Ciência

Investigadores desenvolvem uma “caneta” que detecta tecido canceroso em segundos

Dispositivo portátil pode facilitar o tratamento de doentes oncológicos e reduzir as probabilidades da reincidência da doença

Texto de Cláudia Carvalho Silva • 10/09/2017 - 11:21

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Uma nova tecnologia desenvolvida na Universidade do Texas, em Austin, pode vir a ser uma valiosa ajuda na hora de operar doentes oncológicos. Trata-se de uma “caneta”, chamada MasSpec Pen, que analisa o tecido em tempo real – em dez segundos, 150 vezes mais rápido do que a tecnologia existente – distinguindo correctamente tecidos cancerosos em 96% dos testes laboratoriais feitos até ao momento. Os resultados da investigação foram publicados nesta semana na revista científica Science Translational Medicine.

 

Durante as operações para retirar tumores, os cirurgiões enfrentam um cenário difícil: ou correm o risco de retirar tecido a menos – podendo deixar células cancerosas no organismo – ou acabam por remover tecido a mais – o que pode causar complicações de saúde. Essa tarefa pode ser facilitada com o uso desta caneta, que entra em contacto com o tecido sem o danificar. “Esta tecnologia pode aumentar significativamente as probabilidades de os cirurgiões removerem todos os vestígios de cancro durante a cirurgia”, explica Livia Eberlin, uma das autoras do estudo, citada no site da universidade.

 

Mas como funciona? Durante a cirurgia, a caneta baptizada MasSpec faz com que uma gota de água entre em contacto com o tecido em questão, ganhando pequenas moléculas do tecido do paciente. Depois de a gota ser recolhida pela caneta, esta é introduzida num espectrómetro de massa e é feita uma análise da composição molecular da gota. O espectrómetro analisa e identifica as moléculas através da medição da sua massa e da sua estrutura química – e revela se se trata de tecido saudável ou cancerígeno. Numa questão de segundos, a equipa médica consegue perceber que parte do tecido deve ser removida ou mantida. Segundo o comunicado divulgado pela universidade, isto ajuda a “melhorar o tratamento e a reduzir as probabilidades de reincidência do cancro”.

 

A caneta é portátil, descartável, e de fácil manuseio para os profissionais de saúde, refere a equipa. Ainda que o dispositivo seja relativamente barato de produzir, diz Eberlin, o espectrómetro de massa é mais robusto e caro. Mas “a ferramenta é elegante e simples e pode estar nas mãos dos cirurgiões em pouco tempo”, acredita a investigadora. A equipa espera poder testar a nova tecnologia em cirurgias com seres humanos em 2018.

 

Cirurgia mais rápida, precisa e segura

A fase experimental foi feita em tecido humano, que tinha sido retirados de pessoas, e em ratos, “sem causar qualquer lesão observável ao tecido e sem causar stress ao animal”.

 

Os métodos utilizados actualmente são lentos e, por vezes, pouco precisos, o que pode aumentar o risco de um paciente ter uma infecção ou aumentar os perigos associados à anestesia – no cérebro, por exemplo, partes do tecido cerebral são congelados em laboratório e posteriormente analisados, o que pode demorar entre 30 a 40 minutos, explica-se no comunicado da universidade. “Nos testes em tecidos [do peito, pulmões, tiróide e ovários] retirados de 253 pacientes humanos com cancro, a caneta MasSpec demorou cerca de dez segundos a fazer um diagnóstico mais de 96% correcto”.

 

“Se falarmos com doentes de cancro, uma das primeiras coisas que muitos dizem é ‘espero que o cirurgião tenha tirado o cancro todo’”, contou Livia Eberlin, considerando ser “devastador” quando tal não acontece. LER MAIS Medicamento português vai ser testado em doentes com cancro avançado E se o tratamento do cancro de cada doente fosse testado num peixinho?

 

“Cada vez que podemos oferecer ao paciente uma cirurgia mais precisa, mais rápida e mais segura, é isso que vamos querer fazer”, concluiu outro dos investigadores, James Suliburk, considerando que a caneta em causa cumpre esses três requisitos.

 

Em 2013, uma equipa de cientistas do Imperial College London tinha desenvolvido uma espécie de bisturi que ajudava a identificar a existência de tecido canceroso. Ao estar em contacto com o tecido, a “faca” queimava-o e o fumo era analisado num espectrómetro de massa, verificando se se tratava, ou não, de tecido saudável. Já no início deste ano, foi anunciado que estava em fase de testes um laser que ajudava os cirurgiões a perceber que tecido canceroso se poderia retirar do cérebro.

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