Estudo

O que é que o poder faz às pessoas?

Há um lado negro do poder. Uma investigadora portuguesa da University College de Londres analisou vários estudos feitos nos últimos 15 anos para perceber como são e o que fazem as pessoas que chegam ao poder.

Texto de Andrea Cunha Freitas • 02/05/2017 - 11:14

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São geralmente as primeiras pessoas a falar num grupo, falam mais, falam mais alto, muitas vezes interrompem os outros, são confiantes, dominadoras, podem ser egocêntricos e reagir de forma agressiva quando ameaçados. Definem metas, correm mais riscos, agem e decidem depressa. Em determinadas circunstâncias podem ser corrompidos e corromper, trair e negligenciar as necessidades de terceiros. Conhece alguém assim? Este é o retrato resumido (e simplificado) de uma pessoa com poder, segundo um artigo publicado na edição deste ano da revista Annual Review of Psychology.

 

Ana Guinote é professora de psicologia experimental na University College de Londres e publicou o estudo com o título: “Como o poder afecta as pessoas: Accionar, Procurar e Definir Metas”. A investigadora analisou diversos artigos publicados nos últimos 15 anos de várias áreas, desde a psicologia às neurociências, passando pela gestão. No artigo há vários exemplos de experiências realizadas. Há por exemplo um inquérito feito a deputados do Parlamento inglês, que revelou que a capacidade de decisão de um primeiro-ministro é mais valorizada do que a honestidade. A investigadora fala também de estudos que associaram o exercício de poder à activação de circuitos cerebrais relacionados com a recompensa, o que se reflecte na libertação do neurotransmissor dopamina. “As sociedades sempre precisaram de pessoas impiedosas, charmosas e que mentem”. 

 

O artigo de revisão faz cair algumas máscaras do poder. Exemplos? Mais importante do que ser verdadeiramente inteligente, revela, será mesmo só parecer inteligente. A investigadora nota que a inteligência foi inicialmente considerada como um bom indicador para prever uma posição de poder mas os estudos indicam, que, afinal, a relação entre uma coisa e outra é fraca. Basta a reputação de inteligente – que se consegue através da extroversão e comportamentos confiantes – para ser um candidato mais forte a ocupar uma situação de poder.

 

E o mesmo vale para a competência. “No contexto social, as pessoas dominadoras são assertivas e decididas. Esta assertividade cria a impressão de competência, mesmo quando elas não são necessariamente mais competentes e a competência (ou apenas a sua aparência) é o factor-chave para chegar até um lugar de poder.”

 

A relação entre testosterona e poder também tem o que se lhe diga. “Ao nível hormonal, a testosterona tem sido associada a personalidades dominadoras”, refere o artigo esclarecendo, no entanto, que a relação entre a hormona masculina e o poder também é frágil. O que terá mais peso são factores como a produção da hormona cortisol em resposta a situações de stress. Por outro lado, nota a investigadora, a relação seria sempre recíproca porque ter poder também pode aumentar os níveis de testosterona.

 

Quem chega lá?

Se tivéssemos que escolher os principais traços de personalidade de um forte candidato a uma posição de poder, a autoconfiança, o optimismo e um carácter dominador tinham de surgir no topo da lista. “São as pessoas que sabem dar uma resposta às necessidades de um grupo que tendem a emergir como líderes mais facilmente”, refere Ana Guinote ao PÚBLICO, acrescentando que “têm uma grande autoconfiança, que aumenta quando têm poder”.

 

Os estudos que faz em laboratório confirmam que estas pessoas “são muito voltadas para a acção, tomam decisões mais rápido, com mais determinação e com uma visão clara”. Tudo isto é bom. No entanto, o facto de serem muito voltadas para os seus objectivos e metas faz com que muitas vezes descurem outros aspectos “como o contexto social e as necessidades das pessoas à volta”.

 

Nota-se assim, “uma certa tendência, um certo enviesamento” para o egoísmo. “Mas não é por causa do poder em si próprio, mas geralmente porque alguma coisa já existe nessas pessoas. O poder abre as portas, dá espaço para defendermos o que achamos importante que, nesse caso, podem ser os próprios interesses. O poder aumenta a personalidade das pessoas.”

 

Desfaça-se o possível equívoco: o poder não é um território frequentado apenas por más pessoas. “Uma pessoa que não seja egoísta quando tem poder não vai ficar mais egoísta por isso. Há muitos líderes que servem a sociedade e que são muito voltados para o interesse dos outros”, esclarece a investigadora, que conclui: “o poder é sempre um risco.”

 

Um dos perigos mais evidentes é também a vulnerabilidade à corrupção, acrescenta Ana Guinote, que reconhece que as pessoas com poder são corrompidas e corrompem mais facilmente. Não só porque o poder lhes dá “espaço de manobra” mas também porque são como são: dominadoras, focadas nos objectivos. Porém, mais uma vez é a personalidade da pessoa que acaba por ser o factor mais determinante, sendo, por isso, necessário que exista já uma tendência para a corrupção e que, numa situação de poder, ganha força.

 

A separação entre o lado negro do poder e o lado mais positivo do poder faz-se muitas vezes com a interferência do ambiente, do grupo, da cultura em que a liderança é exercida. “A cultura organizacional, social, é importante porque no fundo os poderosos em termos evolutivos surgem porque defendem os interesses dos grupos. Normalmente, as pessoas com poder assumem metas organizacionais, metas relacionadas com o seu papel.” E, constata, há organizações que são mais voltadas para as pessoas, outras mais voltadas para a produção, para o lucro.

 

“Os que têm poder são focados em objectivos e se a organização, por exemplo, estiver muito centrada no produto, na parte financeira, os líderes vão ter isso como objectivo principal e podem negligenciar os trabalhadores, as pessoas à sua volta ou outros aspectos. Por isso, a cultura é uma maneira de ter algum controlo sobre as pessoas que têm poder”, defende Ana Guinote. Um dos estudos citados no artigo da investigadora envolveu um questionário a empresários de 15 países a quem foi pedido que fizessem uma lista com os seus principais objectivos. O crescimento do negócio estava no topo da lista seguido da continuidade do negócio e dos lucros. Os interesses familiares estavam no último lugar.

 

Mais infiéis?

Entre os vários trabalhos analisados pela professora de psicologia experimental também há os que se dedicaram a avaliar a vida pessoal das pessoas com poder. Focadas em perseguir os seus objectivos, as pessoas com poder também colocam uma dedicação especial na satisfação dos seus desejos, incluindo simples experiências recompensadoras como comer bem ou fazer sexo, constata Ana Guinote. Resultado: há mais infidelidade e casos de assédio sexual entre os “poderosos”, nota a investigadora. “As pessoas no poder são mais autoconfiantes e isso manifesta-se em vários contextos, também no domínio romântico. Mas é importante referir que é algo que acontece a homens e mulheres. As mulheres que têm poder também são mais infiéis”, explica, acrescentando que “o poder parece abrir as portas para tudo o que se possa desejar”.

 

E pode tornar-se um vício? “As pessoas quando têm poder não querem perdê-lo. Pode ser uma espécie de um vício. A questão é saber se o poder dá prazer.” Os estudos com modelos animais que olharam para dentro do cérebro, e que revelaram que este tipo de papel desencadeia a produção de dopamina e a activação dos circuitos cerebrais associados à recompensa, parecem indicar que sim: o poder dá prazer.

 

Há muitas formas de poder que jogam com múltiplos traços de personalidade. Mas há traços comuns no arriscado exercício do poder, como mostra Ana Guinote que em Junho deverá lançar um livro em co-autoria com Arménio Rego, da Faculdade de Economia e Gestão da Católica do Porto (ou Católica Porto Business School, no nome oficial), e Miguel Cunha, da Faculdade de Economia e Gestão da Nova (Nova Business School, no nome oficial), com o título: “Poder: Veneno e Remédio”. Para já, acredita que o artigo de revisão agora publicado na revista Annual Review of Psychology pode ser útil para evitar o veneno ou o “lado negro do poder”. “É importante que, através do treino, se contrarie a tendência das pessoas que estão no poder para serem demasiado focadas nas metas, organizacionais ou pessoais. O treino, de facto, funciona. Depois pode-se alterar a cultura das organizações para que estejam mais conscientes e vigilantes para este tipo de perigos associados ao poder: a tendência para a corrupção ou outros. Devemos também ter o cuidado de seleccionar pessoas para ocupar cargos de poder que tenham um certo perfil pessoal que favoreça as relações com os outros, o respeito.”

 

O artigo de Ana Guinote não faz distinções de idades no que toca a poder. Porém, a investigadora adianta que as crianças têm um código diferente e que, até por volta dos sete anos, é a força física que distingue quem tem ou não tem poder. Depois, o “estatuto” no grupo começa a ganhar importância. E os mais velhos? “Neste momento, estou a comparar os efeitos do poder ao longo do desenvolvimento adulto. Por exemplo, casos como Donald Trump ou Theresa May que são pessoas com poder e que são mais velhas. Não se sabe muito bem como é que o poder afecta as pessoas depois da meia-idade. Os estudos são feitos normalmente com pessoas mais novas.” Para já, Ana Guinote descreve o actual Presidente dos Estados Unidos como alguém que “parece uma pessoa bastante dominadora e muito voltada para o uso de força”. Alguém discorda?

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