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Crónica

Fumadores que fumam mais cigarros vivem mais anos?

A informação estatística transmitida nas frases “menos de um em cada 10 portugueses adulto é loiro” e “existem mais de 1 milhão de portugueses loiros” é precisamente a mesma

Texto de Diogo Trigo • 20/06/2017 - 15:49

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A manipulação ou distorção de dados científicos é frequentemente usada como contra-informação para vender ou rebater uma ideia. Este processo assume vários aspetos e pode acontecer independente da integridade da investigação em si. Um dos processos mais comuns é o embelezamento de dados estatísticos, conferindo-lhes uma carga positiva ou negativa consoante a agenda a vender.

 

A informação estatística transmitida nas frases “menos de um em cada 10 portugueses adulto é loiro” e “existem mais de 1 milhão de portugueses loiros” é precisamente a mesma. Sem dados adicionais, esta percentagem não é suficiente para relativizarmos se o valor é elevado ou baixo, mas mesmo assim a primeira frase transmite uma noção de insuficiência, enquanto que a segunda sugere um excesso.

 

Outro ardil frequente é a utilização de correlação como exemplo de causalidade, isto é, confundir o facto de duas coisas estarem associadas com uma delas ser especificamente um resultado da outra. Como dissemos no título, de facto, um fumador que morra de causas naturais aos 95 anos terá fumado na sua vida toda, em média, mais cigarros do que um fumador que morre de acidente de viação com 23, mas isto não quer dizer que a vida tenha sido prolongada pelos cigarros consumidos adicionalmente.

 

O site Spurious Correlations lista uma série de exemplos anedóticos de observações que estatisticamente estão correlacionadas, como por exemplo uma correlação de 66,7% entre o número de filmes com Nicolas Cage e o número de afogamentos em piscina por ano, ou que o número de mortes por queda da cama tem uma correlação estatística de 95% com o número de advogados em Puerto Rico.

 

Esta ferramenta é usada astuciosamente na publicidade, mas o problema é quando as subtilezas são abandonadas e apresentadas enquanto factos: “Este atleta que nós patrocinamos usou a nossa banha da cobra e ganhou uma medalha ou troféu”.

 

De facto, há uma correlação entre os atletas patrocinados ganharem troféus, mas a causalidade é que provavelmente o patrocínio surgiu apenas quando o atleta tinha já apresentado potencial desportivo, e não o contrário. É com estas confusões que somos tantas vezes confrontados com notícias aparentemente contraditórias, improváveis, ou mesmo ridículas.

 

Estas notícias são transmitidas em cadeia como no “jogo do telefone”, em que a informação é passada de cientistas para artigo científico, do artigo para o responsável por public outreach da instituição, daí para o jornal, frequentemente de um jornal para outro jornal, eventualmente resumido num título sumarento para recrutar clicks e partilhado nas redes sociais e por aí fora. São assim retiradas conclusões a partir de conclusões de outros, na maior parte das vezes sem uma consulta aos dados originais e cada um destes passos é dependente de eventuais preconceitos, agendas, ou capacidades de compreensão do assunto de cada elo envolvido nesta cadeia.

 

Estes casos sucedem-se nos diferentes meios de comunicação, caindo-se por vezes em desgraça quando por negligência ou por irresponsabilidade se fazem afirmações ridículas com certezas de autoridade, sem ter havido um estudo prévio das fontes originais dos factos anunciados. 

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