Ciência

Carne artificial: vamos substituir o matadouro pelo laboratório?

Fabricar bifes em laboratório pode ser uma opção para reduzir o consumo de carne animal, cuja produção tem um custo ambiental muito alto. Valores nutricionais e preço podem ser obstáculos

Texto de Filipa Barbosa/JPN • 08/03/2013 - 11:57

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A carne artificial pode ser uma opção viável para reduzir 278 milhões de toneladas de carne animal, produzidas por ano. Apesar das possíveis diferenças nos valores nutricionais, os especialistas não condenam a alternativa.

 

Em 2012, cada europeu consumiu cerca de 76 quilos de carne. No resto do mundo, a média foi de 42 quilos. Estas estatísticas estão a gerar preocupações ambientais, já que por cada mil gramas de carne de vaca produzida para consumo humano, são libertados cerca de 13 quilos de gases com efeitos de estufa — muito mais nocivos que o dióxido de carbono.

 

A Organização para a Comida e Agricultura das Nações Unidas sublinha que este valor é equivalente aos gases que, em média, são emitidos a cada 160 quilómetros percorridos por um automóvel.

 

O problema dos valores nutricionais

Anna Olsson, investigadora do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) da Universidade do Porto, diz mesmo que, actualmente, o "nível de consumo de carne não é sustentável". Assim, a produção de carne em laboratório pode ser a solução para um ambiente mais equilibrado.

 

Tal como a convencional, a carne artificial "pode ser enriquecida com nutrientes e há maiores possibilidades de controlar a sua composição do que quando a carne deriva de um animal". Segundo a investigadora, os valores nutricionais "não precisam de ser diferentes, mas se houver diferenças em termos de valores nutricionais, parece provável que sejam em favor da carne artificial".

 

Já Célia Lopes, dietista, refere que ainda é cedo para ter acesso a relatórios acerca da "composição nutricional da carne artificial". Deste modo, ao não existir "provas dadas ao nível da comunidade científica, não é possível afirmar que a carne artificial apresenta os mesmos valores nutricionais que a de animal".

 

No entanto, Anna refere que comer "carne em si não é problemático", uma vez que o problema está mesmo nas grandes quantidades consumidas "no mundo ocidental". Célia Lopes partilha da mesma opinião pois "como qualquer alimento", o problema é quando é consumido em excesso". Deve-se variar o tipo de carne consumida, "limitando o consumo de carnes vermelhas e ter em atenção a certificação dos produtores e distribuidores.

 

Apesar de defender que a carne artificial pode ser mais facilmente controlada para "conter características benéficas para a saúde", Cristina Rodrigues, do Centro Vegetariano, diz que, ao tratar-se de um alimento produzido em laboratório, "não se sabe se terá consequências para a saúde ou não". Mesmo assim, "a substituição da carne animal por carne artificial certamente diminuirá problemas de colesterol e outros associados ao consumo excessivo de proteínas animais", sublinha.

 

Projecto da Universidade de Maastricht

Na Holanda já há previsões para o primeiro hambúrguer de origem não-animal. Nos próximos meses, a equipa de cientistas e investigadores da Universidade de Maastricht — liderada por Mark Post — vai apresentar os primeiros resultados do projecto que desenvolve carne em laboratório.

 

O processo é complicado mas garante a salvaguarda e respeito pelos animais. As células estaminais são extraídas de tecido muscular animal, através de uma autópsia, para depois serem cultivadas in vitro. Ao longo do processo, acrescentam-se vitaminas, açúcar e gordura de forma a estimular a origem de três mil pedaços de tecido: o suficiente para produzir um hambúrguer.

 

A carne de laboratório vai ter um preço elevado, tratando-se de um produto para um pequeno "nicho". Assim, inicialmente, não vai ser um produto para o grande público. Cristina Rodrigues lembra, no entanto, que é necessário que o produto seja "saboroso" e que tenha "um preço mais acessível do que a carne" convencional, para granjear mais apoiantes. E mesmo assim há muitas pessoas que nunca vão ter "interesse em experimentar um produto de laboratório", diz. Pode até levar "muitos anos até se mudar mentalidades e hábitos".

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