Carlos Barria/Reuters

Crónica

Jogos Olímpicos: corpo e voz para as causas

A vida é uma competição e estamos todos a levar uma bela sova. Até quando vão ficar calados? Vocês são a nossa voz. Usem-na

Texto de Nina Vigon Manso • 08/08/2016 - 11:44

Nina Vigon Manso é cientista social, activista e entertainer

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Tudo é política. É justo afirmar que Rio 16 é um dos Jogos Olímpicos mais marcantes politicamente. Estrategicamente, o presidente interino do Brasil, Temer, contestado dentro e fora do estádio, fez algo inédito: pediu para não ter o seu nome mencionado na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos. Todavia, nas redes sociais e meios de comunicação social a excitação e deslumbramento pela cerimónia é relevante. Aparentemente, “o Rio de Janeiro continua lindo”, como canta Gilberto Gil. Mas nos bastidores Caetano Veloso tira fotos contraditórias: “fora Temer.” Então e “aquele abraço”? O mundo ficou siderado com o movimento de Gisele Bündchen e a polémica que envolvia a modelo na encenação de um assalto cometido por um negro dissipou-se. Metade da população é negra e pobre, assassinada diariamente nas ruas e este ia ser o cartão-de-visita da abertura de Rio 16. Salva-nos a coerência de Chico Buarque, forte opositor de Temer: “Meu caro amigo, aqui na terra tão jogando futebol... Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta.” Confere.

 

A vida é sobre movimento e movimentos

Pese embora este cenário, começaram os jogos. E nunca uns jogos tiveram atletas tão ganhadores só por estarem presentes. Rio 16 tem uma equipa de refugiados: não vão chorar ao som de nenhum hino, mas carregam o mundo com eles. Um mundo que a dada altura lhes extorquiu a vida. E por isso, vão competir a passar uma mensagem: o mundo não está preparado para eles, mas eles prepararam-se para o mundo. E têm uma história para contar.

 

Atletas e embaixadores de causas político-sociais

Deram o seu melhor para mostrar que são mais do que a redutora designação “refugiado”. Aconchegam e reconstroem tudo no coração. Viveram com quase nada e morreram de quase tudo. Não deveriam ter de provar nada a ninguém. Yolande Bukasa Mabika e Popole Misenga foram atraiçoadas novamente no Campeonato do Mundo de Judo no Rio em 2013. O seu treinador confiscou-lhes os passaportes, dinheiro e acabaram perdidas nas ruas do Brasil. Mas elas não desistiram.

 

Yusra Mardini e a sua irmã Sarah, nadadoras sírias, nadaram durante três horas e meia, empurrando um barco com refugiados até à ilha de Lesbos. Salvaram outras famílias. Em declarações ao The New York Times, Yusra disse que quer usar a atenção recebida para ajudar outros refugiados. Tem esperanças de voltar à Síria e partilhar a sua história. Yiech Pur Biel, atleta dos 800 metros masculinos, em 2005, com 10 anos escapou ao conflito no sul do Sudão. Disse em declarações à Al Jazeera: “Eu quero ajudar a remover o título “refugiado” e mostrar que somos mais do que isso.”

 

Samia Yusuf Omar, 200 metros femininos, quando correu em Pequim 2008 sem hijab, desafiou o mundo. Os seus ténis foram doados pela equipa do Sudão. Quis mostrar dignidade: como mulher, atleta e a do seu país. Regressou à Somália para melhorar o seu desempenho para Londres 2012, volta ao terror, foge e morre afogada em Abril de 2012 no Mediterrâneo.

 

Por Samia e por todas as pessoas que sofrem pelo mundo fora, está na hora dos atletas falarem. Não basta dizer que têm orgulho nas vossas origens. O mundo já tem muitas selfies com Chefes de Estado ou estrelas pop. Apontem as necessidades dos vossos países ou grupos discriminados. O mundo inteiro torce por vocês. Está na hora de torcerem pelos outros. A vida é uma competição e estamos todos a levar uma bela sova. Até quando vão ficar calados? Vocês são a nossa voz. Usem-na.

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