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Crónica

Ser multidisciplinar é uma forma de especialidade

Será que chegámos à era dos especialistas na generalidade? Ou será que ser multidisciplinar é apenas uma forma adaptável de ser flexível perante um mercado de trabalho em mutação?

Texto de Micael Sousa • 31/05/2017 - 17:24

Micael Sousa, Eng.º Civil e Mestre em Energia e Ambiente, estudante apaixonado por História, membro de várias causas

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Se bem me lembro dos inúmeros conselhos que nos faziam, era comum recomendarem a aposta na nossa formação, na especialização, de preferência em áreas prestigiantes e onde pudéssemos ganhar bom dinheiro. Mas ao longo do meu percurso académico/profissional fui concluindo que era mais interessante cruzar conhecimentos de várias áreas do saber. Tornei-me gradualmente divergente — pelo menos pensava eu na altura.

 

Acabei por perceber que existiam imensas áreas de trabalho em que a divergência e cruzamento de conhecimentos diferentes eram essenciais para produzir inovação e qualidade diferenciadora. Na concepção de produto, na gestão de projectos, na inovação e desenvolvimento em geral, no planeamento, no urbanismo, na política, no ensino e formação e para muitas outras áreas as competências multidisciplinares são essenciais e geram novas oportunidades de pensar, criar e fazer.

 

Se a especialização é necessária também não se dispensa a integração de pessoas de várias áreas na construção de equipas multidisciplinares. Hoje em dia dificilmente se faz um trabalho completamente sozinho, especialmente quando se tratam de tarefas e projectos inovadores e complexos. Só em teoria é que os projectos são totalmente monodisciplinares, sendo impossível desenvolverem-se de modo estanque, sem mobilizar diferentes pessoas e conhecimentos. Assim, a capacidade de comunicar e conjugar as várias áreas do saber, tal como as relações entre pessoas que detêm conhecimentos muito específicos, parece começar a ser uma área de especialização própria. Uma gestão de projectos, em sentido lato, para além das competências próprias de gestão, carece de conhecimento nas áreas de saber a mobilizar e interligar, nem que isso passe simplesmente pela necessidade de comunicar com os vários especialistas que participam no processo de desenvolvimento, aplicação, implementação e gestão.

 

Se considerarmos que se começam também a valorizar novamente disciplinas como a filosofia, história e artes para apoio ao desenvolvimento e inovação, tal como começa a ocorrer na própria gestão de algumas grandes empresas, ficamos com uma clara percepção de que a noção rígida de especialista pode estar a mudar.

 

Provavelmente haverá quem discorde desta visão. Pode ser apenas um erro de análise da minha parte. Mas essa possível discordância pode relacionar-se como o medo de sujeição à ignorância de outras disciplinas. Valorizar a multidisciplinariedade é assumir, em parte, a ignorância nas demais áreas que se desconhece, tentando compreender o que se ignora. Na prática isso pode beliscar alguns egos.

 

Seja como for, tudo parece apontar para a valorização dos especialistas. Mas também parece que o domínio da generalidade pode ser uma forma de especialidade, o recuperar dos filósofos à moda antiga, reinventando o conceito, em que se valoriza o indivíduo pelo seu conhecimento multidisciplinar e potencial para trabalhar como promotor e gestor da multidisciplinariedade.

 

Será que chegámos à era dos especialistas na generalidade? Ou será que ser multidisciplinar é apenas uma forma adaptável de ser flexível perante um mercado de trabalho em mutação? Quem for especialista o suficiente talvez tenha a resposta.

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