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Crónica

Já chega de voluntariado

Eventos como o Estoril Open ou até mesmo o Rock in Rio fazem-me questionar sobre quem será menos íntegro: aquele que explora com o aval da sua vítima ou aquele que escolhe ser explorado de livre vontade

Texto de Manuel Clemente • 11/05/2018 - 10:33

Manuel Clemente
Manuel sofre de curiosidade compulsiva e é autor do blogue Semtimenos

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No seguimento da onda de vitórias que o nosso país tem vindo a surfar, na semana passada o tenista João Sousa sagrou-se vencedor do Estoril Open. Pela primeira vez, um português conseguiu ganhar esta prova. Já não bastava o europeu de futebol e a Eurovisão, pelos vistos também somos craques no ténis. Este deslumbramento e orgulho nacional são óptimos para a nossa auto-estima enquanto povo. Mas, da mesma forma que há males que vêm por bem, também existem bens que vêm por mal. Refiro-me às palavras proferidas pelo director do Estoril Open aquando do encerramento da prova. No seu discurso, foram enaltecidos os mais de 600 voluntários que trabalharam de forma incansável, muitas vezes chegando a cumprir turnos de mais de 20 horas. Junta-se ainda o destaque que este senhor deu ao facto de serem “voluntários que estão aqui a trabalhar de borla”. Relembro que a entrada no Estoril Open não era gratuita, o valor dos bilhetes oscilava entre os 10 e os 90 euros. Sendo este um evento de cariz não social e que gera lucro, fará sentido contratar-se voluntários em vez de empregados?

 

Ao que parece, não é apenas no mundo corporativo que, muitas vezes, se agradece apenas com um obrigado ou com a famosa “palmadinha nas costas”. Desde quando é que se recompensa apenas com palavras alguém que ajudou a gerar lucro? Infelizmente, desde sempre. Eventos como o Estoril Open ou até mesmo o Rock in Rio fazem-me questionar sobre quem será menos íntegro: aquele que explora com o aval da sua vítima ou aquele que escolhe ser explorado de livre vontade. O francês Jean Paul Sartre, um dos grandes pensadores do século XX, a determinada altura afirmou o seguinte: “Detesto as vítimas quando elas respeitam os seus carrascos.” Por masoquismo ou ignorância, muitos de nós optam por compactuar com quem, por maldade ou ignorância, decide explorar os outros.

 

Infelizmente, este é o tipo de “voluntariado” que muitos de nós aceitam e, logo de seguida, fazemo-nos de vítimas como se não pudéssemos fazer rigorosamente nada para mudar esse estatuto. Cada um tem aquilo que merece e nós, portugueses, não somos a excepção. Vejamos o que se passa nas empresas. Todos somos culpados enquanto acharmos normal trabalhar dez ou mais horas quando apenas nos pagam oito. Ou enquanto continuarmos a perguntar ao nosso colega se vai almoçar a casa só porque decidiu sair a horas. Quantos, enquanto colaboradores, criticavam o seu superior, mas quando atingiram aquele posto fizeram exactamente o mesmo ou pior? Eu conheci alguns.

 

Eu afirmo isto, mas contra mim falo. Houve momentos em que cheguei a entrar às 6h e a sair às 22 horas. Em determinadas alturas, também hesitei em sair a horas porque podia parecer mal. Levava trabalho para casa e, em vez de ter tempo para mim, punha-me a tentar finalizar uma to do list interminável. Como é óbvio, a empresa estava bastante satisfeita com o meu desempenho. Mas o melhor disto tudo é que, felizmente, consegui aprender. Pude chegar à conclusão de que aquilo que estava a fazer não era o melhor para mim. Independentemente da fase da vida em que estamos, vamos sempre a tempo de tomar consciência da nossa situação e tentar mudá-la. Só numa sociedade doente é que se pode achar normal ter medo do chefe porque ele não inspira, intimida.

 

Só numa sociedade debilitada podem existir pessoas que negligenciam a sua família e amigos em troca de um esgotamento. Só numa sociedade desequilibrada pode acreditar-se que aqueles que querem trabalhar menos horas são preguiçosos. Vejamos o nosso comportamento quando a função pública lutou pelas 35h semanais de trabalho. A maioria de nós, em vez de se juntar à causa, preocupou-se mais em gastar a sua energia em garantir que estes trabalhadores não iriam trabalhar menos horas do que o privado. Acham normal? Pois, eu também não.

 

E vocês, de que lado é que estão? São dos que exploram, são explorados ou nenhum dos dois? Alinhar neste tipo de esquemas laborais só garante uma coisa: que os nossos filhos e netos terão de lidar com uma realidade que nós optámos por perpetuar sem nada fazermos para a modificar. Não vale a pena dizer que não se pode fazer nada quando ainda nem dedicamos um minuto da nossa vida a pensar numa solução. Não vale a pena dizer que é impossível só porque temos receio de tentar. Se o problema foi criado por nós, ser humano, então só nós poderemos resolvê-lo. Se vai doer? É provável. Vai custar? Talvez sim. Podemos conseguir? Não tenho dúvidas.

 

Vamos preocupar-nos em cada um fazer a sua parte porque, tal como Gandhi disse, se nós não formos a mudança que queremos ver no mundo, então nada mudará.

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