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Palavra de Aurélio

Electricidade

Uma vez por semana, vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa

Texto de Aurélio Moreira • 22/02/2017 - 12:57

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Imerso num frio que, da cidade, não tinha antevisto em todo o seu esplendor, muito menos as suas implicações na vida quotidiana, convoco dois aquecedores a gás para quebrarem a friúra que tolhe a liberdade que os meus dedos normalmente tomam de salvar do esquecimento perpétuo estas minhas ideias e observações que, por modéstia, não qualificarei. Nada me preparara para as condições de vida do “interior”, de que teremos pano para mangas para discutir e entre as quais uma temperatura tão baixa não será a menos difícil, já que nos entra pela casa dentro sem cerimónias. Na cidade, há duas temperaturas: a da rua e a de casa. Aqui, entre paredes de granito de um metro de grossura, galerias, escadarias e corredores com circulação constante de ar polar, a diferença está em que por vezes está mais quente lá fora do que cá dentro. E quando falo disto aos meus amigos mimalhos citadinos, perguntam-me logo se as temperaturas dentro de casa são negativas. Claro que são negativas! Cinco graus positivos dentro de casa é do mais negativo que tenho visto!... Eles fazem lá ideia do que é ter cinco graus dentro de casa ou o que é possível fazer de sobretudo ou com um cobertor pelas costas, habituados que estão às suas caldeiras, aquecimento central, fogões de sala ou a viver por cima de uma churrascaria de forno a lenha... Há pessoas que se acham cultas sem saberem que abaixo dos 16 graus Celsius não há humor, nada tem graça, não se inventam anedotas, não se joga bilhar nem se fazem problemas de palavras cruzadas.

 

Aqui, na minha biblioteca-escritório, já funciona a parte de escritório, porque é só ligar o computador à corrente eléctrica de uma instalação muito periclitante, mas a parte de biblioteca está, como tantas montras de casa comerciais que agora vejo, “em execução”. As estantes com que pretendo forrar todas as paredes de pedra, exceptuando as janelas e as portas envidraçadas que se abrem para o terreno em breve transitável e para o sol da tarde, estão a chegar do marceneiro em entregas semanais, como fascículos coleccionáveis. De cada vez que chega uma delas e que é dada oficialmente como estando na sua localização definitiva, reduzo, nessa proporção, a tristeza de ver os meus livros enclausurados em caixas de transporte espalhadas pelo chão, para evitar empilhamentos nefastos.

 

Os dias curtos de Inverno também jogam contra nós. A iluminação é péssima, os anteriores inquilinos levaram as lâmpadas com eles e vamos recorrendo a archotes para os corredores e escadarias e lâmpadas de filamento, que consomem mais energia mas são mais baratas.

 

A entrega das estantes, com um transportador a andar de frente o outro de costas e o móvel no meio, assemelha-se a uma dança a três a que não faltam os volteios, quando se descobre que aquela peça do sistema maior, feito à medida, pertence, justamente, ao lado contrário da sala. Os que entregam as caixas de livros, vejo-os mais como corredores de uma meia-maratona, já que uns se atiram para o chão, incrédulos com o terem conseguido cortar aquela meta, outros se apoiam na minha mesa antiga de madeira maciça para recuperarem o fôlego e umas cores faciais já mais longínquas das da apoplexia.

 

Em pleno vaivém alternado de entregadores de livros e de estantes, dá-se a tragédia, o horror maior da contemporaneidade ocidental: um corte de electricidade. Instantaneamente se ouvem gemidos e uma grande grita, correspondentes aos infelizes que, devido à inércia da embalagem com que seguiam na sua determinação, foram parados subitamente pela mole granítica mais próxima; aos que, sem visibilidade, foram encaminhados para uma escadaria de pedra que tinha um traiçoeiro ângulo recto a meio; à cozinheira que, adaptada à modernidade, batia umas claras em castelo com batedeira eléctrica para me fazer umas broinhas de castelar; a mim, que não tinha guardado as alterações ao texto que tanto trabalho me tinha dado amontoar no meu computador, naqueles intervalos em que a circulação de sangue se fazia até às pontas dos meus dedos.

 

Os archotes fizeram valer as suas vantagens medievas aos que andavam perdidos pelos corredores do rés-do-chão e do primeiro andar da actualidade, mas nada fizeram por quem estava preso no escritório. Então decidiram gritar uns pelos outros, para se guiarem pelas vozes. Mas ou porque não tinham ouvido apurado ou porque não sabiam guiar, a confusão aumentou, como se se tivesse dado mais calor a uma reacção química.

 

Não tomem isto como uma crítica laboral ideológica, mas o Sindicato do Pessoal das Empresas Transportadoras de Bens e Mudanças e Similares do Norte (SPETBMSN), além de mudar de sigla para efeitos de legibilidade, deveria fazer um pouco mais para que os seus sócios estivessem munidos de pré-requisitos como os de bom sentido de orientação às escuras, o que pode muito bem ser um bom nicho de mercado para pilotos aviadores empreendedores no desemprego.

 

Quando o caso parecia perdido e se sucediam estrondos à antiga portuguesa (ouvi quatro zás!, três zás-trás! e dois zás-catrás!), fez-se luz, mas não eléctrica. Com um candelabro de prata de cinco velas que tinha trazido da sala de jantar, irrompeu triunfalmente no escritório a governanta Zulmira, nome verdadeiro da sósia da actriz Judith Anderson no papel de Mrs. Danvers, dizendo, infelizmente: “Apesar de estar ‘meia-doente’, cá estou para salvar mais uma situação”.

 

Os circunstantes que ainda se encontravam de pé bateram palmas e assobiaram efusivamente (tipo foram espectaculares) e esse estrépito (tipo basqueiro) atraiu os que ainda se encontravam perdidos. Certa do efeito produzido, a D. Zulmira retirou-se com um médio bamboleio da cauda do seu vestido comprido e eu aproveitei a reunião dos homens (por qualquer razão a aplicação de quotas de mulheres ainda não funciona bem no ramo das mudanças) para esclarecer: “Homens, risquem da acta aquela ‘meia-doente’ da D. Zulmira!”

 

Um brado geral e um arregalar de olhos assinalaram a fome destas gentes da interioridade pelas subtilezas gramaticais, o que me incentivou a prosseguir: “Na realidade, é fácil confundir meia quando é adjectivo e quando é advérbio. Mas a diferença é esta: quando é adjectivo, quer dizer ‘metade’ e então é variável, concordando em género e número com o substantivo que está a qualificar. Por exemplo: meia laranja, dois meios quarteirões. Mas quando significa ‘um tanto’, ‘não totalmente’, então é advérbio, isto é, não qualifica um substantivo (nome), mas modifica um adjectivo ou um verbo. E, então, é invariável: é sempre ‘meio’. Era o caso no exemplo dado pela D. Zulmira. Como não nos queria dizer que estava metade doente, metade sã, mas que estava um tanto doente, deveria ter dito: ‘Estou meio doente’”.

 

“Não ligue à Zulmira”, disse-me o mais velho daqueles pupilos à força. “Conheço-a de catraia e ela é meio maluca!...” Rejubilei (tipo fiquei bué de contente)! “Disse muito bem: ‘meio maluca’! Reparem que este senhor não quis dizer que ela era metade louca, metade sã, mas que era ‘um tanto’ maluca, portanto, como advérbio que é neste caso, não pôs ‘meio’ no feminino. Parabéns! Isto pede uma comemoração. Vamos passar à sala de jantar. O que bebem?” Responde o velho que tinha aprendido gramática no tempo das horríveis reguadas: “Para mim, podem ser duas meias canecas de cerveja!”

 

Nessa noite, já não se fez mais nada. Bebeu-se moderadamente e contaram-se anedotas gramaticalmente correctas até à meia-noite, que como não é metade da noite se escreve com um hífen, para indicar a sua condição de substantivo composto, sinónimo de 24.ª hora. A acompanhar um javali passado à pressa pelas brasas da lareira, brindou-se com o que havia, já que a chave da garrafeira não aparecia. A cerveja e a sidra demonstraram ser do agrado geral; já a cidreira, o chá verde, a groselha, a hortelã-pimenta e a salsaparrilha, por alguma razão, nem por isso.

 

É claro que brindámos à electricidade. Fiz eu o brinde: “À electricidade: que nunca nos falte, que consigamos decifrar as facturas de cobrança das companhias fornecedoras e que não aumente de preço por razões obscuras. E já que estou em companhia de homens de letras, um brinde mais sério: que o Acordo Ortográfico de 1990 seja revogado e tratadas as sequelas que nos deixou, de modo a que não sejamos o único povo da Europa ignorante de que electricidade se escreve com c ou equivalente (da raiz 'élektron'). Na Espanha, as crianças aprendem a escrever ‘electricidad’; em França, ‘electricité’; no Reino Unido, ‘electricity’; na Alemanha, “elektricität”. Mas em Portugal teve de se simplificar, para não sobrecarregar as crianças e os analfabetos com letras a mais!... Não mais, meus amigos! Não mais!”

 

Até a electricidade voltou!

 

Correio Premente:

De Julião Bruto da Costa, freguesia de Cuide de Vila Verde, concelho de Ponte da Barca: “Agora é que foi!... Então, sempre a apontar erros aos outros, porque torna, porque deixa, e mais isto, mais aquilo, sempre a implicar com as pessoas por tudo e por nada que já nem se pode atravessar a rua sem levar uma ensaboadela e vai daí, no seu último folhetim fugiu-lhe o pé para a asneirada. Então escreveu leso-património em vez de lesa-património?! Como é que foi isso? Faltou à aula no dia em que deram essa lição?! Então como é que se sente agora, que lhe descobri a careca à frente de toda a gente? Gostou de ser apanhado?!... Cuide mas é da sua vida e deixe a dos outros. Homessa!”

 

Por momentos, cheguei a pensar que me tinha apanhado numa das muitas inexactidões, lapsos e gralhas em que incorri e que me foram apontados por colegas, amigos, familiares e outras pessoas mais ou menos regaladas pela oportunidade de darem largas ao seu espírito caridoso, mas não desespere, pois terá ainda tempo para múltiplas oportunidades. Entretanto, obriga-me a deontologia a encurtar um tanto a sua euforia pela queda de uma infalibilidade que nunca existiu. São antes os prodígios ortográficos que não devem cessar de nos admirar: onde viu uma forma do presente do indicativo do verbo lesar (à semelhança das construções guarda-chuva, pára-brisas, guarda-lamas, afia-lápis), imagine que aquele lesa, que é maioritariamente utilizado no feminino (lesa-majestade, lesa-pátria), é um caso diferente, pois é um adjectivo verbal formado a partir do particípio passado do verbo lesar, não do regular (lesado), mas do irregular (leso) e, ainda por cima, pondo-se atrás do nome que vai qualificar. Assim, dizer lesa-majestade é o mesmo que dizer majestade lesada; lesa-pátria é pátria lesada e, logo, património lesado só pode ser leso-património. Também deontologicamente estou impedido de ceder à tentação de réplicas impertinentes. Por isso só me posso limitar a celebrar consigo, o mais entusiasticamente possível, o nome da sua terra: Cuide de Vila Verde!

 

De Gervásio Pomba Branca, lugar de Desamparados, freguesia de Oliveira do Douro, concelho de Cinfães: “Vejo chegada a hora de introduzir entre os assuntos tratados na sua revista de imprensa a nobre arte da columbofilia. Praticada desde tempos imemoriais, não esqueçamos os pombos-correios do Império Romano nem os dos tempos modernos. Olhe, nem é preciso ir mais longe: como é que começou a Agência Reuters? Lá está: foi com pombos-correios. Mas, sinal dos tempos, a ave que é símbolo de uma paz que nos foge a cada dia é menos recordada no seu papel de mensageira e cada vez mais como alvo de tiro e estufada com batatas nesses programas de culinária que invadem os canais por cabo. E, ao fim e ao cabo, todos se esquecem dos pombos-correios só porque não entregam e-mails. Cabe-lhe a si restaurar o papel do pombo nas nossas casas e nos nossos corações. Todos à concentração columbófila solidária de Cinfães!”

 

Não sou grande restaurador, mas calou fundo o seu apelo. Nunca consumi culinária de pombo, nunca fiz deles meus alvos, salvo uma vez, quando criança, mas felizmente com uma espingarda de pressão de ar muito velha e cansada que se mostrou inofensiva, excepto uma única vez, em que o alvo não foi uma ave, felizmente, mas apenas a testa da minha irmã crédula, em qualquer caso sem perfuração do osso frontal, apenas uma ligeira mossa que agora, quase 50 anos passados, mal se nota.

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