Inês Figueiredo

Crónica

Gap Year: uma questão de ritmos

Fazer um Gap Year é observar, caminhando. O que importa é experimentar qualquer actividade que nos preencha, pois o movimento gera mais movimento. Só nos arrependemos das oportunidades que não apanhámos.

Texto de Inês Figueiredo/Gap Year Portugal • 21/02/2017 - 14:42

Depois da licenciatura em Escultura pela FBAUL, Inês aproveitou para ponderar as suas opções com um gap year

Distribuir

Imprimir

//

A A

A tomada de uma decisão pode ser esmagadora. Fazer um Gap Year é conhecermo-nos interiormente. Uma pessoa deve confrontar-se consigo própria e na confusão do quotidiano é fácil perdermos contacto com as nossas necessidades mais profundas. Essa falta de ligação gera bloqueios que não nos permitem evoluir, que eventualmente arrastam as nossas forças para um estado de cansaço e indecisão. Atenção, eu acredito no cansaço, naquele que é gerado quando o dia se preenche com as atividades que nos enchem a alma. Não no cansaço do espírito, que prejudica o equilíbrio do corpo, que nos faz perder a direcção e o sentido das coisas.


 

Na correria do dia-a-dia nem sempre conseguimos apanhar as pequenas migalhas que o destino nos deixa pelo caminho. Fazer uma pausa é poder observar a extensão da nossa vida, até onde já chegámos, e o que podemos fazer a partir desse ponto. Quando entramos em contacto com o nosso interior compreendemos que existe um ritmo e uma altura certa para tudo acontecer. Compreendemos que cada pessoa tem uma velocidade própria e que ninguém se deve comparar a ninguém.


 

O processo da minha licenciatura foi muito desafiante, mas extremamente duro. É duro estudar num curso onde quase todos os dias convivemos com a realidade e a expectativa de que não teremos emprego quando acabarmos de estudar, com todos os elementos que nos impõem uma visão pessimista. Após licenciar-me em escultura compreendi que não era altura de seguir para mestrado. Antes de mais queria compreender o que era um mestrado. Queria encontrar um sentido. Por isso fiz uma “pausa”, sem deixar de me movimentar. Fazer um Gap Year é observar, caminhando. É preto e branco, e todos os tons de cinzento que encontramos a cada momento, nas alturas de dúvida e nas de concretização. O que importa é experimentar qualquer actividade que nos preencha, pois o movimento gera mais movimento. Só nos arrependemos das oportunidades que não apanhámos.


 

Quando estive na minha “pausa”, tive a oportunidade de poder prestar apoio à produção de uma peça de teatro no Castelo de São Jorge, e graças a essas deslocações diárias pude apaixonar-me um pouco mais por Lisboa, ver de outra forma uma cidade que tomava já por conhecida. Foi uma outra forma de viajar. Diferente de quando fui a Itália. A maravilha de pisar um solo diferente daquele que temos no país natal transmite uma sensação de humildade. Ao viajar ganhamos uma consciência colectiva, de que alguma forma estamos todos ligados. Temos de ter a mente aberta e estar dispostos a mudar a perspetiva do olhar. Por isso, pouco tempo depois comecei a trabalhar numa loja de telecomunicações, durante alguns meses. Algo completamente diferente da minha área de estudo, e revelou ser também um ponto de viragem sobre a forma como eu imaginava o mundo de trabalho. Fez-me compreender que às vezes é necessário afastarmo-nos de uma ideia pré-fabricada para compreender qual é a atividade que queremos desenvolver. Qual é o combustível que nos motiva, e se estamos dispostos a trabalhar para viver, ou a viver em harmonia com o trabalho que desempenhamos. A verdade é que não há receitas e cada pessoa tem a sua própria velocidade e tempo para atingir as metas. E não há metas melhores que outras, mais grandiosas ou mais respeitáveis. Se for um objectivo com bom fundo e que visa crescimento pessoal, então deve ser levado custe o tempo que custar. O período de Gap Year naturalmente poderá ser visto como período de incubação de ideias; quantos projectos não terão nascido em alturas de foco e concentração? Quando damos tempo a nós mesmo, encontramos uma saída favorável. 


 

“Ser” é a única tarefa que continuaremos ininterruptamente até ao fim dos nossos dias. Cabe-nos decidir como ponderamos as nossas ações. Onde está o “peso” que fixa os pés à terra. E aprender a encontrar dentro de nós a leveza de quem confia em si. Às vezes fazer uma pausa não significa parar, mas retomar contacto com o nosso próprio ritmo.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que