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Crónica

Do ginásio e outras nudezes

Meditemos, talvez, enquanto o tendão não volta a ter a reunião, olhem que a meditação é um desporto radical

Texto de Luís Coelho • 21/02/2017 - 10:40

Luís Coelho é fisioterapeuta e escritor

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Fiz uma rotura de pensamentos, acabou-se a maratona da morte. Sai-me esta enquanto sofro na elíptica do ginásio. A maratona continua até que tenha queimado o sentimento de culpa. Ontem comi bolo, hoje terei de fazer mais trinta minutos, o que levará a coser mais aforismos, que acompanho com a descosura do tendão no ombro esquerdo. Tergiversando na máquina da corrida do faz-de-conta, vão escapando pensamentos em aparente fila indiana, atropelando-se, era preciso que saísse da elíptica e escrevesse, cosesse a bainha da reflexão, mas, assim, ficaria o sentimento de culpa, e isso faria mais pensamento ainda, acaso abalando tardiamente, não em fila indiana, mas em cascata, derramando ansiedade para cima do leito dos sentimentos condoídos. Se tal sucedesse, ainda me punha a aspirar o chão, quando chegasse a casa. Mas se terminar a "elipticidade" com esforço relevante, permitirei o pó no alojamento.

 

Pensando, vou tentando fazer a limpeza do escrúpulo, e lá continuo no exercício, em ritmo de retorno constante dos membros circum-navegando. É normal que, enquanto condoo os músculos, espreite os vizinhos do treino, todos o fazem, bem... a maior parte espreita-se a si-mesmo no espelho, ia jurar que o mais próximo está baço de suor.

 

Quem não se espreita a si ou ao vizinho mira o telemóvel, e, no intervalo dos "sms", até chega a treinar, mas achar que o ginásio é para treinar é ser mesquinho, o ginásio é para galar o ego, e o ego que nos gala, agora que vejo bem, uma rapariga olha para mim mais de dois segundos, talvez esteja interessada, um rapaz faz o mesmo, será gay?, se calhar até iria com os dois, e lá me está fugindo o pensamento das coisas respeitáveis, vejo tolos levantando os pesos e dando "urras" de esforço, tentam esgotar as fibras musculares, desatando e emperrando o conjuntivo, um dia destes serão meus pacientes, se ao menos tivesse paciência para eles, vêm aos meus cuidados e eu ajudo-os a regressar às séries e repetições forçadas (quando o meu escrúpulo não lhes apregoa a arte de abreviar o sofrimento), intermediadas pelas poses do ego, estes ao menos não se atiram tão facilmente às donzelas, um adolescente descansa no banco do "leg extension", e fala a fio, mostrando os músculos à dama do lado, não tarda esta "rainha do amor e da beleza" (lembrando Walter Scott) colocará a grinalda na lança erguida do cavaleiro, ele já treinou esporeando os glúteos e o quadricípete, limita-se, agora, a (des)armar o elmo, na tentação de uma corte constantemente adiada; quando dali sair, alguém se sentará naquele banco e se afogará nas feromonas, quiçá se erga logo com mais ânimo, porque isto de treinar implica o chocolate "pessoano", engordando a metafísica, na desculpa da saúde exaustada e bem sucedida.

 

Podem não acreditar, mas chego a fazer duas horas seguidas de elíptica; só nos últimos dez minutos puxo o suficiente para pingar de suor, é preciso compensar o banho, a melhor parte do treino, que seria decerto melhor ainda se a água não demorasse meio século a aquecer, mas não tomar banho é impensável, é necessário lavar a culpa suada, nem que seja com o gelo que esfria a lesão, acicatando o olhar. Ao espelho, mantêm-se alguns homens fazendo poses (o espelho não os engole como o lago de Narciso), aliás, no balneário, os lugares à frente do espelho geram combates titânicos de conquista, por vezes, fazem fila para se ver naquela superfície de deusa embaciada, e em fila se mantêm também meus pensamentos, rivalizando com o espelho do olhar interno, existe, sim, um sindicato que favorece os "sentires", mas o cérebro é um ditador, ele brada quando os "pensares" fazem seu protesto, houve, quiçá, um tempo em que os pensamentos se governavam em cooperativa, na democracia da primavera (a infância é uma autocracia consentida do conforto), como os músculos sinérgicos do gorila lá de baixo, se bem que o "brado" final me leva a pensar que também contribuem os movimentos do sexo que ele opera no simulacro da identidade, em vaivém da bacia.

 

Ainda no balneário, é interessante verificar que alguns daqueles que se espreitam ao espelho se fecham na casa de banho para desnudar o sexo; quando tomam banho, caminham para o chuveiro de sexo tapado e fecham a cortina, não vá o diabo tecê-las e alguém perscrutar o sabonete.

 

Relembro, agora, o pensamento inicial, e, sentindo a dor no ombro, que costuma sobrevir, penso ser tão aborrecido termos estas roturas parciais que fazem sofrer e desesperam, ao menos, a rotura total extingue a dor, se bem que mata o movimento. Para quem não sabe, as roturas do tendão/pensamento podem ser causadas por uso excessivo e inflamação, tendinite/pensamentite, o que significa que os músculos/pensamentos se excederam, no ginásio talvez, eventualmente porque não deixámos as fibras do corpo/cérebro efectuar a reunião sindical, a negociação com o ditador; assim, não havendo quem aguente, fica o ego fornicado e a história terminada. Meditemos, talvez, enquanto o tendão não volta a ter a reunião, olhem que a meditação é um desporto radical.

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