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Crónica

O que é que a selecção tem de nacional?

Em alturas como a do Euro, o grau de patriotismo dos portugueses tende a subir a níveis absurdos, sendo pautado por quanto torcemos pela selecção nacional. Mas de que forma é que ela retribui?

Texto de Hugo Filipe Lopes • 21/06/2016 - 15:27

Hugo Filipe Lopes
Hugo Filipe Lopes não é escritor porque não acredita na definição mas escreve porque não consegue evitar.

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Cristiano Ronaldo pode ou não ser o melhor jogador do mundo, é indiferente, porque o que devia importar não era somente o que faz com a bola nos pés mas, sobretudo, o que faz com o resto do corpo. Isto porque qualquer português residente no estrangeiro, com ou sem internacionalismo, está automaticamente a representar o seu país e a projectar uma imagem de Portugal. Não é por isso uma prática incomum da parte dos portugueses residentes em solo nacional, a de castigar através do sarcasmo os “emigras” que voltam à terra em Agosto, ou mesmo os novos “emigras” mais "cool" que aparecem na RTP e passados seis meses salivam desesperadamente por um prato de bacalhau ou por um pastel de nata.

 

Quando se fala de emigrantes do mundo do desporto em geral, e do futebol em particular, o nível de exigência dos seus compatriotas parece cair drasticamente, acolhendo de bom grado qualquer pessoa com um mínimo de capacidade futebolística. Mesmo que não consiga pronunciar palavras com mais de três sílabas ou que o seu vocabulário se limite a 50 palavras, sendo que 20 são sinónimos. Nestes casos, independentemente da inaptidão em ser português, não só por não se saber expressar na língua mãe mas, também, por estar totalmente desfasado da realidade e vivência do cidadão típico, aceitamos que tais personagens sejam representantes portugueses em missões oficiais e remuneradas. Depois ainda há quem se surpreenda que a imagem do país lá fora não seja substancialmente diferente da da velhinha de preto à janela e do "tuga" de bigode, tal como no Estado Novo.

 

Isto apenas parece confirmar, cada vez mais, a teoria de que não é a justiça que é cega, é o patriotismo que tem a cabeça enterrada na areia, já que as mesmas pessoas que se queixam do estado do país são aquelas que abandonam tudo para ver um grupo de pós-adolescentes imberbes, sub-educados e sobre-remunerados, exercer manobras de distracção face ao que realmente interessa. Não durante as duas horas do jogo mas durante meses a fio, quando não ininterruptamente.

 

Porque não basta assistir ao desporto em si, também é preciso ser constantemente bombardeado com a gaveta de roupa interior do Quaresma ou os pensamentos mais íntimos de Renato Sanches. E uma vez terminado o jogo, como fica a vida do espectador? Com mais umas quantas nuvens no castelo que tem sido construído durante toda a vida.

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