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Crónica

Erros de casting

Pensou, no caminho até casa, porque raio não se enquadrava na cultura da empresa. Dedicara muito do seu tempo à mesma, implementara algumas inovações, abrira canais e horizontes. Tinha acrescentado valor, objectivamente

Texto de Vanessa Furtado • 18/07/2017 - 16:04

Vanessa Furtado é communication specialist a tempo inteiro e aspirante a escritora nas horas vagas

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Acontece na vida pessoal mas também na profissional só sabermos aquilo que os outros nos quiserem contar. À falta de um dom que nos permita ler pensamentos ou prever o futuro, estaremos sempre dependentes do nível de transparência e de honestidade de quem nos rodeia.

 

— “Vamos despedi-lo porque em dois meses provou não se enquadrar na cultura da nossa empresa e não parece feliz a trabalhar.” Ele ouviu a baboseira que lhe estavam a impingir e nada acrescentou, tal era o choque. De salientar é que tinha ouvido aquilo depois de mais um exigente dia de trabalho, sem qualquer pré-aviso ou queixa sobre a qualidade do seu trabalho.

— “Que fique claro que não pomos em causa as suas skills e competência. Tem alguma coisa a dizer?”

Ele, de mãos suadas e batimento cardíaco extraordinariamente acelarado respondeu:

— “Eu? Dizer alguma coisa neste estado de choque? Não creio vir a ser positivo dizer-vos algo estando assim, com as emoções na ponta da língua. Isto tem efeito a partir de quando?”

 

— “Amanhã já não contamos consigo”.

 

Foi arrumar os seus pertences, cabisbaixo. Despediu-se dos colegas de equipa ainda presentes, assinou a papelada, entregou os equipamentos e saiu. Sentiu-se um trapo dispensado sem plausível e justa razão. Sentiu-se o queijo numa das mãos de um empregador com faca em punho, pensou ter-se dedicado em vão durante o período experimental que ainda estava a meio. Pensou, no caminho até casa, porque raio não se enquadrava na cultura da empresa. Dedicara muito do seu tempo à mesma, implementara algumas inovações, abrira canais e horizontes. Tinha acrescentado valor, objectivamente. O esforço não lhe pesara e ficou, compreensivelmente, preocupado com o seu futuro. As entidades empregadoras devem aos seus colaboradores o mesmo respeito que os mesmos lhes prestam. Não há motivo que justifique a ausência de uma explicação racional e objectiva quando se despede alguém competente. Os fins não podem justificar os meios. Ainda há quem pense que por ter o rei na barriga pode tudo, que quem manda pode na prática ter poder sobre o subordinado mas, quero acreditar, não fugirá ao peso da sua consciência. Os negócios geridos por pessoas sem escrúpulos e com muito ego não serão, em mercado algum, bem sucedidos por muito tempo, apesar do esforço em varrer muito discretamente a poeira para debaixo do tapete. As empresas, e os quadros de gestão que as representam, têm de perceber, de uma vez por todas, que servem pessoas na mesma porporção em que elas os servem. E que a lei da reciprocidade é soberana.

 

Teremos mais transparência nas empresas quanto mais transparentes formos. De nada vale ter valores descritos nos “brand books” e nos websites se os mesmos não forem praticados, diariamente, dentro de portas. A cultura de uma empresa cria-se e mantem-se pelo que se faz efectivamente, não pelo que se apregoa fazer.

 

Com esta experiência ele aprendeu que para a próxima tem de ser mais selectivo na empresa onde escolhe trabalhar. Aprendeu com aquele erro de casting, sem dúvida, e chegou à conclusão - alguns dias depois mas chegou - que era ele quem não se identificava com aquela selva. Na verdade, haviam-lhe feito um grande favor.

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