Estudo

Um em cada três casos de demência são evitáveis — e nem são precisos medicamentos

Especialistas internacionais mergulharam na investigação feita sobre demência e fizeram uma lista de recomendações, agora publicada na revista The Lancet. Se adoptar estes nove comportamentos, o risco de desenvolver demência diminui

Texto de Mariana Correia Pinto • 20/07/2017 - 13:32

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Pode causar estranheza aos leigos, mas a prevenção da demência não é um assunto só para velhos: aumentar a educação durante os primeiros anos de vida e apostar, especificamente, no combate à perda de audição pode reduzir a incidência de demência. Juntamente com um combate à hipertensão e obesidade na meia-idade, a diminuição pode chegar aos 20%. As conclusões foram publicadas na The Lancet e trazem uma mensagem de optimismo: um em cada três casos desta síndrome são evitáveis. E nem sequer são precisos medicamentos para isso.

 

A ideia não é completamente nova — mas é a primeira vez que se chega a um número tão animador: 35% dos casos (o tal um em cada três) está relacionado com factores de risco que podemos contornar. O relatório da primeira Comissão para a Prevenção e Cuidados da Demência da Lancet, apresentado na Conferência Internacional da Associação Alzheimer 2017, identificou nove factores de risco. Com essa lista em mente, o fardo global da demência pode ser menos pesado.

 

“Tem havido um grande foco no desenvolvimento de medicamentos para prevenir a demência, incluindo a doença de Alzheimer”, relata Lon Schneider, membro da conferência internacional em que o estudo foi apresentado e professor de psiquiatria e ciências comportamentais na Keck School of Medicine, nos EUA. Mas a solução, prossegue, pode passar por deixar os medicamentos na gaveta: “Não podemos perder de vista os reais avanços que já fizemos no tratamento da demência, incluindo abordagens preventivas.”

 

A prevenção, recomendam os 24 especialistas internacionais envolvidos neste estudo, passa por uma revisão do estilo de vida. Além das mudanças já referidas, o estudo diz ainda que, numa idade avançada, parar de fumar, tratar a depressão, aumentar a actividade física e o contacto social e controlar a diabetes pode reduzir a incidência da demência em mais 15%.

 

“Reduzindo os factores de risco, o potencial efeito sobre a demência é maior do que podemos imaginar que sejam os efeitos de medicamentos actuais e experimentais”, realça Lon Schneider.

 

A demência é uma doença cerebral incurável e progressiva, sendo a Doença de Alzheimer e a Demência Vascular as formas mais comuns. No mundo, estima-se que cerca de 47 milhões de pessoas têm algum tipo de demência. E o futuro não terá um cenário mais simpático: prevê-se um aumento desse número para 66 milhões em 2030. E 115 milhões em 2050.

 

Em Portugal, a prevalência da doença em homens e mulheres com mais de 60 anos é de 5,91%, o que corresponde a 160 mil pessoas, relatava o estudo Epidemiologia da Demência e da Doença de Alzheimer em Portugal: Estimativas da Prevalência e dos Encargos Financeiros com a Medicação, publicado em 2013.

 

De acordo com o DSM-5 — 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria, publicado em 2014 —, os critérios que definem a demência passam por um declínio de um ou mais domínios cognitivos, sobretudo no domínio da atenção complexa, aprendizagem e memória, função executiva, linguagem, perceptivo-motor e cognição social, e uma interferência nas actividades de vida diária. Mas os sintomas variam de acordo com a fase de evolução da doença — e de pessoa para pessoa.

 

A Comissão para a Prevenção e Cuidados da Demência da Lancet estudou também os efeitos de intervenção sem medicamentos em doentes com demência e percebeu que essa abordagem pode ter um papel importante, especialmente quando procuram resolver problemas como agitação e agressividade.

 

“Drogas antipsicóticas são geralmente utilizadas para tratar a agitação e agressividade, mas há uma preocupação acerca destas drogas por causa de um aumento do risco de morte, problemas cardiovasculares e infecções, para não mencionar a sedação excessiva”, sublinha o professor de psiquiatria.

 

Então, qual é a alternativa? “Intervenções psicológicas, sociais e ambientais como contacto social são mais eficazes”, aponta, acrescentando também o benefício de “intervenções não medicamentosas como terapia de estimulação cognitiva em grupo”.

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