Manuel Roberto

Gaia

Tiago é o jovem aprendiz de uma arte em vias de extinção: a tanoaria

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a madeira dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas. É uma arte secular, em vias de extinção e que encontrou, agora, um novo aprendiz.

Texto de Beatriz Silva Pinto • 30/07/2017 - 11:05

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Nas profundezas da cave de vinhos Cockburn’s existe um amplo armazém em que o rugir das máquinas e dos martelos é tão constante quanto a madeira e o serrim no chão. O frenesim é criado por sete tanoeiros, aparelhados com inúmeras ferramentas que carregam em si o peso do tempo. Com as suas próprias mãos, mantêm viva a arte de reparar e montar barris nos quais os melhores vinhos do Porto envelhecem durante décadas. É um ofício em vias de extinção mas, há cerca de um ano, sangue novo entrou (e ficou) no armazém.

 

Da equipa de sete tanoeiros, a última residente numa casa de vinhos do Porto, três deles têm mais de 50 anos e outros três andam em volta dos 40. Tiago Fonseca é a excepção, com os seus 22. Não foi o gosto nem a tradição de família que o levou ao ofício - não conhecia a arte nem ninguém que a praticasse. Estudou Artes Gráficas e nunca se imaginou tanoeiro. Até chegar à oficina por recomendação do pai, um conhecido da casa. Com alguma timidez, diz que ainda está “a ganhar o gosto” à arte, que reconhece como “pesada”, mas acredita que “é para continuar”.

 

“Nós estamos a precisar de mais rapaziada nova para aprender, porque isto não se aprende em dois dias”. Quem o diz é António Sá, mestre daquela equipa que existe há quase uma década, nas caves Cockburn’s. António fez-se tanoeiro em tenra idade - tinha só 14 anos. Também não tem, nem nunca teve, algum familiar no ofício: “Fui para uma empresa como electricista, mas como o encarregado precisava de dois rapazitos novos, agarrou-nos para a tanoaria e nunca mais nos deixou. E eu aprendi a arte.” Em quatro anos, passou por barrileiro, casqueiro, tanoeiro de terceira e tanoeiro de segunda e, aos 18, chegou a tanoeiro de primeira - o mais alto reconhecimento na hierarquia da arte.

 

Ainda assim, António acredita que a meta pode ser atingida em menos tempo: “Se as pessoas tiverem força de vontade e se agarrarem com unhas e dentes, bastam dois ou três anos. É preciso é que apareçam pessoas para aprender.”

 

Pipas podem durar 70 anos

Tiago chegou à oficina há quase um ano. A aprendizagem tem sido contínua. Chegou a “dar cabo de uns dedos”, por descuido, mas tem sido mentorado por todos os tanoeiros: “É muito um trabalho de equipa.” Com 35 anos de arte, António tem sido um dos que o tem orientado: “Gosto de ensinar aquilo que me ensinaram a mim”, admite.

 

E logo a seguir ouve-se, vindo do outro lado do armazém, em tom de brincadeira: “É por isso que ele está careca, é de tanto explicar.” É Ricardo Botelho quem manda a boca ao “chefe”. É o segundo tanoeiro mais jovem das caves e está no ofício há 16 anos. Até ter entrado numa oficina, não sabia que arte era aquela. Mas deixou-se ficar, apegou-se ao trabalho e já viu passar três mestres tanoeiros, que entretanto foram para a reforma. “O António é o quarto”, diz. Enquanto crava os pregos num velho arco de ferro, conta que os primeiros tempos foram duros. Mas agora ninguém o tira de lá: “Já tive oportunidade de sair daqui e não fui. Estou habituado a isto.”

 

Ao percorrer a tanoaria, como faz regularmente para ver se tudo está em ordem, António vai soltando, entre a insistência dos martelos, um “Esse arco está torto!” ou um “Olha bem para o que estás a fazer”. Pelo caminho, explica as entranhas do ofício e os olhos brilham-lhe. Em segundos, volta aos “tempos de maçarico” e relembra como, na produção dos barris, se cozia e vergava a madeira, sem que ela partisse.

 

O fumo, o cheiro e o calor já não enchem aquele armazém como encheram tantos, outrora. No sítio onde estão, “não há condições para ensinar a arte de construir uma pipa de raiz”, conta António. E, por isso, todo o conhecimento que tem guardado na cabeça (e nas palmas da mãos) não tem passado para a geração seguinte. Até porque agora há máquinas que fazem em metade do tempo aquilo que custa, aos tanoeiros, tamanha força, perícia e suor.

 

Os cascos, pipas feitas de madeira de carvalho centenária, que conseguem armazenar mais de 550 litros, podem durar entre 40 e 70 anos. Mas quando há falhas, são os tanoeiros os cirurgiões. Compor os que ficaram “rotos” é tudo o que fazem naquela tanoaria. Não é preciso deixar as aduelas a secar, nem é preciso dobrá-las. Toda a madeira é velha e reutilizada de pipas que são desmanteladas. O processo é cortado a metade, mas, ainda assim, trabalho não é coisa que falte. E o primeiro passo é feito a giz: “Assinalamos o que estiver mal e enumeramos as aduelas do casco para, no caso de a aduela cair ao chão ou se abater, a gente saber de onde ela é. As aduelas fazem muita diferença entre si.”

 

As boas aduelas aproveitam-se. As más são substituídas por outras reutilizadas, que se vêem encostadas à parede, já tingidas de roxo. A cor não é enfeite. Quando as aduelas estão assim é porque já estiveram, pelo menos, cinco anos em contacto com o vinho e é garantido que não vão contaminar a bebida com o sabor a “tanino” da madeira.

 

Depois, é preciso “juntar a madeira”, uma das tarefas que exige mão firme e olho clínico e à qual Tiago ainda não se habituou. Trata-se de polir os juntos para que as aduelas encaixem perfeitamente umas nas outras. “Armar o casco” é o passo seguinte - é preciso pôr em pé todas as (cerca de 40) aduelas dentro do primeiro arco de bastição, em ferro, que vai ser usado para apertar a madeira.

 

Mole, javre, colete, rabo-palhas, sobre-bojo e bojo - são os nomes dos arcos que ainda vão ter de ser encaixados, com força e jeito, no barril. E um ritual salta à vista - os tanoeiros giram à volta do casco, percutindo o malho numa peça em contacto com o arco, para que a vasilha fique bem apertada. A um ritmo constante, deixam cair o peso do malho, quase sem esforço, sobre o metal. Uma banda sonora inconfundível e da qual Tiago já apanhou o compasso: “Tem de ser uma pancada descontraída. Parece que a gente está a fazer muita força, mas aquilo é só o peso do malho.”

 

O trabalho minucioso vem a seguir: entre os juntos é colocada palha de tábua, para que o casco fique realmente vedado. Depois dos fundos encaixados e também com palha a vedá-los, os cascos saem da tanoaria para serem testados e desinfectados. E quanto dura tudo isto? Depende muito. Se o casco tiver aduelas e fundos bons, demora meio-dia a repará-lo. Mas caso os danos sejam maiores, o prazo estende-se.

 

Arte “dura, pesada, suja”

António, que se diz um “apaixonado pela madeira”, receia que o ofício tenha chegado perto do fim: “É uma pena, porque é uma arte muito bonita.” As razões são as esperadas: “Há pouca gente a querer fazer isto. Talvez por ser um ofício duro, pesado, sujo. Tomara eu que aparecessem mais jovens para aprender.”

 

Até Tiago, acabado de chegar, não consegue ser muito mais positivo: “Acho que isto está para acabar, não estou a ver grande futuro nesta área. Ou começam a vir pessoas para aprender ou isto vai acabar por desaparecer. Pelo menos esta tanoaria, mais rústica.” E desaparece das oficinas e do imaginário português. Com a idade de Tiago, são poucos os que conhecem o ofício: “Quando digo aos meus amigos o que faço, digo que trabalho a compor os pipos. Eles nem sequer sabem o que é a tanoaria, os tanoeiros.”

 

Mas não precisa de ser assim. Desde o final de Julho que, nas visitas guiadas às caves da Cockburn’s, qualquer pessoa pode ver os tanoeiros a trabalhar, através de uma pequena abertura na oficina que é como que uma janela para passado, de onde se observa, à distância, a arte secular de desmantelar, aduela a aduela, as pipas para manutenção. Para apanhar os tanoeiros ao vivo e apreciar o ofício em vias de extinção, é preciso passar por lá entre as 8h e as 17h, durante a semana. Entre os dias 1 e 15 de Agosto vão estar de férias, mas, logo depois, voltam.

 

Tiago está a pensar em aproveitar a oportunidade para levar os amigos às caves. Quer que eles vejam e entendam a arte de que é aprendiz e que é fundamental para a qualidade do vinho que transporta o nome do Porto - e de Portugal - para o mundo. A arte que aos pouquinhos, o tem vindo a conquistar.

 

Texto editado por Abel Coentrão

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