Em Cuba, ser pugilista obriga a ser feminista

autoria P3

// data 28/11/2016 - 17:45

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João Rodrigues deslocou-se a Cuba, em Agosto e Setembro de 2016, e fotografou "uma realidade quase impenetrável", a do pugilismo feminino cubano. Em comunicado ao P3, o fotógrafo explica: "As mulheres são uma raridade neste meio. As pugilistas cubanas enfrentam um combate para além do ringue, uma proibição que impossibilita a sua representação em competições nacionais e internacionais." As atletas que fotografou lutam contra o preconceito, o tabu e contra a proibição governamental de competir. São mulheres que mantêm a motivação na prática da modalidade, mesmo "sem ranking, sem combates, sem medalhas." O autor desta série, "Pugilistas cubanas: o embargo", visitou várias escolas de boxe durante a sua visita a Cuba: Rafael Trejo, a Finca, os Pavilhões Desportivos de Havana e de Trinidad. O repto para o desenvolvimento do projecto, explica, surgiu a partir da história de Namibia Rodriguez, "uma mulher que luta dentro e fora do ringue". Namibia é uma activista. Tem 40 anos e treina diariamente desde 2006. "Tem dado entrevistas e participado em documentários expressando o seu desejo pelo levantamento deste bloqueio." O fotógrafo, no entanto, não centrou o seu trabalho apenas em Namibia. Outras desportistas foram retratadas. Não muitas, porque "é raro ver pugilistas femininas em Cuba". "Quando perguntava às pessoas se conheciam alguma mulher pugilista, havia sempre risos e espanto." A proibição teve início nos anos 60, já com Fidel Castro no poder. As justificações que levaram à proibição, segundo informações que obteve junto de pessoas do meio desportivo cubano, têm por base um estudo científico realizado há várias décadas que alertava para as repercussões negativas que o boxe teria sobre o corpo feminino; outro motivo apontado seria de cariz estético. "Não ficaria bem a uma mulher lutar e transformar o seu corpo em prol da modalidade." "As mulheres cubanas existem para mostrar a sua beleza, não para receberem golpes no rosto", são palavras do treinador de boxe da equipa Pedro Roque, citado por uma radioemissora local, em 2009. "Apesar de Cuba ter aparentemente uma igualdade de género no mundo laboral e salarial, aqui está um claro exemplo de discriminação. O meu trabalho tem por objectivo mitigar estas diferenças e apoiar esta revolução feminista no mundo do boxe cubano." O fotógrafo contactou, com esse fim, a embaixada de Cuba em Portugal, o comité olímpico português e a presidente da comissão para a cidadania e igualdade de género. Deseja criar pontos de pressão política para a dissolução da proibição junto do governo cubano, "para que as mulheres possam combater livremente, numa esfera mais justa, inclusiva e equitativa".

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