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Crónica

A investigação tem consequências práticas, mas não é por isso que a fazemos

A ideia de que se deve injectar sobretudo dinheiro em investigação que tem um impacto directo na economia é algo não só perigoso, mas empiricamente errado e desligado da realidade

Texto de David Sobral • 25/06/2017 - 14:23

David Sobral, Professor Universitário, Astrofísico
David Sobral, Professor Universitário, Astrofísico

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Há cada vez mais uma ideia fácil de vender ao público de que a investigação e a Ciência têm que contribuir para a sociedade de uma forma “directa” e com “retorno financeiro”. Como se a Ciência que pode gerar lucros directamente fosse mais nobre e útil do que a outra que não o faz tão visivelmente.

 

Acontece que a ideia de que se deve injectar sobretudo dinheiro em investigação que tem um impacto directo na economia é algo não só perigoso, mas empiricamente errado e desligado da realidade. Só alguém que não conhece os melhores cientistas e investigadores reais é que pode achar que isso é uma boa ideia. A Ciência a sério não se pode nem deve mover nunca por interesses económicos; não é por isso que as melhores pessoas escolhem investigação e não é assim que se fazem as invenções que depois acabam mesmo por ter um valor económico incalculável. Não foi assim que se descobriu a penicilina, os raios-X, ou milhares de outras descobertas e/ou invenções que nos salvam ou nos tornam a vida bem mais confortável, todos os dias.

 

Pensemos num exemplo simples. Imagine-se que há cem anos alguém convencia todos os governos a agir da mesma maneira, e se decidia injectar quase todo o dinheiro no desenvolvimento e investigação em velas, para que fosse possível inventarmos lâmpadas LED. Ora, isso seria um verdadeiro desastre. De certeza que teríamos velas das mais variadas classes, com chamas azuis e verdes, e que fariam tudo e mais alguma coisa, mas jamais chegaríamos aos LED. Não há nenhum caminho directo que nos leve da vela ao LED, por mais dinheiro que gastemos a desenvolver velas. Pelo caminho ficaria toda a investigação que realmente levaria a esse produto, só porque de início seria impossível vislumbrar as aplicações. O mesmo com lasers, a web e tudo o que é verdadeiramente transformacional.

 

As revoluções conceptuais que verdadeiramente geram “impacto económico” e as verdadeiras invenções são consequência daquilo a que chamamos “blue sky research”. De pessoas que querem decifrar enigmas pelo desafio, pelo sonho, ou simplesmente porque isso vai ajudar muita gente. Pessoas capazes de arriscar, de trilhar novos caminhos, de explorar hipóteses alternativas e de testar novas ideias. A melhor investigação acaba por ter as mais fantásticas aplicações práticas, mas não é por isso que a fazemos.

 

Por tudo isso, é preciso percebermos a necessidade de investir cada vez mais em Ciência e investigação. Investir naqueles e naquelas que fazem investigação por paixão e por escolha, em todos os que inspiram as novas gerações com uma curiosidade sem fim. Em todos aqueles que são capazes de enfrentar os maiores desafios para responder às perguntas mais complexas. Se o fizermos, o “impacto económico” e, sobretudo, o impacto social a longo prazo será muito, muito maior do que colocar dinheiro no que, na nossa perspectiva reduzida e limitadora do momento, achamos que está a chave para um novo produto ou uma nova aplicação económica.

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