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José Paiva é jornalista mas agora guionista

Excerto

Um tal de Canelas decidiu começar a usar os pés para fazer justiça — porque usá-los para jogar requer outro tipo de inteligência que não têm — contra árbitros e o país insurgiu-se. Antes, os três grandes do futebol português brincam às cartilhas televisivas, aos comunicados e às queixas e o país diverte-se. Mas pronto, este é o pão nosso de cada dia.

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Crónica

Semana de todos os Macacos

Portugal tem os políticos que merece. Tem as pessoas que merece. Mas, sobretudo, tem o futebol que merece

Texto de José Paiva • 13/04/2017 - 14:50

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Ditou a evolução que o homem havia de ser um upgrade do macaco. Há quem acredite que o culpado seja outro, ou vá, a outros, como Adão e Eva. Mas, e apesar de estarmos em semana santa, vamos cingir-nos às explicações científicas porque não é de todo minha intenção entrar em discussões infindáveis sobre a origem da vida. E se o símio, muito menos avançado que nós, nos deixa a rir cada vez que nos tenta imitar, surge agora a prova de que a evolução não foi nada perfeita, principalmente aqui na preferia da Europa - e claro, de que deveria ser o animal a rir-se do ser humano.

 

Olhe-se para o futebol. Se lá fora, num pós (suposto) atentado terrorista na Alemanha, duas equipas e milhares de adeptos decidiram unir-se para dizer não aos imparáveis sustos sangrentos que nos vão ferindo de morte enquanto sociedade. Cá, a um ritmo alucinante, criamos guerrinhas de primatas dentro e fora das quatro linhas. Daquelas que deixam o lado racional a pensar: foi para isto que eu me desenvolvi?

 

Um tal de Canelas decidiu começar a usar os pés para fazer justiça — porque usá-los para jogar requer outro tipo de inteligência que não têm — contra árbitros e o país insurgiu-se. Antes, os três grandes do futebol português brincam às cartilhas televisivas, aos comunicados e às queixas e o país diverte-se. Mas pronto, este é o pão nosso de cada dia.

 

Dois episódios que metem os mais altos representantes do desporto. Sim, é verdade que seguem as pisadas de, vá, toda a história do futebol por cá. Mas há aqui um elemento novo - é que se liga ao nosso retrocesso evolutivo de que falei acima. A existência de figuras como a de Macaco, o líder da claque portista e, certamente, um futuro candidato a cargo político. Porque a olhar para o tempo de antena que se lhe dá ao Símio (é sinônimo da alcunha, e não de ofensa, atenção) — e que, numa rápida pesquisa, percebe-se que está supostamente ligado ao negócio da droga ou da venda ilegal de bilhetes — não faltará muito até chegar a vereador, por exemplo.

 

Pois correu muita tinta, muito programa e muito post dedicado exclusivamente a Macaco, à sua equipa que anda por escalões inferiores. E ainda vai correr mais. Se traz audiência, é para continuar. Deverá estar satisfeito, o Macaco - afinal o que pode mais aspirar um adepto? Ah, títulos e vitórias? Isso é muito verão de 2016. O Europeu deu cabo de nós, agora queremos mais. É como os vampiros, o sangue viciou-nos. E o resultado de tudo isto? 10-0 para o que mais de deprimente existe no futebol. O maior problema nem é dele ou da comunicação social. É de nós, amantes do mais extraordinário desporto que existe, que continuamos passivamente a olhar para isto tudo, tal como os macacos fazem quanto catam piolhos aos parceiros durante horas infindáveis sem questionar o porquê.

Eu acho que
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