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Paulo Rodrigues Ferreira

Paulo Rodrigues Ferreira, 29 anos, bolseiro de doutoramento e co-proprietário da Fyodor Books.

O excerto

"A ignorância tomou conta das nossas vidas. Vivemos alienados e indiferentes. Urge por isso tornar úteis várias actividades consideradas inúteis por quem nos governa. É essencial ganhar tempo, reaprender a saborear o tempo."

Santiago Ferrero/Reuters

Crónica

A utilidade do inútil

Ser bem sucedido não equivale hoje a ser uma pessoa municiada de ferramentas como a capacidade de raciocínio ou o sentido de liberdade. Os gostos foram formatados

Texto de Paulo Rodrigues Ferreira • 07/01/2015 - 14:19

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Parece que não vale a pena ler ficção, filosofia ou poesia, que optar por estudar história ou tradução é quase motivo de vergonha. Nós, infelizes estudantes de letras ou de ciências sociais, estudámos para o desemprego. Conhecer a obra de Foucault serve para trabalhar no Pingo Doce ou para não trabalhar em lado nenhum. É neste ponto que nos encontramos: devemos perceber de taxas de juro.

 

Carreiras de futuro são aquelas ligadas à engenharia informática, à economia ou ao marketing. Leste Homero mas Homero não salva o país da bancarrota. O que salva da tragédia é ouvir as sábias palavras de um qualquer Marinho e Pinto ou Camilo Lourenço. Qualquer dia transformamo-nos em rinocerontes que marram contra as paredes mal ouvem a palavra livro.

 

Ser bem sucedido não equivale hoje a ser uma pessoa municiada de ferramentas como a capacidade de raciocínio ou o sentido de liberdade. Os gostos foram formatados. A sociedade das massas impôs-se na política, na cultura, em todo o lado. Já não se trata de termos direito a sermos incultos: trata-se da obrigação de nada termos lido, de não conhecermos nada. Será importante ler, cursar literatura ou qualquer outra coisa que não sirva, isto é, que não dê emprego?

 

Se o importante é a liberdade, pensarmos por nós mesmos, então devemos seguir aquilo que queremos, mesmo que isso não dê em nada. A ignorância tomou conta das nossas vidas. Vivemos alienados e indiferentes. Urge por isso tornar úteis várias actividades consideradas inúteis por quem nos governa. É essencial ganhar tempo, reaprender a saborear o tempo. Ler Montaigne em vez de ficar colado ao noticiário das oito. Encontrar sabedoria na natureza em vez de perder tempo pensando nas oito horas de trabalho que nos esperam no dia seguinte. Ir ao teatro ou ao cinema assistir a um filme que não tenha recebido cinco estrelas do crítico-mor do reino.

 

Num livro intitulado "A utilidade do inútil" (2013), o italiano Nuccio Ordine lembra que, quando a crise ameaça um país, torna-se necessário duplicar os fundos destinados ao saber e à educação. Afirma o mesmo autor que nos próximos anos haverá que fazer um esforço para salvar da deriva utilitarista não apenas a escola e a universidade, mas também aquilo a que chamamos cultura.

 

Sabotar a cultura e o ensino significa sabotar o futuro da humanidade. E quando falamos de cultura, de ensino, de ciência, falamos de matérias que para muitos não passam de inutilidades, de obstáculos para o pagamento da dívida. A ignorância destrói-nos e qualquer dia não sabemos quem somos.

Eu acho que
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