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Crónica

A Educação Física não serve para nada

Tive Educação Física durante oito anos, na preparatória e no secundário, e durante oito anos não tive um professor que se interessasse por incutir em mim o gosto pela actividade física, uma coisa que fosse, como correr, por exemplo, que as bicicletas são caras

Texto de João André Costa • 04/12/2017 - 19:15

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Perdoem-me os professores de Educação Física, alguns até são meus amigos (por enquanto), mas a Educação Física nunca me serviu para nada, nem para mim nem para o sem número de “stôres” cuja única função ao longo dos anos se resumiu a mandar-nos correr à volta do campo durante meia hora, seguido de um jogo de futebol entre os rapazes enquanto as raparigas da turma faziam de claque e eu levava com boladas em todas as partes do corpo, já dentro da baliza e a malta a gritar golo.

 

Minto, também havia a ginástica e as raparigas a fazer a espargata à frente deste que vos escreve e nem sequer os dedos dos pés consegue tocar. Quero dizer, eu vejo-os, aos dedos dos pés, mas estão tão longe, ou então são os meus braços que são curtos, e por mais que curve as costas e estique as mãos não consigo passar dos joelhos e os olhos que já saltam das órbitas do esforço e falta de ar.

 

O espaldar? Um instrumento de tortura, pois claro, em pleno século XX, no qual o “stôr” insistia em fazer-me crescer pendurando-me pelos braços ao mesmo tempo que alguém me puxava as calças para baixo para risota geral, e eu sem poder descer, só cair, e o que vale é na altura não haver Facebook ou Instagram, e por aqui se percebe porque é que os miúdos se matam hoje em dia. Ah, e depois havia o pino, lá está, contra o espaldar, e um gajo a ter de segurar o corpo todo em dois braços de gelatina até que, três segundos depois, a cabeça mais a pouca auto-estima que me resta se esmagam contra o solo suado, e a Tânia de máquina fotográfica na mão para o jornal da escola. Bestial.

 

Nunca consegui saltar ao cavalo, e por mais balanço que tomasse aterrava sempre com os ditos cujos contra os últimos 15 centímetros deste pónei com pouco mais de um metro de altura. Não, houve uma vez em que o “Bush” me atirou pelo ar com tanta força que esta meia leca foi aterrar de boca do outro lado do cavalo mesmo à frente da Patrícia, a rapariga mais gira da turma, e eu com os óculos tortos e o mundo ao contrário.

 

Nunca tomei banho depois de Educação Física, quando muito apenas trocando de t-shirt, pouco ou nada interessado em mostrar as minhas peles enquanto os galos da capoeira passeavam os músculos nus e as coxas nuas do futebol federado aos fins-de-semana em direcção ao chuveiro, para humilhação de todos os que não conseguem sequer ter barba, quanto mais um bíceps ou um peitoral que se veja, apenas maminhas, como as meninas, e o pessoal que ri sem parar.

 

Aos 16 anos entrei para a musculação e por lá fiquei durante cinco anos. Ainda hoje me dizem que não se nota nada. Há pessoas assim, e nem todos podemos ser abençoadas pelos genes. Mas a musculação deu-me resistência e, sem querer, comecei a correr, cinco meias-maratonas ao todo, uma por cada ano. De caminho tenho cinco bicicletas e faço 40 quilómetros uma vez por semana, nas calmas.

 

Tive Educação Física durante oito anos, na preparatória e no secundário, e durante oito anos não tive um professor que se interessasse por incutir em mim o gosto pela actividade física, uma coisa que fosse, como correr, por exemplo, que as bicicletas são caras. Não, porque se interesse havia por parte dos “stôres” o mesmo passava por couratos à hora de almoço, o belo cigarrinho à volta do campo, as outras “stôras” de Educação Física sem esquecer as patuscadas ao fim-de-semana, bem regadas com o vinho da ressaca da segunda-feira de manhã. No fim tanto lhes fazia dar Educacão Física ou Electrotecnia e a escola era o seu passatempo, o seu entretém.

 

Hoje não vivo, não respiro, se não suar os montes e colinas trepados sobre duas rodas à velocidade da luz. Hoje não vivo se não conseguir incutir nos outros, mais novos e mais velhos, a importância de um corpo são para bem de uma mente tantas vezes ensandecida. Assim, de modo algum posso agradecer a quem nunca me educou, antes pelo contrário. Ah, e lembram-se dos galos da capoeira? Estão todos barrigudos e carecas. E, finalmente, tenho bíceps. E barba.

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