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Crónica

A enfermagem está enferma

Incrivelmente, também eu acho que os enfermeiros se devem afirmar, e que devem ganhar mais. À custa da dignidade de tudo e todos, passando por cima de todos. É assim mesmo, ou se domina ou se é dominado

Texto de Luís Coelho • 06/09/2017 - 09:34

Luís Coelho
Luís Coelho é fisioterapeuta e escritor

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Não, a enfermagem não anda enferma, é, tão-só, um caso de eterno retorno, os enfermeiros fartaram-se de ser a parte fraca, lutam, agora, com todas as forças, e uma revolução tem de ter sangue, nem que seja o da parte genuinamente mais fraca do Sistema, os pacientes, entretanto ignorados, furtados à equação.

 

Não há que escusar a compreensão dos modelos epistémicos em Saúde (e não só). Dois paradigmas se contrapõem: o holístico e o empírico. O primeiro tende a patologizar o segundo e vice-versa, e, no entanto, há muito que se tornaram implicitamente dependentes, jazendo, aqui, a necessária dualidade do caminho. O destino é o "Todo", nenhum profissional de saúde deve olvidá-lo, nunca o foi "idealmente" por milénios de modelo de holisticidade. Não obstante, a forte carga "espiritualista" do paradigma pré-moderno inculcou-lhe a fantasia adstrita ao dogma cuja veracidade estende o subjectivismo do senso comum. O modelo "moderno", empírico, tornou-se uma "fatalidade", obrigatoriedade do rigor científico, requerido à contraposição das "pré-noções" (Francis Bacon). O cartesianismo e o mecanicismo urgiram enquanto um "mal" imprescindível. A medicina agarrou-se crescentemente a esta óptica, tendência crescível com o liberalismo. Mais tarde, a enfermagem haveria de fazer recrescer o modelo "holístico", mas já sem a antiga base "espiritualista", limitando-se a "spinozar" e a "psicologizar" o que a medicina ia seccionando.

 

No cume do seu modelo, a medicina achou por bem manter as outras profissões de saúde numa postura de submissão. Abraçaram um modo de estar "liberal", e a ele não são estranhas as promiscuidades com a indústria (vide o pós-marxismo). Certo é que o parricídio é um facto, não há filho frustrado que não queira vingar o fardo da humilhação; para asseverar a afirmação, a enfermagem agarrou-se à perspectiva dialéctica, política marxista incluída. Assegurava, como tal, um lugar no esquema social, uma posição que considero justa e até necessária. Bem vendo, o modelo "dialéctico" não mata o "científico-liberal", o primeiro complementa o rigor do segundo.

 

Até aqui, a enfermagem era dominada e a medicina era a dominante, um casal modelo. Mas também sabemos que o destino cria a demanda do domínio do "filho". Numa fase em que o lado humano da medicina ia recrudescendo, os enfermeiros aproveitaram a oportunidade. Proletários um dia, burgueses no seguinte. Este estádio vive-se agora, com a enfermagem a apreender o poder por todos os lados. Precisaram de fazer uso de uma nova cientificidade, indo buscar a "novidade" do científico/empírico. O antigo modelo "holístico", que ainda vão advogando acerrimamente, tornou-se uma caricatura, tendo perdido inteiramente de vista o próprio significado da coisa. Não perderam, obviamente, o ensejo de dizerem que o "criaram". É que os pretéritos dominados, os afligidos pelo "complexo de castração", fazendo-se "deuses", parte dominante, logo passam a (re)criar a intrínseca história. Segundo os enfermeiros, também as outras profissões de saúde foram por eles criadas. Se alguém returque que, tal-qualmente, os enfermeiros foram criados pelos médicos, a argumentação permuta a sua esfera e os enfermeiros vêm citar a origem "milenar" do seu objecto. Nesta proporção, identicamente "milenares" são os terapeutas, todavia, os enfermeiros asseguram que criaram profissionais como os fisioterapeutas.

 

E já que os enfermeiros são deuses, é perfeitamente normal que queiram também prescrever exames e medicamentos, enfim, em tudo, deixam de ser enfermeiros, outro "nome" lhes é devido. Sabem quando uma coisa é desconstruída ao ponto de essa mesma coisa já nem merecer o nome que possui? São "as palavras e as coisas", a dinâmica foucaultiana.

 

Não desesperem, portanto, todos os outros profissionais de saúde, também vós tereis vossa oportunidade de "dominar", há muito que a "vontade de poder" (Nietzsche) infesta a Saúde, e, por enquanto, o fracote é o próprio paciente, que muito paciente tem de ser para aguentar tudo isto.

 

Incrivelmente, também eu acho que os enfermeiros se devem afirmar, e que devem ganhar mais. À custa da dignidade de tudo e todos, passando por cima de todos. É assim mesmo, ou se domina ou se é dominado. Mas, cuidado, alta a ascensão, alta a queda, não se esqueçam de castrar os vossos filhos, sem o peso da frustração, cessa o dinamismo compulsivo. Não há justos nem tiranos nisto tudo. O mesmo intuito corporativo existe entre os fisioterapeutas. E, claro, persiste igualmente a tentação de resgatar modelos salvíficos, belos quadros de Valores. Mas é que nem pensar, nada de calar este jogo de potências, a vista é maravilhosa, são os deuses tossicando por meio de risos.

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