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Crónica

Sobre o currículo oculto nas escolas

Necessitamos cruzar mais saberes implicados na saúde física e mental no momento em que se tomam decisões na educação. A avaliação da qualidade de uma escola é muito mais do que o ranking dos resultados obtidos pelos seus alunos nos exames nacionais

Texto de Rui Tinoco • 06/06/2016 - 12:36

Rui Tinoco
Psicólogo e escritor, escritor e psicólogo e, frequentemente, nem uma coisa nem outra.

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Interrogámo-nos anteriormente sobre o currícul oculto de muitas das nossas escolas. Fizemo-lo a propósito dos trabalhos de casa em excesso e do modo como eles podem interferir com o processo de aquisição de competências de estudo. Descomplicando: como posso aprender a estudar se tenho sempre de fazer tarefas que me são impostas?

 

Exploremos mais este tema. A situação pode tornar-se, em casos mais extremos, numa experiência de esmagamento. A criança ou adolescente não tem realmente capacidade de efectuar todas as tarefas para as quais foi solicitada. Resta não as fazer — início do caminho da exclusão? — ou pedir a alguém que o faça (os pais), principiando aqui a teatralização do processo de ensino.

 

Claro que há muitas outras nuances e que, num texto desta natureza, a esquematização é ferramenta praticamente indispensável. A esquematização tem, porém, as suas vantagens ao enfrentar directamente as questões: em cenários de trabalhos de casa excessivos, as opções passam pela desistência, a oposição manifesta ou a teatralização. A miríade de sintomas depressivos e ansiosos que se regista nas escolas podem surgir, e surgem, em cada uma delas.

 

Posto isto, imagino leitores recalcitrantes a obstar a estas linhas: "O género de casos evocados não será tão frequente"; "o uso da palavra esmagamento é claramente exagerada".

 

É esta precisa palavra que pretendo utilizar para continuar o texto. É que o esmagamento não é só psicológico mas também físico. Refiro-me aos livros escolares, mais concretamente ao seu peso. Tenho pesado a mochila de meus familiares antes de irem para a escola. Registei variações entre oito a dez quilogramas (nos dias mais complicados).

 

Numa pesquisa por bases de dados científicas, deparo-me com um trabalho que aconselha que uma criança ou adolescente deve transportar um máximo salutogénico correspondente a 10% do seu peso corporal. O esmagamento, assim, não se limita a dimensões psicológicas, centradas no estudo e na performance, torna-se também físico.

 

Creio que a educação das gerações mais novas, dos nossos filhos, é demasiado importante para ser deixada apenas aos professores. A educação cruza variáveis importantes, caras à saúde escolar, como a saúde mental (monitorizar níveis de ansiedade e depressão em função de alterações — por exemplo, a introdução de um novo exame nacional) e a física (nomeámos o peso dos livros, mas também a qualidade das cadeiras, a da alimentação, entre muitos outros casos).

 

Necessitamos cruzar mais saberes implicados na saúde física e mental no momento em que se tomam decisões em educação. A avaliação da qualidade de uma escola é muito mais do que o "ranking" dos resultados obtidos pelos seus alunos em exames nacionais — que me parece ser um dos principais motivos para a inflação dos trabalhos de casa tão falada nos últimos tempos. Da mesma forma, podemo-nos interrogar em que medida esta obsessão pelas notas interfere no bem-estar dos alunos, na sua qualidade de vida e na aquisição de competências.

 

A obsessão pela performance em exames nacionais pode destruir todas estas outras importantes dimensões de qualidade.

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