

Vamos todos proteger o património e proteger o passado, para que com a história possamos fazer memória dos povos e civilizações que viveram antes de nós e que nos deixaram marcas indeléveis no nosso quotidiano.

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