Investigação

Mutação de vírus que afecta transplantados dá prémio a cientista português

Hugo Sousa, médico e investigador, é o primeiro português a ser distinguido pelo Prémio de Diagnóstico Abbott. Em causa está a descrição, inédita em seres humanos, de uma mutação genética no citomegalovírus que afecta doentes transplantados

Texto de Ana Maria Henriques • 27/07/2017 - 12:49

Distribuir

Imprimir

//

A A

Tinha dez anos quando viu na televisão uma reportagem sobre o tipo menos frequente do vírus da imunodeficiência humana, o VIH-2, e nunca mais se esqueceu. “Foi uma coisa que mexeu comigo e desde então sempre quis trabalhar com vírus”, recorda Hugo Sousa. O sonho de criança — “ser médico e trabalhar com vírus” — está a ser cumprido, depois de 17 anos de estudos no ensino superior, e o fascínio por estes agentes infecciosos “ultra-inteligentes” já foi reconhecido. O médico e investigador do Serviço de Virologia do Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO-Porto) venceu a edição de 2017 do Prémio de Diagnóstico Abbott, atribuído anualmente pela Sociedade Europeia de Virologia Clínica (ESCV, na sigla em inglês) a profissionais que se destaquem nesta área de estudo.

 

Em causa está a descrição, inédita em seres humanos, de uma mutação genética no citomegalovírus. O artigo que compilou os resultados da investigação de Hugo Sousa foi publicado no fim de 2016 na revista Antiviral Research. A infecção pelo citomegalovírus pode comportar um “maior risco de mortalidade” quando os indivíduos se encontram com o sistema imunitário enfraquecido, como é o caso de doentes transplantados, e a descoberta de Hugo Sousa é “um passo importante” para o processo de diagnóstico. Com 35 anos, o barcelense é o primeiro português a ser distinguido com este prémio, cuja entrega está agendada para Setembro, durante o congresso da ESCV na cidade de Stresa, em Itália.

 

Nos últimos anos, no IPO-Porto, Hugo Sousa, juntamente com a equipa de investigação que coordena, tem-se dedicado ao estudo das infecções por citomegalovírus em doentes submetidos a transplante de medula óssea, que constituem um “grupo de risco”. Em Portugal não existiam estudos recentes sobre as mutações deste vírus que são resistentes à terapêutica. “Pela primeira vez na população portuguesa, conseguimos descrever algumas mutações em doentes infectados com o citomegalovírus”, revela ao P3.

 

Mas o mais relevante — e aquilo que contribuiu para a atribuição do prémio internacional — foi ter descrito uma mutação específica no vírus em doentes. “Já tinha sido descrita em estirpes laboratoriais, em experiências, mas nunca em seres humanos”, refere. O trabalho, sublinha, “é extremamente útil para o futuro próximo”. “Permite que possamos fazer uma vigilância apertada, escolher o tratamento mais adequado em função do vírus que afecta o doente e, com isso, reduzir as complicações associadas não só à infecção, mas também ao tratamento.”

 

“Provavelmente”, continua Hugo Sousa, “90% da população está infectada pelo citomegalovírus”. Mas em “praticamente 100% das pessoas infectadas” não causa doença — a menos haja um estado de imunossupressão, como aquele que se verifica nos doentes transplantados. “Para receber o transplante, seja de medula óssea ou de órgãos sólidos, e não o rejeitar, essas pessoas são sujeitas a um estado de imunossupressão muito grande”, explica o investigador. Sobretudo nos primeiros três a seis meses após o transplante, as infecções “são complicadas” porque podem “desencadear um maior risco de morte”. Pneumonias e problemas a nível gastrointestinal são algumas das consequências possíveis, uma vez que os doentes “estão numa condição em que não conseguem combater infecções virais”.

 

A mutação descrita por Hugo Sousa acontece num gene do vírus e “modifica uma das suas proteínas” — o “alvo dos fármacos actuais”. Com esta “alteração genética muito pequenina”, o fármaco deixa de reconhecer a proteína. O vírus continua assim replicar-se, condicionando a resposta do tratamento. As mutações são raras, ressalva, mas a infecção por citomegalovírus “é muito frequente”, afectando “cerca de 50 a 60% dos doentes transplantados”.

 

O objectivo é que da investigação desenvolvida no IPO-Porto resultem testes clínicos específicos que possam ser realizados durante o processo de tratamento após o transplante e que identifiquem a tal mutação do vírus. “Estamos a falar de testes algo morosos e caros”, completa Hugo, pelo que seriam indicados apenas para doentes com elevado risco de infecção ou complicações graves associadas. Apesar de ter sido desenvolvido no âmbito de um grupo de doentes oncológicos, o resultado da investigação pode ser extrapolado para outras instituições que realizem transplantação, como a renal ou a hepática.

 

O Prémio de Diagnóstico Abbott terá uma componente financeira, mas o montante ainda não foi revelado pelo laboratório farmacêutico que o patrocina. Hugo Sousa vai continuar a dedicar-se aos vírus no IPO-Porto, onde trabalha há 16 anos, ao mesmo tempo que completa o internato em medicina na Unidade Local de Saúde do Nordeste, em Mirandela.

 

O dia do médico e investigador começa às seis horas da manhã e termina de madrugada, mas ter uma agenda preenchida não é novidade. Começou por licenciar-se em microbiologia pela Universidade Católica do Porto, completou o mestrado em oncologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto (UP) e foi também nesta instituição que se doutorou em ciências biomédicas. A meio do doutoramento iniciou o curso de medicina na UP e está agora a dar os primeiros passos na prática clínica. “Fiz o percurso ao contrário”, brinca. “Para sermos bons investigadores temos de perceber quais os problemas com que lidamos. Só assim podemos direccionar o trabalho e perceber a globalidade do contexto de saúde.”

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que