Psicologia

A personalidade muda? Um estudo diz que sim

Não só a nossa aparência física, parece que também a nossa personalidade sofre grandes alterações ao longo da vida. Um estudo diz mesmo que não há ligação quase nenhuma entre a personalidade de uma pessoa aos 14 anos e aos 77

Texto de Diogo Magalhães • 03/03/2017 - 17:48

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A aparência física de uma pessoa aos 14 anos é obviamente diferente daquela que terá mais de 60 anos depois. Um estudo sobre a personalidade, publicado na revista científica Psychology and Aging, diz que a personalidade dessa mesma pessoa sofre grandes alterações ao longo da vida, ainda que haja aspectos que não sofrem tamanha transmutação, como a estabilidade de humor e conscienciosidade.

 

Em 1950, na Escócia, a pedido de um grupo de investigadores, 1208 crianças com uma média de idade de 14 anos foram submetidas a seis avaliações de personalidade feitas pelos seus professores. O objectivo era avaliar seis traços de personalidade: perseverança, auto-confiança, estabilidade de humor, originalidade, conscienciosidade e desejo de aprender. Passados 62 anos, Mathew Harris, da Universidade de Edimburgo, e a sua equipa de investigadores tentaram saber do máximo número de pessoas que tinham participado no estudo para as convidar a participarem noutro igual. As que concordaram (174 pessoas), com uma média de idade nos 77 anos, responderam, em 2013, ao mesmo questionário que lhes tinha sido apresentado 63 anos antes. Desta vez, também os seus familiares responderam às mesmas perguntas.

 

Os resultados mostram que a personalidade das pessoas, ao longo de todos estes anos, sofreu alterações ao ponto de os investigadores dizerem que não existia “estabilidade significativa de qualquer uma das seis características”.

 

Esta descoberta refutou a hipótese que os investigadores tinham proposto para o estudo. “Tínhamos colocado a hipótese de que iríamos encontrar provas de estabilidade de personalidade por um período ainda maior do que 63 anos, mas as nossas co-relações não sustentaram esta hipótese, parecendo inconsistentes com resultados anteriores”, dizem no artigo.

 

Por que é que os investigadores formularam tal hipótese? Antes, já tinham sido efectuados estudos que cobriram períodos menores, desde a infância até à idade adulta (períodos até 50 anos), e que mostraram uma “relativa estabilidade de personalidade”. Mas nunca nenhum estudo realizado abrangeu mais de 60 anos, segundo a Sociedade Britânica de Psicologia, e isso fez a diferença.

 

“Uma grande diferença entre o nosso estudo e a maioria dos estudos anteriores é que a avaliação das características foi feita numa idade mais avançada, em vez de na idade adulta”, escrevem os investigadores.

 

Mathew Harris e a sua equipa afirmam que “estudos anteriores demonstraram que a personalidade está sujeita, ao longo da vida, a séries de mudanças relativamente pequenas – particularmente na adolescência e no início da idade adulta, continuando até uma idade mais velha”. Isto faz com que a personalidade pareça “relativamente estável durante pequenos intervalos”. Mas se duas avaliações de personalidade forem feitas com um grande intervalo entre elas, como este de 63 anos, verifica-se um maior distanciamento entre uma e outra. “Os nossos resultados sugerem que, quando um intervalo é estendido até 63 anos, dificilmente há uma relação”, concluem os investigadores.

 

Mas a Sociedade Britânica de Psicologia refere, no seu site, que o estudo de Mathew Harris e da sua equipa tem algumas limitações, como por exemplo: “A teoria sobre a personalidade mudou muito ao longo das décadas. Hoje em dia, é quase consensual que a personalidade é formada a partir de cinco características principais (incluindo a extroversão e neuroticismo), mas não era esse o caso em 1950, o que é uma das razões para uma avaliação superficial e incompleta da personalidade”, escreve Christian Jarrett, autor do texto.

 

Os autores do estudo, citando a definição do psicólogo David Funder, que trabalha nos EUA, dizem que a “personalidade se refere aos padrões de pensamento, emoções e comportamento característicos de um indivíduo, juntamente com os mecanismos psicológicos – escondidos ou não – atrás desses padrões”.

 

Para Chistian Jarrett, há ainda outros problemas no trabalho de Mathew Harris: a avaliação que os professores fizeram aos jovens foi “provavelmente influenciada pelo seu conhecimento das capacidades académicas dos alunos”, e a amostra que os investigadores recolheram em 2013 “foi um subgrupo altamente selectivo da amostra original”.

 

Fica agora aberta a possibilidade de mais estudos sobre a questão, como dizem aliás os autores do artigo científico: “Estudos futuros devem centar-se em compreender melhor como e por que é que a personalidade muda ao longo da vida.”

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