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Crónica

Por que razão um jovem com média de 20 valores já não quer ser médico?

Portugal era já, em 2014, o quinto país da União Europeia com mais médicos por cada 100 mil habitantes

Texto de João Martinho Galhofo • 27/09/2016 - 18:17

João Martinho Galhofo é gestor e acredita que tudo na vida é política

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Todos os anos, o mês de Setembro traz consigo um novo ano lectivo e com ele uma fornada de caloiros ansisosos pela nova etapa que os espera. Em simultâneo, os telejornais noticiam o curso com a média de acesso mais alta do país e a respectiva faculdade: Medicina, sempre Medicina.

 

Contudo, o ano lectivo de 2016 abriu com uma grande novidade: pela primeira vez, três cursos de engenharia figuraram no topo, ultrapassando o curso de Medicina da Universidade do Porto, que se ficou pela quarta posição. E se é verdade que o Instituto Superior Técnico e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (UP) são escolas reconhecidas internacionalmente pela qualidade do seu ensino, também é verdade que este fenómeno pode abrir um precedente que vai mais além da empregabilidade e da preparação dos cursos destas faculdades. Recorde-se que o melhor aluno a entrar este ano lectivo na UP, com média de 20 valores a tudo, acabou de desistir da vaga para continuar os estudos no estrangeiro, informou aquela instituição de ensino superior.

 

Em primeiro lugar, importa perceber por que razão a generalidade dos bons alunos costuma colocar Medicina como primeira opção: para além da valorização social do curso, Medicina, até à data, não formava desempregados e, regra geral, os médicos sempre foram bem remunerados, dada a necessidade de profissionais da saúde que Portugal enfrentou durante o século XX.

 

No entanto, o panorama foi-se alterando e, não só a remuneração tem vindo a baixar por força do crescente número de médicos, como em 2014 Portugal era já o quinto país da União Europeia com mais médicos por cada 100 mil habitantes (atrás apenas de Grécida, Áustria, Estónia e Lituânia).

 

A consequência deste facto, somado ao desinvestimento na saúde que se tem vindo a verificar desde 2009, é peremptória: em 2016, também pela primeira vez, 158 jovens médicos ficaram sem vagas para a especialidade. No entanto, o Serviço Nacional de Saúde assegura a empregabilidade destes jovens, criando uma geração de “clínicos indiferenciados” sem garantir a continuidade da sua formação e consequentemente a qualidade da prestação de cuidados.

 

Fica, por isso, evidente, que seguindo esta tendência, o Estado estará a incorrer numa gestão ineficiente dos recursos que tem ao seu dispor e, a longo-prazo, não existirão hospitais capazes de reter a totalidade dos médicos recém-formados.

 

Ensino regulado pelo Estado

Importa referir que Medicina é um curso leccionado exclusivamente em universidades estatais e, portanto, totalmente regulado pelo Estado, que só de si depende para evitar o desperdício de recursos (Medicina é um dos cursos com maior custo médio por aluno).

 

Posto isto, torna-se urgente questionar por que razão continua o Estado a investir dinheiro em jovens que, mais tarde ou mais cedo, não terão possibilidade de exercer no seu país? Mais, sendo o quinto Estado-membro da União Europeia com mais médicos por cada 100 mil habitantes, por que razão, em diversas zonas do interior do país, assistimos a uma falta de assistência médica que não pode ser aceitável em países desenvolvidos?

 

É tempo de responder a estas questões, pois está visto que a estratégia seguida não pode ser viável nem sustentável a longo-prazo. Assim, facilmente se conclui que a política de formação de médicos que tem vindo a ser feita em Portugal terá apenas um desfecho: incluir Medicina na já vasta lista de cursos cujo investimento é feito por nós, contribuintes, para o retorno ser aproveitado além fronteiras.

 

Embora o cenário se possa alterar, está claro que o estímulo para que um jovem ingresse hoje num curso de Medicina não é o mesmo de há alguns anos. Com isso, vai sendo aberto espaço para que outros cursos se vão aproximando do topo na hora dos jovens escolherem a sua profissão.

 

Seria importante que estes sinais dados pelas gerações mais jovens do país se traduzissem numa accção por parte do Governo, pois torna-se preocupante ver que a má gestão de recursos do Estado, no que diz respeito às vagas no ensino superior, persiste (principalmente quando compromete a performance de outro Ministério), com um orçamento anual que ronda quase dois mil milhões de euros e uma taxa de desemprego jovem na ordem dos 30 por cento.

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