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Palavra de Aurélio

Carmesim-de-alizarina

Uma vez por semana, vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa

Texto de Aurélio Moreira • 08/03/2017 - 17:58

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Bem-vindos. Peço-lhes que me dêem uns instantes para sair do recolhimento em que me encontro. Se não mo levarem a mal, também não levarei a mal que mo interrompam. É que acabei de pôr os últimos livros do último caixote de cartão que andava aqui pelo chão no lugar especialmente encomendado para eles: as belíssimas estantes de madeira maciça que forram as paredes do meu escritório e que o transformaram oficialmente em biblioteca. Pela primeira vez, tenho na mesma sala, em exposição ordenada, em posição de acesso fácil e lógico, toda a colecção de livros reunidos – encontrados, conquistados, ganhos – ao longo de uma vida. E só agora é possível aproveitá-los plenamente na sua função de serem complementares uns dos outros na demonstração de quantos mundos há no nosso mundo, incluindo o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, o que é tudo útil, muito particularmente para quem andar falho de sentido, propósito ou vontade. Melhor do que isto, só ter amigos.

 

Não espanta, por isso, a solenidade com que comemoro esta visão de lombadas multicores sequencialmente mostradas nos estojos por que ansiavam, brilhando no esplendor dos seus conteúdos e, em alguns casos, também nas particularidades da sua edição. Todos eles estando agora no lugar exacto que sempre tiveram na minha imaginação, curando-me daquelas dores de cabeça que não se aliviam com pastilhas de ter livros no chão com outros por cima, recordo, a propósito, uma passagem do livro “Q’s Legacy”, da escritora Helene Hanff (de quem me tornei amigo quando dela li “84 Charing Cross Road”), a propósito da mudança para a sua primeira casa em regime de auto-suficiência, um pequeno apartamento (tradução minha):

 

“Passei o final da tarde, primeiro, afundada na poltrona e, depois, na cadeira de baloiço sueca, moderna, para regalar os olhos com a sala de estar. A seguir, aninhei-me na alcatifa no meio da sala e fitei as filas de livros que me pareciam magníficos nas suas primeiras estantes a sério, nas paredes da saleta. E quando dei uma última olhadela demorada à sala, disse, em voz alta: ‘É um palácio.’”

 

Se eu não conhecesse quem me lê como as palmas da minha palmeira de 17 metros de altura, sucumbiria, por certo, à tontura maldosa de considerar que tamanha adoração não calha com tão fracos acólitos, mas não posso pensar nisso porque já tenho pouco tempo e espaço para conseguir falar de qualquer coisa que não seja uma coisa qualquer, para não se desvanecer o encantamento em que tenho trazido os leitores, cortando rentes as hipóteses que poderia eu ter de ascender a alturas e proventos com que pudesse pagar os consertos dos telhados por onde entram águas tão reais como as lendárias lágrima de Maria Madalena, a que junto as minhas, quando não há risco de alguém ver.

 

Vamos lá. Levanto-me do cadeirão de couro lavrado que não desfeia a secretária (secretária-mesa, não secretária-mulher) e escolho dois livros que sei exactamente onde estão: “Color – A Natural History of the Palette”, de Victoria Finlay, e “Bright Earth – The Invention of Colour”, de Philip Ball. E com os dois debaixo do braço, convido-os a entrarem comigo no meu estúdio de pintura. Sigam-me.

 

Afasto os reposteiros das vidraças e deixo entrar a luz clarificadora das cores e dos espíritos penumbrosos. Logo ficam à vista objectos que, mais do que aquilo que são, interessam pela possibilidade do que podemos fazer com eles, ou poderíamos, se soubéssemos, mas todos carregadinhos de sinais, símbolos, imagens, esperanças, sonhos, sugestões, lugares, maravilhas: cadernos e blocos, papéis enormes, de diferentes texturas, cores e espessuras, lápis de grafite, de sanguínea, pauzinhos de carvão natural, lápis de cores, barras e lápis de pastel, guaches, aguarelas, pincéis chatos, redondos, em leque, espátulas, cavaletes, telas, tintas a óleo.

 

Recordações de algo ou de alguém. De um desenho, de um quadro. Uma ilustração de revista. Da infância. Como aqueles desenhos mágicos do início dos capítulos do grosso livro de cozinha que a mãe tinha lá em casa, noutra vida. Como aqueles livrinhos infantis com margens onduladas, das Edições Majora. Como os amarelos e os vermelhos dos queijos dos problemas de Matemática da escola primária. Por vezes, apenas nomes, palavras: aguarrás, óleo de linhaça, essência de terebintina. Por vezes, apenas nomes de cores que nos faziam querer aprender a pintar. Palavras nomes de mundos de livros de histórias que estavam, de certeza, nos tapetes voadores e nas roupas dos vizires do tempo do Ali Babá e dos quarenta ladrões. Palavras e cores como carmesim-de-alizarina, do meu conjunto de tintas a óleo.

 

É interessante que as cores tenham viajado, antes das imagens, através de minerais, terras, tecidos, mas sobretudo através de palavras, que, em diferentes culturas e épocas, tinha maior ou menor correspondência com a realidade, tanto sendo capazes de representar as subtilezas das gradações dos tons como de erros tão grosseiros como de significar indiferentemente vermelho e verde. Até o roxo, que dificilmente uma criança hoje confundirá com vermelho, já foi, em português, a palavra para dizer vermelho. Vejamos este exemplo de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões: “Para que ao Português se lhe tornasse/Em roxo sangue a água que buscasse.” E este outro, da mesma obra, para comprovar que se chamou mar Roxo ao mar Vermelho: “E vereis o mar Roxo, tão famoso,/Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado (...)”

 

Quando se queria, então, falar em vermelho, usava-se carmesim, que Camões escreve “carmesi” e Fernão Mendes Pinto, na sua “Peregrinação”, escreve “cramesim”. Veio esta palavra do árabe “qirmezi”, que quer dizer “tinto de vermelho”, mas cuja substância corante se obtinha de origens diferentes. O carmesim, mais vivo e mais caro, obtinha-se da trituração e preparação de um minúsculo insecto conhecido como cochonilha, que vivia em aglomerações no arbusto “Quercus coccifera” (conhecido em Portugal por quermes ou carrasco). Como essas aglomerações de insectos na antiguidade foram tomadas como sendo uma espécie de bagas da própria planta, como escreve Philip Ball na obra citada, “escritores gregos como Teofrastos (c. 300 a.C), pupilo de Aristóteles, referem-se a elas como ‘kokkus’, o que significa baga. Em latim, é ‘coccus’” (e talvez daqui “cochonilha”). No século IV, S. Jerónimo aumenta os equívocos, chamando ao conjunto de insectos “baca” (baga), “granum” (grão), para, finalmente, identificar a origem animal do corante chamando-lhe “vermiculum” (vermezinho). “Vermiculum” deu a palavra portuguesa “vermelho” e “granum” deu a palavra portuguesa para cor de vinho, que toda a gente, por desconhecimento, substitui pelo francês “grenat” (granada) ou “bordeaux” (vinho de Bordéus). Essa palavra é “grã”, a cor grã.

 

Mas a forma mais barata de obter carmesim, se bem que mais mortiça, mais alaranjada, era de origem vegetal, a alizarina, ou seja, a tinta do alizari, raiz seca de uma planta conhecida como garança ou, mais sugestivamente, ruiva-dos-tintureiros. Mas não se ficam por aqui os tons de vermelho. Lembremos o escarlate, a que atribuem étimo francês, e cinábrio, do latim “cinnabare”, um mineral constituído por sulfureto de mercúrio. Esperem, ainda temos rubro, do latim “rubru” (que deu “rubrica”, lembram-se?), mínio, do latim “miniu”, e zarcão, do árabe “zarkún”, que quer dizer da cor do fogo.

 

É claro que a esta lista escapou uma denominação, que ainda não sei qual é, mas que um leitor atento não vai deixar de me fazer saber. Responder-lhe-ei, aprazivelmente, com histórias de outra cor. A procissão ainda vai no adro...

 

Correio Premente

De Quitéria Valverde, lugar de Chão Verde, freguesia de Rio Tinto, concelho de Gondomar: “O que eu tenho chorado pela troca dos envelopes do Melhor Filme na entrega dos Óscares deste ano! A minha médica já me deu reforço de calmantes, mas nem assim eu prego olho de noite. Um espectáculo que estava a correr tão bem e estraga-se tudo mesmo no fim, com uns pataratas a andar para a frente e para trás, sem ninguém tomar conta daquilo e pôr ordem na mesa. Cá para mim, acho que foi mais uma golpada dos russos para azucrinarem os americanos. Sim, porque quem consegue falsificar as eleições também consegue baralhar a entrega dos Óscares. Deve ser mais fácil, acho eu. E quem havia de pôr lá aquele ruço a Presidente, senão os russos?... ”

 

Bem visto. Na minha terra, quando aparecia alguém, antigamente, a dar-se ares de entendido em alguma coisa de que não percebia nada, chamavam-lhe “Doutor da Mula Ruça”. Serão parentes? Palavra interessante, “azucrinar”.

 

De Procópio Possante da Silva, lugar de Raio X, freguesia de Samaiões, concelho de Chaves: “Acho piada às pessoas que vão para o ‘Fórum da TSF’ defender o anterior Governo quando não tem ponta por onde se lhe pegue. Veja lá se eles foram à Índia, como o António Costa. Pois não, porque tinham medo. E agora sabe-se que não fiscalizaram os dinheiros que foram para fora do país, para os ‘off shops’ ou ‘free shops’ ou lá o que é dos aeroportos, que é por onde passa o dinheiro e a droga, como toda a gente sabe, menos aquele secretário de Estado que estava a dormir na forma. Mas se até aqueles imigrantes africanos conseguem fugir do aeroporto de Lisboa a correr, como é que o dinheiro não há-de fugir, que corre muito mais depressa e salta mais longe do que o Nelson Évora nos Campeonatos Europeus de Pista Coberta? Só sabem falar de números, mas não falam dos 2,1 por cento porque lhes faz comichão. E por que é que em vez de falarem de 32,3 por cento da população, não falam de 47,7 por cento? Como é maior, já não falam... Preferem ir buscar a Venezuela, quando aquilo está bem que não está bom, mas também não está assim tão mau. Parece que a inflação não está lá assim muito boa e tal, mas se eles tivessem lá o nosso anterior Governo é que viam o que era estar mal...”

 

Não sei que lhe diga. Talvez “dá Deus nozes a quem não tem dentes”. Ou cruzamento de linhas.

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