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Crónica

A competição na divulgação científica

Tendo em conta que são publicados mais de dois milhões (!) de artigos científicos por ano, um cientista sujeita-se a que o seu artigo seja apenas uma gota no oceano

Texto de Diogo Trigo • 16/02/2017 - 13:30

Diogo Trigo
Diogo Trigo é neurocientista no King's College London

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A divulgação científica é revista pelos pares. Isto significa que um artigo submetido a uma revista científica (como a Nature ou a Science) é avaliado não por uma autoridade ou entidade leiga, mas por um grupo de investigadores parceiros a trabalhar na mesma área científica. São estes que fazem a revisão, analisando a qualidade do trabalho, a sua relevância e a sua inovação, recomendando ou não a sua publicação.

 

Diferentes revistas têm critérios de selecção diferente, tendo em conta características como o grau de especialização, a tiragem, ou até mesmo a sua fama. Estas características reflectem-se na frequência com que os seus artigos no futuro, o seu “factor de impacto”. Se por um lado os investigadores competem para publicar em revistas com maiores factores de impacto, por outro também estas lutam por manter a sua exclusividade e por seleccionar apenas artigos que pareçam ser potencialmente mais “citáveis”. Tendo em conta que são publicados mais de dois milhões (!) de artigos científicos por ano, um cientista sujeita-se a que o seu artigo seja apenas uma gota no oceano e que o trabalho resultante de anos de colaborações entre várias pessoas e de milhares de euros investidos passe despercebido à comunidade. Isto depende não apenas do mérito científico, mas também do acesso às tecnologias da berra, às capacidades de marketing dos investigadores, à dimensão financeira da instituição ou mesmo à sua integridade moral.

 

Aqui entra em jogo, outra vez, a revisão pelos pares. O valor maior de um trabalho científico é a sua reprodutibilidade, isto é, a capacidade de, em condições semelhantes, ter os mesmos resultados. É assim que o trabalho antigo é revisitado, ganhando ou perdendo força. O descrédito após a publicação acontece quando se descobrem casos de fraude ou negligência, normalmente discutidos em estruturas informais e anónimas em que os investigadores partilham as suas visões, questões metodológicas ou resultados contraditórios. Estes são transmitidos às revistas científicas, que optam depois por corrigir ou, em casos extremos, por retirar o artigo de publicação.

 

Quanto maior o impacto de um artigo, maior o escrutínio a que está sujeito, não apenas por motivos altruístas mas, também, para auto-preservação: além de sabotarem o conhecimento científico, artigos fraudulentos “acolchoam” os currículos dos seus autores, colocando-os em situações de vantagem imerecida em candidaturas a bolsas ou posições académicas. Se um artigo com elevado factor de impacto for retractado, não só estará ausente de candidaturas a futuras, mas poderá mesmo ter um efeito retroactivo em posições ou bolsas já atribuídas.

 

Assim sendo, se é a pressão para a publicação científica forte que leva a situações menos corretas, esta pressão cria a sua própria vigia à concorrência desleal por motivos de competição.

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