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Crónica

A universidade é feita de pessoas, para pessoas

A universidade tem ser encarada como um espaço de discussão, onde as aulas não podem ser vistas apenas como simples aulas

Texto de Cristina Nobre Soares • 16/12/2016 - 13:27

Cristina Nobre Soares é “copywriter” e escreve no blogue “Em Linha Recta”

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No outro dia falava com um amigo meu sobre a universidade. Se a universidade, como está, ainda faz algum sentido. Que a universidade está ultrapassada, obsoleta etc, etc. Que os métodos pedagógicos já não funcionam. E eu fiquei a pensar. Tive duas experiências universitárias muito diferentes. Uma, na licenciatura, a qual não aproveitei nem um terço. A outra, no mestrado, arrisco-me a dizer que aproveitei pelo menos 90%. O que é que as separam? Primeiro uns anitos de maturidade, que sim, perdoem-me, fazem diferença. Depois os meus objectivos pessoais. Porque bons e maus professores, bons e maus métodos pedagógicos, mais ou menos experiência prática, eu tive nos dois lados. Mas quando me inscrevi no mestrado, eu sabia exactamente o que precisava retirar dele. Perguntei, bati à porta de gabinetes de professores, tirei todas as dúvidas e mais alguma que tinha, pedi bibliografia extra. Mas também protestei contra os horários, funcionamento do curso. Sim, era a aluna melga, mas coisa acabou por resultar. No entanto, também tenho a ideia que fui uma espécie de caso único, pois a maior parte dos meus colegas lamentava-se que o mestrado os tinha desiludido. Não duvido. Temos o hábito de agir perante este tipo de coisas, como os clientes normalmente agem com a maior parte dos profissionais criativos: Não sabem bem o que querem, mas, como pagam, ficam à espera de serem surpreendidos com uma coisa à medida dos desejos deles. Sejam lá que desejos forem.

 

Perguntei ao meu amigo se não costumava ouvir webinars e talks. Se gastava tempo a fazer pesquisas na Internet. Respondeu-me que sim, que fazia muito disso. E eu perguntei-lhe: E consegues interagir? Decerto não perceberás ou concordarás com tudo o que ouves na internet. Na universidade, nas aulas, também não. Mas há a possibilidade de interacção. De discussão. Acima de tudo a universidade tem ser encarada como um espaço de discussão, onde as aulas (e estou a falar especialmente das teóricas, que são tão odiadas) não podem ser vistas apenas como simples aulas. Mas sim como uma, duas, três horas que temos disponíveis para ouvir um especialista na matéria. Isso, ouvir, que pronto, é chato, mas que é uma coisa que geralmente se faz quieto, sentado ou em pé. E eu, apesar de acreditar que o autodidacta que há em nós tem sempre, mas sempre, de pôr as pernas ao caminho, acho que não vamos lá se não ouvirmos primeiro quem sabe mais do que nós. Repitam comigo: de quem sabe mais do que nós.

 

Sim, é certo que esse tal especialista grande parte das vezes não é especialista coisa nenhuma, porque está ali apenas para cumprir o número de horas necessárias do contrato. Mas, isso também define a qualidade de uma universidade. Um critério importante no momento da escolha para muitas coisa da vida: a qualidade. E pronto, lá vem a conversa da escolha. Porque anda sempre tudo à volta disso. Por exemplo, temos sempre a escolha de bater à porta do professor e dizer o que não gostamos, sugerirmos coisas diferentes. Claro que talvez a maior parte dos professores não esteja disponível e aberto à mudança. Mas nós, ao não levantarmos o braço, ao não batermos à porta, também não estamos. O primeiro passo da mudança, da reforma, começa assim. Claro que podemos sempre fazer uma revolução, com os que são contra e a favor de qualquer coisa. A implodir o mau, mas também o bom, que já existe. Vale sempre a pena preservar o bom. O trigo, que tantas vezes vai com o joio das mudanças radicais. A universidade é feita de pessoas, para pessoas. Há é pouca gente a dar isso (é incrível como este verso dá para tanta coisa).

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