Investigação

Foi encontrado um alien vivo? Calma, é só um bivalve gigante

Vive em ambientes lamacentos, é gelatinoso e já se sabia da sua existência. Mas nunca tinha sido observado vivo. Agora em águas das Filipinas foram descobertos vários exemplares do bivalve Kuphus polythalamia, que é um perfurador de madeira

Texto de Teresa Serafim • 27/04/2017 - 12:36

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A ficção científica está repleta de seres viscosos que vêm de algum sítio desconhecido do Universo. Se quisermos ter já uma ideia destes seres, basta lembrarmo-nos da criatura do filme Alien, o Oitavo Passageiro, dirigido por Ridley Scott em 1979, e que queria invadir o corpo dos tripulantes de uma nave espacial. Mas não é preciso irmos ao espaço para encontrar criaturas com semelhanças a extraterrestres da ficção. Um grupo de cientistas deparou-se nas Filipinas com exemplares de uma espécie de bivalves, vivos pela primeira vez, que têm um aspecto muito parecido com esses aliens, mas, em vez de seres humanos, o que atacam é a madeira.

 

A espécie de bivalves em questão chama-se Kuphus polythalamia e foi descrita pela primeira vez em 1758 por Carlos Lineu. Na altura, o nome do bivalve até era Serpula polythalamia. Entretanto, houve mudanças na sua descrição científica e deixou de estar incluído no filo Annelida, passando para o filo Mollusca, onde foi classificado com o género Kuphus. Agora pertence à família Teredinidae, onde se situam chamados “perfuradores de madeira”. Estes invertebrados marinhos têm bactérias – simbiontes –, que produzem enzimas para que possam degradar madeira, tornando-se assim fonte de alimento para estes bivalves.

 

Kuphus polythalamia pode ser encontrado em zonas lamacentas, que têm sedimentos. Os anos têm passado e esta espécie tem permanecido na obscuridade. Luísa Borges, investigadora portuguesa na Alemanha que estuda bivalves (e não fez parte deste estudo), diz-nos mesmo que a “informação é pouca”. Até uma grande especialista em Teredinidae, a bióloga Ruth Turner, refere a existência apenas de um único exemplar desta espécie no Museu de História Natural de Londres, no Reino Unido.

 

Aliás, até 2010, nunca tinha sido encontrado um exemplar vivo deste perfurador de madeira. E agora tudo aconteceu por acaso. Um canal de televisão nas Filipinas passou um documentário onde mostrava criaturas bizarras plantadas como cenouras no lodo de um lago. Isto foi suficiente para que uma equipa de cientistas, liderada pelo microbiólogo Daniel Distel, da Universidade do Nordeste, em Nahant (Estados Unidos), fosse para a ilha de Mindanao, nas Filipinas, à procura destas criaturas.

 

Em duas saídas de campo, a equipa encontrou cinco exemplares desta espécie numa baía com sedimentos resultantes da madeira a uma profundidade de cerca de três metros. Depois foram levados para o Instituto de Ciências Marinhas, da Universidade das Filipinas, onde foram dissecados. A sua descoberta e análise foram publicadas na semana passada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

 

Esta é a maior espécie de bivalves viva observada, dizem os cientistas. Os seus exemplares podem alcançar os 1,55 metros de comprimento e seis centímetros de diâmetro (o seu tamanho médio é de quase um metro). “Têm uma forma estranha para viverem dentro da madeira”, explica Luísa Borges. É um cone, tem uma concha na “cabeça” (que pode ser removida periodicamente para o animal crescer) e um tubo calcário branco para proteger o corpo gelatinoso, porque a madeira é abrasiva.

 

Escorregadios como o muco do narizPara se perceber o que realmente era este animal, a equipa de Daniel Distel retirou o tubo calcário que envolvia o Kuphus polythalamia. O que foi uma autêntica aventura: “Fiquei boquiaberto quando vi pela primeira vez a imensidade deste animal bizarro”, conta Marvin Altamia, investigador de ciências marinhas na Universidade das Filipinas, num comunicado da Universidade do Utah (Estados Unidos). “Francamente, estava nervoso. Se fizéssemos um erro, podíamos perder a oportunidade de descobrir os segredos destes exemplares tão raros.”

 

Já Margo Haygood, professora de química na Universidade do Utah, diz ter viajado no tempo: “Estar perante um primeiro animal encontrado vivo é como ser um naturalista do século XIX.” Ela foi um dos cientistas que tocou neste animal: “É pesado e difíceis de transportar. Dentro da concha, é escorregadio e mole”, descreve-o ao PÚBLICO. É como um alien da ficção científica? “Tenho a certeza que sim!”, diz, ainda surpreendida.

 

Luísa Borges nunca removeu um tubo deste bivalve, mas está acostumada a fazê-lo noutras espécies mais pequenas de perfuradores de madeira e diz que é um trabalho hercúleo: “O corpo deles é como o muco que tiramos do nariz. É muito difícil tirarmos aquele tubo.” A investigadora explica que é preciso tirar os bivalves de um suporte de madeira e diz que, muitas vezes, acaba por lhes partir o corpo. “É uma chatice!”

 

Ao tirarem a redoma do Kuphus polythalamia, os cientistas perceberam que tinha um sistema digestivo mais pequeno do que se pensava e alguns órgãos estavam atrofiados. “A massa visceral e os músculos adutores posteriores, que, respectivamente, abrigam os órgãos digestivos e têm força para enterrar a concha, são pequenos e estão menos desenvolvidos do que os de outras espécies de bivalves”, refere o artigo científico.

 

Esta espécie terá seguido um caminho diferente do de outros bivalves e adquiriu bactérias que conseguem perfurar a madeira, bem como degradar produtos sulfurosos, que têm enxofre. Ora, para se satisfazer, o Kuphus polythalamia usa as bactérias no seu sistema digestivo para perfurar a madeira em decomposição e aproveita também a emissão de sulfureto de hidrogénio no seu ambiente malcheiroso. É a partir das bactérias que têm nas guelras que cozinha a sua comida.

 

Na elaboração das refeições, usa o sulfureto de hidrogénio como energia para produzir o carbono com que se alimentam – é assim um animal quimiossintético (em que a sua fonte de energia são compostos químicos). Este processo é diferente do que as plantas usam para converter a energia do Sol em carbono simples, durante a fotossíntese.

 

A propósito deste processo digestivo, já em 2000 Daniel Distel tinha publicado um artigo na revista Nature em que propunha que os mexilhões quimiossintéticos, encontrados em fontes hidrotermais a grandes profundidades no oceano, tinham tido origem em espécies de mexilhões mais pequenas associadas a madeira afundada em decomposição e a outros depósitos orgânicos. E que os microorganismos que viviam em simbiose no interior desses mexilhões usavam o sulfureto de hidrogénio como fonte de energia. Chamou-lhe a hipótese da “alpondra de madeira”, à semelhança das pedras de passagem num lago que permitem atravessar para o outro lado.

 

Agora, Daniel Distel encontrou um exemplo desse processo – o Kuphus polythalamia. “Terá evoluído de heterotrófico [sem não capacidade de produzir o seu alimento] para autotrófico [produz o seu alimento]”, explica Luísa Borges. “Esta é a parte-chave do artigo”, sublinha a investigadora portuguesa. “A madeira serviu como uma alpondra evolutiva para uma transição drástica do heterotrofismo para o quimiotrofismo”, refere por sua vez o artigo.

 

E, já agora, que idade têm os exemplares encontrados? “Isso é um grande mistério. Podem crescer de forma rápida e serem jovens, ou serem muito velhos. Precisamos de investigar mais”, responde ao PÚBLICO Margo Haygood. A nível da história evolutiva, o registo fóssil mais antigo tem, segundo Margo Haygood, 70 milhões de anos (do período Cretáceo) e é da Austrália.

 

A equipa pretende realizar mais trabalhos para perceber melhor a diferença entre estes bivalves gigantes e outros. “Interessa-nos ver se existem transições semelhantes noutros animais que vivem em habitats únicos à volta do mundo”, revela Daniel Distel citado no comunicado.

 

E em Portugal?

Também há primos destes perfuradores de madeira em Portugal. Luísa Borges conta que a sua identificação começou nos anos 50 com o engenheiro florestal Sampaio Franco: a espécie que mais encontrou foi o Teredo navalis, num trabalho publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Em estudos mais recentes, Luísa Borges percebeu que a Teredo navalis já desapareceu do estuário do Tejo, porque esteve em competição com uma espécie de águas quentes, a Lyrodus pedicellatus. “Vi que esta espécie está a ganhar terreno na Europa.” Onde ela também está a ter preponderância é o canal da Mancha: “O Teredo navalis também só já aparece esporadicamente.” 

 

Provavelmente, uma das causas desta mudança está relacionada com as alterações climáticas. Num artigo na revista Marine Biodiversity Records, de 2010, um estudo coordenado por Luísa Borges refere que houve variações de temperatura e salinidade no oceano Atlântico, que são toleradas pela Lyrodus pedicellatus, enquanto não o são pela Teredo navalis. Como a última espécie apenas tolera salinidades mais baixas, consegue viver em estuários, com água salobra, e no mar Báltico. “O aumento de salinidade no Tejo, que se tem vindo a verificar nos últimos anos, provavelmente está na origem da ocorrência desta espécie no Tejo [Lyrodus pedicellatus]”, explica Luísa Borges.

 

Ainda há outros motivos: a Lyrodus pedicellatus incuba as larvas durante mais tempo do que a Teredo navalis, cujas larvas estão mais tempo na coluna de água antes de colonizarem a madeira e, por isso, ficam assim mais expostas à predação.

 

E ao longo desta jornada quantos perfuradores da madeira encontraram pela Europa? “Muitos! Os painéis de madeira ficaram completamente destruídos.” Luísa Borges refere que estes pequenos bichinhos causam uma enorme destruição em estruturas de portos e em navios, que remonta à Grécia Antiga, e que hoje são necessários milhões de euros por ano para reparar os danos.

 

E se no século XV o seu principal alvo eram os navios de madeira, agora são as estruturas de madeira nas zonas costeiras. Em Portugal, este tipo de estruturas não é frequente e, por isso, durante muito tempo nem se detectaram estes organismos, refere o artigo na Marine Biodiversity Records. “Hoje em dia, há muitos problemas no Báltico e nos países escandinavos”, diz ainda Luísa Borges.

 

Portanto, a investigadora portuguesa diz que há interesse em encontrar algo que pare a destruição provocada pelos perfuradores de madeira. Mas não poderão eles ter o efeito contrário e consumir também madeira que já é “lixo”? “Estes organismos têm um papel vital em termos ecológicos, na reciclagem de madeira de origem terrestre nos mares e oceanos”, admite. “Os túneis criados na madeira por estes organismos também servem de habitat e abrigo (quando os perfuradores morrem) a muitas outras espécies.”

 

Quem diria que estas térmitas dos oceanos, como também são conhecidos, tinham e têm tanto para dizer. 

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