Investigação

Portuguesa usa “mini-cérebros” para revelar mistérios do autismo

Investigadora Catarina Seabra recebeu bolsa de 150 mil euros para estudar o autismo usando organóides cerebrais humanos

Texto de Mariana Correia Pinto • 22/03/2018 - 11:27

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São “mini-cérebros” criados com células de dentes e podem desvendar novas informações sobre o funcionamento cerebral de pessoas com autismo. Catarina Seabra, investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, obteve uma bolsa individual Marie Skłodowska-Curie, no valor de 150 mil euros, para fazer o seu pós-doutoramento. Nos próximos dois anos, vai desenvolver organóides cerebrais humanos em laboratório e mergulhar no estudo do autismo.

 

O encontro da investigadora com a doença deu-se quando, na Universidade do Porto e em Boston, desenvolveu o seu doutoramento na área da genética humana. Nesses anos, trabalhou modelos para estudar o autismo a partir de outra técnica (CRISPR), uma abordagem pouco usada na altura e que entretanto ganhou lastro.

 

Foi ao perceber a “complexidade” da doença, sobre a qual “há ainda muito por explicar”, que Catarina Seabra, de 28 anos, se entusiasmou com a sua investigação. Não tinha nenhuma ligação afectiva ao tema, mas procurar novas revelações e outras perspectivas para pessoas com autismo tornou-se um objectivo: “50% dos casos têm origem genética, mas ainda assim não se consegue apontar um gene específico responsável pela doença”, explicou ao P3 numa entrevista telefónica. “Sabe-se apenas que a genética tem um papel muito importante, mas pode até haver mais do que um gene modificado.”

 

As perturbações do espectro do autismo afectam cerca de 1% da população mundial e são cinco a dez vezes mais frequentes em rapazes do que em raparigas. São perturbações do neurodesenvolvimento, ainda que geralmente sejam detectadas apenas entre os dois e os cinco anos. É um doença sem cura, mas com tratamento de alguns sintomas.

 

Células que vêm dos dentes  

Em linguagem científica, “mini-cérebros” são organóides cerebrais. E no estudo da portuguesa licenciada em Ciências Biomédicas e mestre em Biomedicina Molecular serão produzidos a partir de células estaminais dentárias — que podem ser extraídas de dentes do siso ou de leite — de pessoas com autismo.

 

O uso de organóides na medicina não é novo. Mas a abordagem de Catarina Seabra é inovadora por escolher as células dentárias como fonte, uma técnica que é vantajosa também por não ser invasiva, aponta, deixando uma explicação extra: “As células dos dentes vêm da mesma camada embrionária que as células dos neurónios.”

 

Depois de serem recolhidas dos dentes, as células serão colocadas em cultura até se transformarem em neurónios. E isso é um processo de alguns meses: ao fim de apenas um começam a desenvolver-se, entre os quatro e os oito ficam “maduros”. É previsível, por isso, que no final deste ano haja já alguns desenvolvimentos. 

 

O “objectivo final” da investigação é “a criação de novas terapias”, ainda que, tendo em conta a diversidade da doença, uma terapêutica para estas pessoas "possa ser eficaz apenas para um caso específico ou um grupo de casos". Antes dessa conclusão, porém, há algo tão ou mais importante: “perceber que alterações ocorrem ao nível do cérebro”, com especial enfoque nas “mudanças morfológicas e a comunicação entre neurónios”. Os resultados obtidos serão depois comparados com a organização cerebral de pessoas saudáveis. E permitem fazer "medicina personalizada". "Vamos testar fármacos nos organóides vindos de doentes com autismo e ver se conseguimos reverter a situação."

 

Através de uma parceria com a Unidade de Neurodesenvolvimento e Autismo do Hospital Pediátrico de Coimbra, foram já selecionadas 150 pessoas com autismo — entre os 12 e os 25 anos — para integrar o projecto. Os pais dos menores, congratula-se a investigadora, mostraram-se muito abertos à ideia e a fase de recrutamento continua em andamento.

 

O estudo de Catarina vai integrar o projecto “ProTeAN” — produção e teste de neurónios e organóides cerebrais humanos: modelos avançados para o estudo de doenças do neurodesenvolvimento, liderado pelo investigador João Peça, do Grupo de Circuitos Neuronais e de Comportamento do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC). A utilização de organóides cerebrais em ambiente de laboratório é também uma alternativa aos ensaios convencionais, como os testes em ratinhos e outros animais.

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