Adriano Miranda

Palavra de Aurélio

Cada terra com seu uso...

Uma vez por semana, vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa

Texto de Aurélio Moreira • 15/02/2017 - 16:37

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Bem, para ser o mais sintético possível, contrariando gosto e natureza, a rapidez com que se pode passar do sonho ao pesadelo é a que é bem conhecida dos adeptos do Sporting Clube de Portugal. Quando tinha imaginado o acesso a um modo de vida idílico, de apreciação e usufruto das maravilhas do mundo natural (por isso é que eu não gosto de ser sintético), com amplo espaço para livros, quadros, CD, DVD e outras preciosidades, fui atingido pela crueza de se viver num castelo, ainda por cima no interior, quando vi que a minha filha mais nova não consegue ir do seu quarto à sala de jantar sem apanhar uma constipação ou quando me vi no quintal a cortar silvas quando deveria estar a escrever estas crónicas. Gostaria de vos ver, caros amigos e confraternizantes, a gerir uma moradia T20 com cavalariças, estufa, jardim e fosso com dois crocodilos sem o concurso de um mordomo, uma governanta, uma cozinheira, duas empregadas, um jornaleiro e um assessor de imprensa.

 

Quando as coisas começavam a fazer sentido, no sentido em que me encontro agora de terror pré-pânico, desata a chover de um modo que vi muitas vezes descrito como sendo “torrencialmente”, mas que aqui, no campo, sem vizinhos da esquerda nem da direita nem de frente nem de traseiras a quem pedir um ovo, uma chávena de açúcar ou socorro (pensando bem, nunca pedi nada disso a ninguém), com as rajadas de vento estremes, em todo o seu vigor, contra as vidraças, sem o amortecimento de prédios circunvizinhos, completamente mergulhado em cinzento de chumbo das nuvens baixas de temporal, acompanhado de uma neblina tirada de “O Cão dos Barkervilles”, é mesmo de convencer o mais incrédulo não só de que o dilúvio do Noé foi, mais do que uma ficção alegórica, um facto histórico incontestável, mas também que está na iminência de se repetir.

 

Dispensaria, portanto, por completamente redundantes, os súbitos e não anunciados raios e coriscos que, acompanhados de trovões condizentes, tiveram a graça de abalar a vetusta estrutura, dos alicerces aos torreões, do baluarte a que agora chamo lar. Se alguém andar a pesquisar uma definição de solidão gelada e agreste, venha cá em dia semelhante.

 

Valeu-me ter herdado com a propriedade uma pessoa que ali tinha trabalhado praticamente toda a vida e que podia ser irmã gémea da Mrs. Danvers do livro “Rebeca”, de Daphne du Maurier, principalmente na versão que Alfred Hitchcock fez para o cinema (e para mim). As parecenças, que começaram por ser físicas, com a actriz Judith Anderson estenderam-se progressivamente quer à pose, quer à acção. Aquele olhar retirado, aquela presença ausente de quem está a fazer cálculos de alta matemática ou a avaliar o melhor momento para nos meter uma faca nas costas, aquele ar de quem poderia meter qualquer eurocéptico num chinelo. Mas aceitei-a de braços abertos como única agente capaz de criar um dique entre nós e o caos. Pu-la à rédea solta, dei-lhe carta-branca para recrutar pessoal auxiliar.

 

Ali mesmo, no escritório-biblioteca, improvisámos uma sala de entrevistas e o seu conhecimento dos habitantes locais foi capital para separar o trigo do joio. É incrível a quantidade de factores sem valor numa relação social mas que são inaceitáveis numa relação laboral. Parece mesmo ser da condição humana que o mesmo ser humano que era revolucionário à data em que buscava trabalho se transforme no mais duro capitalista quando ascende à posição de contratador.

 

Subsiste a dificuldade de preenchimento do lugar de mordomo. A Senhora Danvers pede-me o perfil que deve procurar e eu dou tipos indicativos: Jim Carter em “Downton Abbey”, de 2010 a 2015, Gordon Jackson em “A Família Bellamy” (“Upstairs, Downstairs”, 1971-1975), Eric Blore em “Chapéu Alto” (“Top Hat”, 1935), ou em “A Comédia do Amor” (“It’s Love I’m after”, 1937) ou em “A Quimera do Riso” (“Sullivan’s Travels”, 1941) ou Edward Everett Horton em qualquer comédia dos anos 30. Como de tudo isto só tinha visto a série “Downton Abbey”, chamou um ex-ferreiro, um homem colossal que por qualquer razão não consigo ver a tratar das porcelanas, mas antes a fugir de noite com as pratas, mas que viria (em episódios futuros que eu já conheço), com o seu corpanzil de guarda-vestidos, a ser insubstituível como guarda-costas, guarda-portão e, até, numa ocasião, como guarda-lamas (levando-me ao colo para que eu não fosse engolido pelo lamaçal do quinteiro).

 

Com este grande avanço, faço evacuar o escritório dizendo “fora de cena quem não é de cena”, e começo a analisar jornais, revistas e entrevistas na rua de estações de televisão, procurando captar o ar da época, as “novas tendências” no abandalhamento da expressividade vernácula portuguesa.

 

Não é difícil. Rapidamente descubro que cada um escreve mais ou menos em completo desprezo pelo que é da sua terra, conformando-se facilmente com modas que mandam desligar a consciência da língua. Agora já ninguém “põe” nada em lado nenhum, agora “coloca-se”, que parece que é melhor – não se “põe em causa”, “coloca-se em causa”. Já não se fica “pasmado”, fica-se “pasmo” (fico pasmado, palavra de honra!), já ninguém fica “surpreendido”, fica “surpreso”; desapareceram as pessoas “prometedoras” e apareceram as “promissoras”, que se reproduzem como coelhos; já ninguém conta uma história “ao pormenor”, conta “ao detalhe” ou “detalha” uma história; ninguém “cartografa”, “mapeia”; até as comparações já não as querem fazer com “tanto como” (“Tenho tanta fome como tu”), mas com “tanto quanto” (“Tenho tanta fome quanto tu”). E o que aconteceu aos “felizardos” deste país, às “pessoas com sorte”? Emigraram todas à procura de emprego? É que agora só vejo “sortudos” por todo o lado...

 

Pessoal, povo em geral, operários e camponeses, soldados e marinheiros, estudantes de todos os ciclos, com especial para os últimos, e professores: em Portugal, não há “usuários” de programas informáticos ou serviços em rede, mas “utilizadores” de serviços (no caso de empresas particulares) ou “utentes” (no caso de empresas públicas). Para nós, “usuários” são “usufrutuários” e são também os utilizadores espanhóis. Aqui não há “gerenciadores de arquivos”, mas “gestores de ficheiros”, já que se entende que um “ficheiro” é um documento e um “arquivo” é onde se guardam os documentos, seja o arquivo pessoal, municipal, episcopal ou o de identificação. Também o registo das acções de um determinado cliente ou utilizador não é o “histórico”, já que histórico é um adjectivo. É “historial”, como já disse em tempos, mas que é melhor dizer todas as semanas, para ver se traduzem correctamente as opções dos programas navegadores da Internet que por aqui temos.

 

Pois é: a gramática que se aprende nas escolas tem um valente contrapeso na gramática e no vocabulário que se aprendem nas telenovelas ou no YouTube ou nos anexos das mensagens de correio electrónico (e-mails), onde as gravações audiovisuais não têm legendas ou, se as têm, são em português de má qualidade ou em espanhol. E como todos os educadores sabem, os meios audiovisuais são um meio pedagógico tão poderoso que vencem até a própria realidade do meio ambiente. Acordem: um filme em “3D” é mais realista do que a vida! Porque a banda sonora é mais atraente, o guarda-roupa é mais cuidado. Como concorrer com Hollywood?

 

Entretanto, já em fase avançada de construção deste relato, recebi do departamento de marketing uma solicitação de que, “para não criarmos um obstáculo desnecessário no caminho das receitas”, passasse a pôr uma espécie de legendas entre parêntesis rectos para facilitar a leitura a pessoas com menos de 30 anos. Assim farei, para provar que não sou totalmente destituído de sensibilidade comercial e para corresponder à simpatia do pessoal daquela secção, que fazem de cada dia uma borga pegada.

 

Informo, então, os menores de 30 de que o título desta crónica está intencionalmente incompleto, esperando o autor que a cultura geral dos leitores o completasse: “Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso”. Tal como diziam aqueles patuscos que falavam latim e gostava de pão e circo [os romanos], “cuique suum”, a cada um o seu, “quod Caesaris, Caesari; quod Dei, Deo”, ou seja, “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus” [atinem e falem português]. E quando tiverem de traduzir (Deus nos livre e guarde!...) “it’s raining cats and dogs”, não escrevam “está a chover cães e gatos”, mas está a chover torrencialmente, está a chover a cântaros, a potes. E nunca – mas nunca! – digam ou escrevam “não queria estar nos teus sapatos”, imaginando que estão a traduzir algo que quer dizer “não queria estar na tua pele”, “não queria estar no teu lugar”. Estudem!

 

Correio Premente

De Constantino do Ó, Gaviãozinho do Meio, freguesia de Chouto, concelho da Chamusca: “Ó Sr. Moreira, então não há nada em que o senhor não se meta? Até na roupa interior das mulheres? Parece impossível! Já não se pode confiar em ninguém! Eu até disse à minha mulher: ‘Ó Conceição, então tu estás a ver aquele farsola? Se o vires passar na rua a pé e ele vier na tua direcção, atravessa e vai pelo outro passeio. Quem é capaz de escrever aquelas coisas não é de confiança. E não pode ser professor, nem que seja preciso fazer uma manifestação ou dois ou três abaixo-assinados.’ A minha mulher até me disse: ‘Ó Constantino, deixa lá o homem. Podia ser pior. Há sempre pessoas que se metem onde não são chamadas...’ E eu disse-lhe assim: ‘Ó Conceição, deixa-me cá, que eu sei o que estou a fazer’. E pensei, pensei e disse: ‘Ó Conceição, põe o xaile que vamos ali à venda comprar os livros dele para os queimar na salamandra da sala e assar alguns chouriços. Agora é que isto vai aquecer!’. E de caminho ainda chamei os meus dois cunhados: ‘Ó Armindo! Ó Frutuoso!’ E os meus dois cães: ‘Ó Isto! Ó Aquilo!’ Agora é que elas lhe vão morder. Oh, oh!”

 

Não aqueça mais, que já sinto aqui o calor da pira com que pretende perpetrar o seu crime de leso-património. Só me chocou por aquela sua passagem em que escreveu: “E pensei, pensei e disse”. Olhe que são dois pensares para um dizer. Deve ter sido extenuante. Não exagere.

 

De Marco Aurélio Costa, freguesia de Alfena, concelho de Valongo: “Está lembrado de uma notícia de há uns poucos de anos que falava do alfaiate onde o Sócrates mandava fazer os fatos, em Hollywood, acho que era na Rua do Rodei o Drive, que até tinha à porta o nome dos clientes mais famosos, como o primeiro-ministro de Portugal, o sultão do Brunei, o rei da Síria, o Silva dos Plásticos? Lembra-se se o Pato Donald também mandava fazer os fatos lá? Ou posso comprar só essa notícia para ver se descubro?”

 

Aconselho-o a fazer uma assinatura e a fazer uma procura inteligente, para o que terá a devida assistência. E ficará espantado com as notícias desse e de outros géneros que vai encontrar. Não compre só essa notícia. Agora o que se usa é o “pacote”. E tenho a certeza de que lhe arranjarão um magnífico pacote.

 

De Maria da Anunciação Prudente, freguesia de Caldelas, concelho de Amares: “Já viu a nova moda de portugueses a escreverem para portugueses tratarem, nas legendas dos filmes, raparigas solteiras pela palavra espanhola ‘senõrita’, vestida de ‘senhorita’? Não sabe essa rapaziada que a tradução do inglês “miss” é “menina”? Não conhecem a fórmula “a menina dança?”

 

Já vi. Não sabem. Não conhecem. Não querem saber. Nem eles nem os responsáveis pela contratação de tradutores e pela não-contratação de revisores (profissionais). Só quando for obrigatório pela União Europeia ou os números ficarem feios nos relatórios da OCDE.

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