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Nuno Maulide tem 33 anos e lidera um grupo de investigação no reputado Instituto

Nuno Maulide tem 33 anos e lidera um grupo de investigação no reputado Instituto Max-Planck, na Alemanha DR

Nuno no laboratório DR

Piano e Química

A dimensão artística:
"Tal como cada músico interpreta uma peça segundo as suas vivências pessoais, o seu entendimento do que o compositor escreveu e a sua sensibilidade, também um químico concebe uma nova molécula, uma nova reacção ou um novo processo de síntese de acordo com factores muito pessoais e que têm a ver com a sua concepção da Química e a utilização que faz das ferramentas que tem ao seu dispor. Existem milhões de formas de sintetizar quase qualquer composto químico complexo – a rota que eu escolho é quase como uma impressão digital e uma súmula daquilo que eu sou enquanto cientista."

Perfil

Nuno Maulide: o cientista-pianista premiado pela Bayer

Tem 33 anos, é químico orgânico e foi premiado pela Bayer com um prémio de excelência no valor de dez mil euros. Nuno Maulide recebe o prémio esta segunda-feira — e também vai tocar piano

Texto de Amanda Ribeiro • 14/04/2013 - 20:38

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Com apenas 33 anos, Nuno Maulide é líder de um grupo de investigação no reputado Instituto Max-Planck, em Mülheim, na Alemanha. Trabalha em Química Orgânica — isto é, tenta, todos os dias, "ver o que mais ninguém viu", "conceber o que nunca antes foi concebido". O ano passado foi eleito pela Sociedade Alemã de Química como melhor jovem investigador no país. Em Janeiro, soube que tinha ganho o "Bayer Early Excellence in Science Award 2012" na área de Química, distinção atribuída pela Fundação Bayer desde 2009 a jovens cientistas em início de carreira. O prémio, no valor de dez mil euros, vai apoiar despesas de investigação. É o primeiro português a recebê-lo. A cerimónia de entrega realiza-se na manhã de 15 de Abril no instituto alemão. "Vai ser um evento químico e musical", graceja Nuno numa entrevista por e-mail ao P3. É que, para além de cientista, Nuno é pianista. Hoje, depois da comunicação, dará um concerto.

 

Apresenta-me este prémio?

Este prémio é atribuído pela Bayer a um cientista jovem na área da Química com carreira de investigação independente de nível internacionalmente relevante. A premissa de base é que o laureado tenha concluído o doutoramento há, no máximo, cinco anos. Ter uma produção científica enquanto "Investigador Principal" com grande visibilidade internacional num máximo de cinco anos após a conclusão do doutoramento é complicado, e a competição é naturalmente grande. Devo dizer que fiquei particularmente satisfeito sobretudo por ser uma distinção oriunda do meio industrial, onde a investigação fundamental é sempre colocada no contexto das suas aplicações potenciais.

 

Foi premiado pelo "desenvolvimento de novas vias de síntese de pequenas moléculas cíclicas densamente funcionalizadas". O que significa?

O nosso grupo trabalha na área da Química Orgânica, em concreto na síntese de compostos orgânicos. Esta área tem aplicações variadas, nomeadamente ao nível da preparação de fármacos mais potentes, compostos de interesse industrial (por exemplo, para a indústria agroquímica) ou novos "leads" na luta contra doencas para as quais ainda não existe cura. Nesta área, geralmente o mais difícil é atingir essas moléculas-alvo em poucas etapas, gerando um mínimo de resíduos e produtos indesejados e com custos reduzidos. O prémio é atribuído a uma parte significativa da nossa investigação em que desenvolvemos uma metodologia nova que permite o acesso fácil e rápido a moléculas pequenas, mas muito complexas, cuja promissora actividade biológica já está a ser investigada.

 

Porquê o interesse pela Química Orgânica?

A Química Orgânica é uma área muito especial dentro da Química. Por um lado, um químico orgânico de síntese (como eu e os meus colaboradores) produz quase diariamente algo que nunca tinha existido no mundo antes desse dia. Como a nossa actividade se centra na preparação de novas moléculas, utilizando novas reacções, mas também procurando novas funções e propriedades, os químicos orgânicos efectivamente “criam o seu próprio objecto de trabalho, todos os dias”. Depois, há uma componente muito intuitiva e que requer uma dose muito grande de “feeling” para conseguir prever, antecipar e explicar o comportamento das moléculas orgânicas quando sujeitas a condições diferentes. Inventar uma nova reacção é, certamente, tão gratificante artisticamente como compor uma canção ou pintar um quadro. E na Química Orgânica moderna já não basta “ser capaz de produzir a molécula A ou B”. A barra está na capacidade de o fazer da forma mais rápida, eficiente e “elegante” possível — por “elegância” entenda-se a tal componente artística, o ser capaz de ver o que mais ninguém viu, de conceber o que nunca antes foi concebido…

 

Está fora de Portugal desde 2002. O que o levou a emigrar e qual foi o seu percurso?

Na altura, foi a vontade de aprender mais e ter outro tipo de experiências profissionais que me moveram. Aproveitei o último ano do curso de Química para realizar o meu estágio de investigação a meias entre a Indústria e a Universidade: seis meses numa empresa na Suíca e seis meses numa Universidade na Bélgica. Ambas correram muito bem, decidi-me à séria pelo meio académico e tive uma oferta para continuar para doutoramento no grupo em que trabalhei na Bélgica. O resto foi uma sequência, nem sempre lógica, mas muito natural… Durante os primeiros meses do pós-doutoramento, nos Estados Unidos, senti-me estranhamente (e digo “estranhamente” porque geralmente este tipo de sentimento surge bastante mais tarde) pronto para iniciar uma carreira independente. Como um pássaro-bebé que se sente subitamente preparado para voar (passe a analogia foleira!). Soube que havia lugares disponíveis para trabalhar na Max-Planck Society (uma rede que inclui vários institutos em todas as áreas do saber) e decidi concorrer. Desafiando as expectativas mais optimistas (sobretudo devido à minha tenra idade e reduzida experiência) acabei por ficar em primeiro lugar e ter a oportunidade de ter o meu próprio grupo de investigação numa instituição de excelência logo aos 28 anos…

 

Se não tivesse saído de Portugal, teria a mesma carreira?

A carreira que cada pessoa faz depende obviamente das experiências que adquire e não é nada difícil perceber que teria um percurso necessariamente diferente se tivesse ficado em Portugal. Em alturas de crise, a investigação recebe sempre menos recursos e isso torna a tarefa de quem tem que gerir esses recursos mais complicada. Mas há pessoas a fazer muito bom trabalho em Portugal e há certamente condições para se fazer boa investigação — assim haja essa vontade e se atribua mérito e reconhecimento a quem ele é devido. Também penso que é preciso dar oportunidades (e responsabilidades) aos investigadores logo à saída da sua formação, que é um período único na vida de um cientista em termos de criatividade, energia, motivação e vontade de inovar.

 

Já viveu em Portugal, França, Bélgica, EUA e, por fim, Alemanha. A mobilidade é uma escolha ou uma obrigação?

Não se esqueça da Suíca, que foi o primeiro país em que vivi quando saí de Portugal. Tenho sempre muita curiosidade em conhecer novas culturas e, sobretudo nestes últimos anos, absorver a forma de estar e de viver das pessoas, que se modifica dramaticamente de país para país! Tenho acabado sempre por me sentir “em casa”, nalguns sítios mais rápido (como na Bélgica) noutros mais devagar (como nos EUA). A mobilidade é sempre uma escolha, fruto da minha vontade de aprender mais e de me colocar à prova, de sair da minha “zona de conforto”. Na minha idade, a vida sem desafios não tem piada.

 

Considera regressar a Portugal?

É algo que me passa ciclicamente pela cabeca. Só me consigo ver a fazer algo que me apaixone e isso, para já, tem sempre a ver com Ciência.

 

Que conselhos dá a jovens investigadores que queiram seguir Ciência?

Mais importante do que saber para onde se vai, é saber o que se quer fazer. Quem faz algo com paixão e dedicação, acabará sempre por fazer bem — seja qual for a área em questao. E não deve haver receio de sair da tal “zona de conforto”.

 

Tem uma outra paixão: a Música. Perdeu-se um pianista, ganhou-se um cientista?

Depois de concluir a parte principal do curso geral de Piano no Instituto Gregoriano de Lisboa, fiz o primeiro ano do Curso Superior de Piano da Escola Superior de Música de Lisboa. A música é a minha primeira paixão! Mas uma carreira ao mais alto nível é algo de intrinsecamente solitário e é preciso muito estômago para aguentar a pressão que lhe está subjacente. Continuo a tocar piano todos os dias e dou com alguma regularidade concertos para beneficiência (colaboro com a delegação da UNICEF em Mülheim). Até participo, volta e meia, em concursos internacionais para amadores de Piano — e a coisa tem corrido mesmo muito bem. O meu próximo concerto, curiosamente, é a 15 de Abril. Passo a explicar: a Bayer decidiu, como parte do evento de entrega do prémio, alugar um piano de cauda para proporcionar um pequeno concerto de 30 minutos logo a seguir à minha comunicação científica. Vai ser um evento químico e musical (risos).

 

Artigo corrigido às 12h17. 

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