Ana Marques Maia

Tecnologia

Uma bengala electrónica que é um ensaio contra a cegueira

Investigadores da Universidades de Trás-os-Montes e Alto Douro e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência desenvolvem tecnologia para cegos há dez anos. Bengala electrónica com sistema de visão artificial pode ser comercializada em breve. E os potenciais utilizadores já testaram

Texto de Mariana Correia Pinto • 20/02/2018 - 20:07

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Andam há dez anos a pensar como a tecnologia pode ajudar pessoas cegas ou com baixa visão no dia-a-dia e têm horas incontáveis de trabalho produzido. Mas sempre que fazem um teste com potenciais utilizadores, algo novo se acrescenta a este “projecto em constante evolução”. Quem o diz é o bolseiro Hugo Fernandes, que integra uma equipa de investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (Inesc Tec) numa viagem tecnológica que tem também uma missão social. “Há pouco a Isabel disse uma coisa que não tínhamos pensado: não interessa só chegar ao local”, começa por contar. Por exemplo, se um cego quer ir ao WC num centro comercial o dispositivo não pode limitar-se a dizer como vai até lá: “Tem de explicar também que chegou e a casa de banho está à esquerda ou à direita.”

 

Isabel Claro nasceu sem problemas de visão. Mas, aos dois anos, um diagnóstico repentino virou do avesso a vida dos pais e da menina de Vila Real: tinha síndrome de Laurence Moon, uma rara doença genética que origina, entre outras coisas, retinose pigmentar. A degeneração da retina foi progressiva. Isabel ainda completou o 12º ano sem qualquer apoio especial, fez uma vida quase autónoma “até aos 22 ou 23 anos”. Depois, a perda de visão acentuou-se. Os dias de liberdade encolheram.

 

Tesoureira na Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (Acapo) em Vila Real, Isabel Claro, 35 anos, não se rende ao mundo de sombras a que a síndrome a destinou. Por isso, quando ouviu falar do projecto da UTAD e do Inesc Tec não hesitou em envolver-se. Afinal, mesmo que ela não use bengala no dia-a-dia por ter acompanhamento constante, sabe bem da utilidade que dispositivos como este podem ter. E do número de pessoas que podem ajudar: de acordo com os Censos de 2011, haverá em Portugal 900 mil indivíduos com alguma dificuldade de visão. E 28 mil pessoas cegas.

 

“É um protótipo muito bom”, reage minutos depois do teste de uma bengala electrónica com sistema de visão artificial feito nos corredores da universidade transmontana. O “arsenal” — como lhe chama Hugo Fernandes quando se aproxima de Isabel Claro para lhe retirar o dispositivo — é aparatoso.

 

A bengala inclui um punho feito com impressão 3D onde se centra toda a parte electrónica, um leitor de etiquetas RFID (sigla de “radio frequency identification”, qualquer coisa como identificação por rádio frequência, em português), uma antena para potenciar o sistema de localização, um joystick onde se controla todo o sistema, um emissor de sinais sonoros, um accionador háptico (que permite que a bengala vibre), um transmissor Bluetooth e uma bateria.

 

Mas não fica por aqui. Para funcionar, a bengala tem de interagir com uma aplicação móvel de navegação (em tablet ou smartphone). E é através dela que a bengala obtém a localização do utilizador (recorrendo a um sistema de GPS, Wi-Fi e visão por computador), armazena informação geográfica, calcula rotas e identifica e comunica pontos de interesse.

 

Isabel Claro sorri ao saber que o investigador Hugo Fernandes já anotou mais uma das suas dicas. Quando fez o seu primeiro teste assinalou o tamanho “demasiado grande” do tablet que tinha de usar. Agora, sugere novas afinações: “Quando estava a aproximar-me da máquina dos alimentos, o dispositivo disse-me que ela estava a 200 metros, às ‘duas horas’. Sugeri que em vez deste sistema das horas, que nem toda a gente domina, dissesse só que estava ligeiramente à direita. É mais simples.”

 

O mercado e o interesse autárquico

Quando João Barroso, investigador principal, começou a esboçar este projecto, tinha ideia de desenvolver algo centrado “em algoritmos e visão artificial”, a sua área de especialização central. Mas depois o plano alargou-se. A investigação está agora a um passo do mercado. Tem um acordo rubricado com uma empresa, que poderá vir a comercializar a bengala por um valor que rondará os 300 euros. E uma parceria com uma autarquia (ainda no segredo dos deuses) que quer instalar em breve um “demonstrador” para ser usado por qualquer pessoa cega. Num centro comercial, num museu, num centro histórico: o protótipo está pronto para esses desafios, apesar de algumas “afinações” em falta.

 

Uma década de trabalho está cheia de avanços e recuos, de erros e acertos. É que, se a premissa era simples (como usar tecnologia já existente para ajudar pessoas cegas?), a resposta nem tanto. “Os primeiros cinco anos foram para partir pedra”, vai explicando o bolseiro Hugo Fernandes. E se houve coisas que “vieram por acaso e funcionaram”, outras surgiram depois de muito trabalho e “tiveram de ser esquecidas”. É o caso das etiquetas RFID, “um foco importante” da investigação durante muito tempo que agora se limitam a identificar “situações de perigo”, como proximidade de escadas, fazendo vibrar a bengala, explica João Barroso, da UTAD e do Inesc Tec.

 

Maior utilidade foi descoberta noutros campos, como o GPS e a visão por computador. Para que o protótipo funcione “é preciso um trabalho prévio de georreferenciação de todos os pontos de interesse”. É graças a ele que Paula Almeida vai sendo avisada do que está à sua volta: casa de banho à esquerda, laboratório à direita, portas de vaivém, máquina de café. “Navegue cinco metros à sua direita”, indica a bengala à medida que Paula Almeida vai mexendo no joystick. Os investigadores vão explicando como deve interagir melhor com o dispositivo. E ela vai andando, ainda a ritmo de quem se está a habituar àqueles novos olhos. “Senti confiança e segurança. É importante para nós termos algo que nos transmita isso”, aponta.

 

Isabel Claro é apaixonada por tecnologia. Fez um curso de informática adaptada no Porto e está sempre pronta para ajudar pessoas na Acapo. “Vocês nem imaginam como a tecnologia facilita a nossa vida”, diz pausadamente, congratulando-se com o muito que se evoluiu nos últimos anos. Por causa disso, Isabel Claro pode ler jornais, trocar emails, falar numa rede social, orientar-se com a ajuda de um GPS. E agora ter até uma visão artificial com uma bengala electrónica nas mãos. Uma espécie de ensaio contra a cegueira.

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