Chris Zúniga/Flickr

Crónica

Sou Doutor, e agora?

A liberdade para dar uso à criatividade, assim como restrições a esse nível, são atributos que, tal como tudo o resto que é dado como certo e constante na vida, perde importância com o passar do tempo

Texto de César Oliveira Costa • 13/03/2017 - 15:56

César Oliveira Costa
César Oliveira Costa, após participação no âmbito do Programa Doutoral MIT-Portugal, é hoje cientista na indústria farmacêutica

Distribuir

Imprimir

//

A A

No meio académico, um doutoramento representa um expoente máximo de sabedoria e resiliência. É símbolo de pró-actividade, criticismo e independência, atributos que amplificam o leque de oportunidades profissionais pois, acima de tudo, motivam segurança na hora da selecção do candidato. Neste contexto, universidade e indústria oferecem liberdades e oportunidades de carreira distintas, percursos alternativos com frequência divididos entre dois pratos da balança que os recém-doutorados utilizam como acessório de ponderação.

 

A evolução de uma carreira na academia desenrola-se através de um acumular de artigos científicos e respectivos factores de impacto. Com o passar dos anos, a chave para o sucesso surge de braço dado com a capacidade para atrair investimento externo que possa financiar a investigação de novas ideias e a formação de jovens cientistas. Este ciclo é por vezes pouco estável mas oferece grande liberdade para explorar o desconhecido, razão pela qual a carreira académica se afigura desde logo atraente entre os mais curiosos. Uma análise que é fruto de uma ponderação demasiado simplista, pois desconfio que o grau de liberdade associado à profissão não seja o factor de maior relevo na conquista da realização profissional a longo prazo. Ao invés, a satisfação diária do mentor e pedagogo ao fazer evoluir jovens no que toca à sua forma de idealizar, executar, interpretar e finalmente comunicar ciência, tem um impacto superior de cariz humano e poderá fazer a diferença no desenrolar de uma carreira académica.

 

As limitações ao nível da liberdade científica que tantas vezes impõe resistências a uma transição do recém-doutorado para a indústria são uma realidade frequente, já que qualquer investigação a um desafio sem potencial comercial ou desalinhado com o modelo de negócios não será apadrinhado pelo investidor. A indústria é caracterizada por falta de abertura a perfeccionismos de baixo retorno uma vez que as decisões são baseadas em análises de custo-benefício e, após criação da solução técnica, lidar com a burocracia associada à sua implementação pode constituir um segundo obstáculo que reduz margens de lucro e retira optimismo. Aos olhos do especialista académico, por natureza perfeccionista mas habituado a implementação rápida, tais restrições podem conduzir ao desconforto. Este panorama pode ser revertido mediante abertura a desafios de outras naturezas e consequente adaptação à nova realidade onde os momentos de execução, validação e manutenção excedem os momentos de criação. No longo prazo, o entusiasmo do profissional doutorado na indústria é, por múltiplas ocasiões, conquistado a partir de um constante cruzar de obstáculos ao nível da gestão do risco que se encontra sempre presente em qualquer momento de decisão. Afinal de contas, haverá razão lógica para que a criativa concepção do improvável pela via da ciência seja mais digna de orgulho do que o eficaz uso da perspicácia na prevenção do descalabro que a indústria tanto teme?

 

A liberdade para dar uso à criatividade, assim como restrições a esse nível, são atributos que, tal como tudo o resto que é dado como certo e constante na vida, perde importância com o passar do tempo. A realização profissional passa por encontrar mecanismos de acção onde nos seja permitido fazer e sentir a diferença dia após dia. É neste contexto que perspicácia e curiosidade constituem não só a essência do investigador, mas também a ferramenta que permite encontrar fonte de entusiasmo diário em qualquer que seja a frente de batalha.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que