Lisboa

Não tenhas medo: nesta exposição os grandes carnívoros coexistem com os visitantes

Muitos de nós pensam que o melhor é mantermo-nos bem longe do urso-pardo ou do lobo-ibérico. Reis da Europa Selvagem – Os Nossos Últimos Grandes Carnívoros quer mostrar que isso não é bem assim e que devemos saber partilhar o território com estes animais

Texto de Teresa Serafim • 03/03/2017 - 18:02

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No início, só vemos pegadas. “São elas que nos dão muitas informações. Não é preciso chatear os animais, eles já nos contam uma história com elas”, diz-nos Francisco Petrucci Fonseca, presidente do Grupo Lobo, logo no começo da exposição Reis da Europa Selvagem – Os Nossos Últimos Grandes Carnívoros, inaugurada esta quinta-feira, 2 de Março. A exposição inicia-se assim com pegadas em painéis com os nomes científicos dos animais, não porque os carnívoros sejam autênticos assassinos e apenas possamos ver os seus rastos, mas porque as pegadas são uma forma de conhecer os seis protagonistas da nova exposição temporária no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (Muhnac), em Lisboa.

 

Depois de feita a apresentação, é altura de conhecer as personagens. Para isso, na primeira das duas salas da exposição, estão exemplares naturalizados (embalsamados) destes animais: está um urso que pode assustar os mais receosos, um lince com orelhas afiadas ou um lobo que até parece que está a uivar. Nas paredes encontram-se as identidades e características destes animais. E quem são eles? O lince-ibérico, que é o felino mais ameaçado da Europa, e o lince-euroasiático, o maior felino do continente europeu. Lá está também o lobo-ibérico, o último grande predador da fauna portuguesa, e o urso-pardo, o rei dos grandes carnívoros europeus. Ou ainda, um carnívoro mais conhecido no Norte da Europa, o glutão, que é a hiena do Árctico. “A exposição é uma história contada com dados científicos”, aponta Cristiane Bastos Silveira, curadora da colecção de mamíferos do Muhnac.

 

E porquê agora uma exposição sobre grandes carnívoros? “Já era tempo, porque todos eles já estiveram ameaçados de extinção e a pouco e pouco, com a vontade das pessoas, têm vindo a recuperar. Temos de coexistir com os animais”, conta Francisco Fonseca. “O fio condutor é mesmo a nossa coexistência com eles”, sublinha Cristiane Bastos-Silveira.

 

Há dois anos que esta exposição estava a ser preparada pelo museu e pelo Grupo Lobo. Este último participou através do projecto Life Med-Wolf — Boas Práticas para a Conservação do Lobo em Regiões Mediterrânicas, que em Portugal promove a coexistência entre o ser humano e o lobo na região da raia, na zona da fronteira entre o Douro e o Tejo. E como está a situação do lobo-ibérico em Portugal? Actualmente, no Parque Nacional da Peneda-Gerês e no Parque Natural do Montesinho, assim como na Serra da Arada e na zona de Trancoso, a população está estável. Já a sul do rio Douro a população está estável, mas tem baixa densidade. “Qualquer coisa que se faça, pode pôr em causa a viabilidade deste núcleo”, salienta Francisco Fonseca. Mas nesta exposição, a espécie mais ameaçada é o lince-ibérico, que está classificado como “criticamente em perigo” no “Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal”.

 

Continuemos pelos trilhos dos carnívoros. Para tal, é necessário ir até aos seus habitats. Ao longo da exposição, há mapas com a distribuição das espécies nos vários países, fotografias e um espaço de reflexão com imagens “mais sensíveis”, como atropelamentos. No final da primeira sala, há painéis sobre as ameaças que estes carnívoros correm e ainda o que pode ser feito. E como podemos fazer alguma coisa? “Exercendo a cidadania”, resume Francisco Fonseca.

 

Há ainda espaço para personagens secundárias: também fazem parte do ecossistema dos “reis da Europa selvagem” e muitos são presas deles, como o coelho-bravo. Entre personagens secundárias e protagonistas, ao longo da exposição encontram-se 40 animais naturalizados. Mas de onde vieram estes exemplares?

 

Cristiane Bastos-Silveira começa por contar que, devido ao incêndio de 1978 na Escola Politécnica, se perderam as colecções zoológicas. Por isso, a partir do início da década de 80, a colecção de mamíferos do museu foi-se formando com as doações à Universidade de Lisboa, nomeadamente da Faculdade de Ciências. Muitos cientistas, depois estudarem os animais, doavam-nos ao museu, como é o caso do ouriço e da perdiz. Depois, o museu também foi adquirindo colecções de escolas secundárias, como é o caso do coelho-bravo. E há também uma novidade nesta exposição: uma doação de animais naturalizados feita pela família do engenheiro civil Valentim dos Santos, de Vila Franca de Xira e que morreu em 1997. “Nesta colecção estão 26 animais dessa doação. Estes animais, que já foram de caça, ganham um valor científico para nós e para o público”, afirma a curadora.

 

Uma selfie com um urso

É ainda possível estar num montado com o lince-ibérico e numa montanha com o lobo. “Queremos mergulhar o público nos habitats dos dois grandes carnívoros da Península Ibérica”, desafia Cristiane Bastos-Silveira, enquanto aponta para dois dioramas desenvolvidos no Muhnac. Mas o caminho não termina aqui. É na última parte da exposição que tudo se torna interactivo. Há pegadas coloridas no chão para seguir o rasto dos carnívoros. E num canto está uma clareira com 14 livros sobre os protagonistas da exposição. Quem ainda quiser uma recordação vai poder tirar uma selfie num cenário virtual com os ursos da Cantábria, em Espanha.

 

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