Joana Gonçalves

Podcast

“No mundo dos que são grandes”, Paulo fala da bola dos anos 90

No podcast “No mundo dos que são grandes”, Paulo Freitas fala de clubes, jogadores e curiosidades do futebol dos anos 90

Texto de Miguel Dantas • 21/03/2018 - 17:39

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De pai para filho: o slogan que serve de mote a muitos grupos organizados de adeptos de futebol representa, na grande parte dos casos, o trilho que a paixão futebolística segue. No caso de Paulo Freitas, natural do Porto, foi o avô que o levou pela mão ao antigo Estádio do Bessa para o seu primeiro jogo. As memórias dessa experiência nunca serão esquecidas: "Tinha oito anos. Foi um Boavista-Belenenses e o Boavista ganhou 1-0 com um golo de Gilmar", dispara rapidamente o jovem actor de 26 anos, ao telefone com o P3. A semente plantada pelo avô deu frutos e Paulo Freitas é, 18 anos depois, o autor do podcast No mundo dos que são grandes, que relembra jogadores, treinadores e clubes da década de 90 e inícios dos anos 2000.

 

O primeiro episódio foi lançado a 23 de Janeiro e agora, todas as terças, quintas e sábados, Paulo leva os seus ouvintes a viajar no tempo pelos meandros do passado do futebol português. "Foi o futebol que eu comecei a ver e a gostar", diz Paulo, justificando desta forma o afastamento da actualidade. Sócio boavisteiro, não esconde a preferência clubística no programa, garantindo que trata "toda a informação de forma factual", sem qualquer rivalidade.

 

Assim ficamos a conhecer, por exemplo, Ion Timofte, romeno que em Portugal passou pelo Boavista e pelo FC Porto, destacando-se pelo exímio remate a média e longa distância. Conquistou cinco títulos pelos "dragões" e dois pelos "axadrezados", mas, tal como muitos, não é um jogador que seja lembrado por todos. São justamente estas figuras que — apesar de conhecidas — não estão cravadas na memória colectiva dos adeptos de futebol que o programa pretende reavivar. 

 

O futebol antigo versus a "guerra" do moderno

A explicação para esta opção cronológica — que diferencia o seu podcast desportivo dos restantes — está relacionada com a inocência característica da infância: "Pelo facto de ser criança [nos anos 90], concentrava-me apenas no que se passava dentro de campo. Agora tenho noção do discurso de ódio que as estruturas têm e que contamina os adeptos". Para ele, o futebol do final do século passado ainda possui a pureza que o desporto-rei dos dias de hoje já não carrega: "Naquela época víamos uma maior dedicação dos jogadores e não havia tanta profissionalização. Era um jogo mais amador e mais próximo do adepto".

 

Hoje, não é tão fácil para os amantes de futebol chegarem aos jogadores: "Os jogadores não falam tanto. Os próprios clubes, naquela época, eram mais acessíveis". O facto de os protagonistas serem, mais do que meros desportistas, marcas muito lucrativas, dificulta essa tarefa. O próprio conceito de "boa imagem" mudou muito, nas últimas duas décadas: "Agora já não há jogadores de bigode", diz, entre risos, Paulo. "Lembro-me, inclusive, de estar a ver um jogo do Manchester United e o guarda-redes estar a tapar o sol com a luva. Lembrei-me logo de que, noutros tempos, os jogadores levavam bonés para o relvado. Isso, hoje, é impensável." 

 

O actor que se aventura na rádio

Durante a sua — ainda curta — vida, o jovem natural do Porto seguiu um percurso académico afastado da área desportiva. Sempre quis ser actor e aos 15 anos, quando ingressou num curso de representação, apercebeu-se que o seu caminho não poderia ser outro. Desde então, tem trabalhado como freelancer na Cabeças no Ar e Pés na Terra, companhia de teatro de Ermesinde que se dirige sobretudo a um público escolar.  

 

No entanto, a paixão pela compilação de conhecimento sempre o acompanhou, ainda que em áreas muito particulares, como o desporto. "Quando era miúdo tinha um lado muito arquivista, sem perceber. Lia as revistas do início e final da época com as estatísticas", refere o jovem. E o facto de o futebol ser um mundo em constante mutação fez Paulo querer saber mais. "Queria descobrir os jogadores que comecei a ver no final da carreira ou os jogadores que nem cheguei a ver jogar", conta. Os vários clubes por onde passaram, o número de golos marcados, qualquer facto curioso: gostava, simplesmente, de absorver as informações.

 

Numa fase inicial, Paulo pensou usar o seu conhecimento num jogo de perguntas e respostas, um quizz para apresentar em bares e cafés. Porém, de forma repentina, decidiu experimentar o formato radiofónico e criar o podcast. O programa existe há cerca de dois meses, mas ainda é cedo para conclusões definitivas. Para já, e ao fim de 12 episódios, o balanço é positivo. "No início", conta, "foi um boom e isso ainda acontece sempre que há um episódio novo — formou-se uma base leal de ouvintes que ouvem todos os episódios".

 

Enquanto houver histórias, fica a promessa de que o podcast vai continuar. Para levar aos ouvintes mais nostálgicos histórias de uma época futebolística que, para o bem e para o mal, já não volta mais. 

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