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Palavra de Aurélio

Eira real

Uma vez por semana, vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa

Texto de Aurélio Moreira • 23/05/2017 - 12:14

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Era uma vez um rei que tinha três filhas. Mas elas não eram princesas por ele ser rei; ele é que era rei porque elas eram princesas. Em vez de dever a antepassados ilustres a sua majestade, devia-a antes à sua descendência ilustríssima. E à majestade da sua mulher rainha, a argamassa branda e doce que unia filhas e pais e que mantinha funcional um castelo de pais e filhas, que ficava naquele país para lá do lugar onde o sol se põe.

 

Toda a gente sabe que nunca se deve falar da perfeição, mesmo num conto de fadas. Aparecem logo maus ventos, maus casamentos, novos impostos ou uma crise. E veio mesmo uma crise, que é algo inesperado nos contos de fadas, não porque nos contos de fadas não haja crises, mas apenas porque não há ali crises que não possam ser vencidas, no espaço de algumas páginas, por um príncipe encantado, por um rei guerreiro, por uma rainha feiticeira, por um criado esperto, por uma rapariga pobre mas bonita, por um jovem árabe num tapete voador, até por um gato de botas.

 

Por isso ninguém estava preparado para lidar com uma crise que, para quem governava, vinha de fora, para quem queria governar, vinha de dentro, para o povo, vinha do mar, como o Adamastor, ou vinha do lado do partido contrário ao de cada um, excepto para aqueles que não tinham partido, como era o caso do rei que morava naquele castelo, que era um bom lugar para um rei morar, principalmente se tivesse isenção de IMI e conseguisse pagar o aquecimento.

 

Ninguém estava preparado para mais uma crise importada dos EUA e que deixou o país dos contos de fadas com os pés de fora, sem meios de permitir ao Estado continuar a gastar mais do que o que recebia em impostos, fosse a aumentar salários a funcionários públicos nas vésperas das eleições ou outros brilharetes toscos, fosse a fazer contratos ruinosos de exploração de auto-estradas ou a materializar à força projectos de aeroportos e linhas de TGV de contos de fadas. E se ninguém estava preparado para a doença, também não estava para uma cura que tirou empregos a pessoas de 50 anos, que manteve outras, de todas as idades, no medo de os perder, que baixou os salários e os direitos laborais, que fez emigrar os jovens habilitados, em fuga a salários de 600 euros com rendas de casa a 400.

 

Que desagradáveis, estes contos de fadas modernos: não têm história que valha, não têm graça, não têm moral, não têm magia. Tal como as crises, são uma grande seca!... Mas não há como fugir a uma má história hoje em dia: a mais velha das tais três princesas que fizeram o rei da nossa história resistiu à emigração, saltando de trabalho precário em trabalho precário, sem horizonte de exercer a profissão da sua formação; a princesa do meio emigrou para a nossa antiga aliada Inglaterra, que, entretanto, decidiu ser aliada de si própria e abandonar a União Europeia, numa aparente “reedição do orgulhosamente sós” cá inventado sem grande sucesso; a princesa mais nova estuda ainda, sem saber o que vai ser quando for grande nem se o país que há-de ser o tal país atrás do pôr do sol lho permitirá um dia.

 

Se havia esperança, era porque o tal castelo continuava a aguentar-se como base sólida: ainda lá morava o rei que tinha três filhas – duas a batalhar fora, apoiadas pelos respectivos príncipes encantados, e uma dentro, com protecção paterna e materna – e a rainha, que, sendo profissional do seu ofício que a todos cobria de orgulho, continuava a ser mãe e madrasta da forma que tinha sido sempre: sempre mãe e nunca madrasta. Para tanta crise, majestade e meia...

 

Voltando à realidade, é em castelo um tanto semelhante àquele do dos contos de fadas que, em intervalo sem aulas e em que suspendo a passagem ao papel destas ponderações fantásticas, pego num saco que contém prancheta e folhas A3 e lápis de grafite e barras de carvão e sépia e pastel e vamos, a minha filha e eu, para um terreno a que os antigos empregados da casa chamam “o lado da eira”, onde há uns 60 anos existiu uma eira, ou seja, um recinto revestido a lajes de lousa (ou ardósia, ou chisto), limitado ou não por uma fiada de lousas baixas verticais, onde se malhavam as espigas dos cereais para fazer desprender, sem máquinas, os grãos que, no caso do milho, estão presos ao carolo, a parte esbranquiçada que fica no centro da espiga ou maçaroca.

 

Foi nessa eira que tantas vezes se estenderam esses grãos dourados a secar ao sol, revolvendo-os de vez em quando com um instrumento de madeira chamado rodo, uma meia-lua com cabo, para que os grãos secassem por igual, para serem guardados, finalmente, em grandes caixas verticais de madeira, as tulhas. Se fosse para consumir, abria-se um pequena portinhola em guilhotina e enchia-se, por exemplo, um saco de serapilheira. Se fosse para vender, media-se o milho com umas caixas de madeira quadradas, com duas pegas, chamadas rasas. Isto não me tinham contado; tinha visto eu, noutra vida, noutra eira.

 

Agora, sem vestígios da eira a não ser no nome do lugar, cresciam árvores de fruto e ervas num espaço que queríamos que fosse de relva. E entre as ervas variadas e espontâneas em que se reconhecia hortelã-pimenta, hera, alfazema e as terríveis silvas, uns lírios brancos e outros roxos tinham a função importante de invocar o nome da minha filha. E ela e eu, aproveitando o sol, aproveitando a vida, pegámos na prancheta ou num bloco para esboços e tirámos, à mão, uma fotografia lenta àquelas flores, àquelas árvores, como só cada um de nós era capaz – e nenhum melhor do que o outro –, humilhando os milhares de píxeis das máquinas que os telefones trazem lá dentro. Foi como se, os dois, debulhássemos milho à moda antiga, à mão. No lado da eira de um castelo de um rei que tinha três filhas.       

  

Correio Premente

De Romualdo Dinamite Silva, lugar de Cerca da Caganita, freguesia de Cercal, concelho de Santiago de Cacém: “Escrevo-lhe por indicação do Sr. Padre Miguel. Como ele me disse que o Sr. gostava de coisas antigas, tenho para lhe propor um televisor com um certo número de anos, um clássico, vá, como é que eu hei-de explicar, um daqueles modelos ainda bojudos, não sei está a ver, mas muito jeitoso, muito jeitoso, da reputada marca ITT, do melhor que se produzia aqui há uns anos porque naquela época não havia melhor, isto é que é mesmo assim. Repare que não lhe proponho um aparelho a lâmpadas. Já se trata de um aparelho devidamente electrificado e já com funções bastante avançadas. 88 canais e UHF. Só tem o ecrã um bocadinho rachado, o que infelizmente, faz com que não trabalhe, mas, de resto, está impecável. Só 120 euros. Quando quiser ver, e só apitar ao Sr. Padre Miguel e ele avisa-me e o sr. vai lá. E pode experimentar e tudo. Se não gostar, também negoceio em vários modelos de relógios. O meu forte são os estáticos. Com garantia.”

 

Não estou a ver quem possa ser esse Sr. Padre Miguel, a não ser que tenha vivido na Rua da Graciosa, no Porto. De qualquer modo, agradeço-lhe o cuidado, mas já estou servido quer de televisores, quer de relógios, quer de golpes de Estado, quer de barretes em geral.

 

De Júlio Dantas, lugar de Barrimau, freguesia de Calendário, concelho de Vila Nova de Famalicão: “Caro animador da coluna ‘Palavra de Honra’: admitamo-lo sem rodeios: porque é que a filatelia há-de ser sempre o ‘patinho feio’ dos ‘hobbits’?... Já cansa, não é verdade? Mas sobre filatelia, nem um pio... Nem um pio!... É preciso inverter! Até fiz uns versos que vou aqui identificar para o senhor publicar:

 

‘Uma pessoa como parece ser a sua pessoa,

Uma pessoa com uma cultura que se pode dizer boa,

Que quando escreve a sua voz ressoa

Que fala de uma coisa em cada dia

Porque não fala da alta filatelia

E de cada tolo com a sua mania?

Porque é que coleccionar selos não está na berra

Se isso impede os imbecis de ir para a guerra

E de querer roubar aos outros a terra?’

 

E continua assim por mais 16 estrofes até à parte a que eu queria chegar, e que é esta:

 

‘Se em Israel e na Palestina coleccionassem selos

Já não andavam todos a matar-se como uns camelos

E diriam uns aos outros nas feiras (filatélicas): ‘Prazer em conhecê-los!’

 

Também tenho uns versos dedicado a Famalicão (‘Famalicão de encantos mil/ És como aguardente num barril’, etc.), mas agora o que era importante era passar a mensagem da filatelia como ‘hobbit’ de paz. Não se esqueça.”

 

Tem razão. Se fala de paz, tem razão, com certeza. E nada tenho contra a filatelia. Considero-a, até, um passatempo muito digno e proveitoso, principalmente para quem não foi enganado por uma empresa espanhola que transaccionou “bens intangíveis” até falir. Prefiro selos tangíveis, daqueles que conseguimos meter num classificador com uma pinça e que, apesar do princípio da incerteza de Heisenberg, estão sempre lá arrumadinhos. Quanto ao Heisenberg, acho que quando lhe desaparecia qualquer coisa de casa dele, isso nada tinha a ver com algum fenómeno científico obtuso, como sabe perfeitamente quem tem bebés ou gatos. Ou dívidas de jogo. 

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