Mohamed Hassen/Pixabay

Crónica

Falando sobre sustentabilidade demográfica

Não basta atrair "jovens competentes de várias partes do mundo" para resolver o problema da renovação das gerações mais velhas por gerações mais novas e mais qualificadas. As políticas aplicadas ao mercado de trabalho não devem apenas servir o lado das empresas

Texto de André Santos de Oliveira • 23/04/2018 - 15:22

André Santos de Oliveira
Mestre em Economia Monetária e Financeira pelo ISEG-UTL, André Santos de Oliveira trabalha actualmente como economista num banco

Distribuir

Imprimir

//

A A

Nos últimos anos, os problemas da baixa natalidade têm vindo a ser realçados com a evolução do índice de envelhecimento populacional. Em 2016, comparando com a União Europeia, Portugal era o segundo país com a taxa de natalidade mais baixa: 8,4 por cada mil habitantes. Tais problemas obrigam a que existam verdadeiras reformas estruturais, pois os custos futuros desta situação serão certamente muito mais elevados que os custos de aplicar medidas que visem inverter este ciclo actualmente.

 

Ao contrário do que se pensa, não basta atrair "jovens competentes de várias partes do mundo" para resolver o problema da renovação das gerações mais velhas por gerações mais novas e mais qualificadas. Tal pensamento ignora a incapacidade de criar medidas que alterem este ciclo negativo de forma sustentada. Perguntam alguns, mas então como poderemos inverter este ciclo negativo? Que tipo de medidas podemos estar a falar? Onde podemos encontrar indicadores que, com alguma antecipação, nos digam se estamos a ir no bom caminho? A minha resposta seria o mercado de trabalho.

 

O mercado de trabalho, para além de nos indicar o quão saudável está a actividade económica em geral, bem como o quão fácil o mercado se ajusta a novas oportunidades, mostra a disponibilidade que as pessoas têm de investir na sua vida pós-laboral. Ora vejamos. Actualmente, apesar de os números do desemprego estarem a evoluir favoravelmente e de o número de desempregados inscritos nos centros de desemprego estar a diminuir (menos de 400.000 indivíduos), quantos desses novos trabalhos permitem que as pessoas depois do horário laboral tenham disponibilidade para dedicar tempo à sua vida pessoal? Quantos desses novos trabalhos concedem estabilidade emocional e financeira a médio/longo prazo, para que as pessoas se sintam seguras em querer ter filhos? Quantas famílias não abdicam de ter filhos por terem trabalhos precários, onde têm longas jornadas de trabalho e vencimentos baixos? Já para não falar nos casos em que trabalham com contratos mensais que são renováveis automaticamente.

 

Com isto, é importante chamar à atenção que as políticas aplicadas ao mercado de trabalho não devem apenas servir o lado das empresas, onde a flexibilização dos contratos de trabalho, geralmente para facilitar os despedimentos, é a grande frente de batalha. É importante olhar para o outro lado, cujos benefícios a longo prazo são importantíssimos para o país. 

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que