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Crónica

“Outsourcing”: intimidação, humilhação e precariedade

O "outsourcing" é visto como um dos mecanismos mais eficazes para a manutenção da economia e estabilização das empresas, uma vez que permite a alocação de mais recursos humanos e tecnologia a um custo mais baixo. Mas a que preço? Estamos desesperados nesta morte lenta, onde a cada dia cresce o peso da inutilidade

Texto de Lúcia Tomás • 15/01/2016 - 17:23

Lúcia Tomás, Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas

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Sinto na pele a dor da desumanização laboral. Intimidação, humilhação, precaridade, entre outras formas de anulação do eu, são conceitos que pautam a minha memória de curto prazo.

 

O "outsourcing" — processo através do qual uma empresa contrata outra para o desempenho de actividades que a primeira não pode ou não está interessada em desempenhar e em que a segunda é tida como especialista — é visto como um dos mecanismos mais eficazes para a manutenção da economia e estabilização das empresas, uma vez que permite a alocação de mais recursos humanos e tecnologia a um custo mais baixo.

 

A sociedade capitalista absorveu de tal forma este conceito que nos esquecemos de fazer a pergunta sacramental: qual o preço que cada um de nós paga individualmente pelo "outsourcing"? Sei qual é a minha quota. Soube-o, quase, desde que me sentei na cadeira de recrutamento de uma multinacional especialista em inovação e consultoria na área da alta tecnologia e líder em serviços de "outsourcing". Estava capturada, soube-o então.

 

Passo dois meses fechada dentro de uma sala sem qualquer função ou forma de ocupar o tempo. Conheço a Maria. A Maria orgulhava-se do seu percurso profissional de cerca 15 anos na área de Recursos Humanos (RH). Um dia, ficou grávida. Quando regressou à empresa, e após a licença de maternidade, foi encostada à parede. O vencimento seria reduzido em 50% e deixaria a equipa de RH. A Maria, que precisava mais do que nunca de trabalhar, acaba, assim, de tornar-se mais uma arma de arremesso da consultoria, à mercê de possibilidades cegas.

 

Eu a Maria encontramos a Rute. A Rute é estagiária do IEPF, foi contratada pela empresa há 6 meses, mas nunca teve uma função. Nesta situação, encontram-se dezenas de pessoas que passam o dia laboral, das 9h às 18h, à espera de que os seus serviços possam ser vendidos a um cliente para o qual nunca serão mais do que um número.

 

A Patrícia chora nos corredores. Está há quatro meses nesta sala e hoje foi despedida. A Teresa procura com desespero um novo trabalho. A Francisca, na sala há dois meses, é chamada a preparar uma colega para uma entrevista no cliente. A Francisca não tem a mínima competência para fazê-lo, mas vai. Pedem-lhe também que transforme o CV da colega, que é como quem diz, lhe dê ornamentos mais barrocos. Precisamos de mentir para convencer o cliente, diz-lhe o "business manager". A Francisca cora de vergonha: era preciso mentir para chegar à verdade. Não tinha opção.

 

As histórias proliferaram-se. Encontrei a Irene, a Júlia, a Marta, a Carla e muitos encontros. Encontro, por mim mesma, uma rede de apoio interna. Gente de carne e osso. Gente a sério. Rimos e choramos muito. Sentimo-nos nauseabundos. Estamos desesperados nesta morte lenta, incorporada naquilo a que se chama "outsourcing". Onde a cada dia cresce o peso da inutilidade.

 

Por tudo isto, começo a acreditar que o "outsourcing" é um descendente da teoria do caos. E tenho a convicção de que se alguma coisa tem a mais remota hipótese de dar errado, certamente dará.

 

Todos os nomes usados nesta crónica são fictícios.

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