Investigação

A pobreza em África foi agora vista por satélite

Algoritmos informáticos permitiram extrair dados de imagens de satélite para, dessa forma, calcular o rendimento das famílias em bairros de lata. Novo método poderá ajudar a combater a pobreza

Texto de Nicolau Ferreira • 19/08/2016 - 12:09

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As paisagens nas fotografias tiradas por drones que o antropólogo Johnny Miller divulgou há uns meses da África do Sul são desconcertantes. Observam-se subúrbios na Cidade do Cabo, onde impera um contraste absoluto entre bairros ricos e florestados de um lado e bairros de lata do outro. Esta geografia mostra como os tentáculos do “apartheid” — política da elite branca sul-africana que, durante décadas, deu mais direitos aos brancos do que aos negros e separou a sociedade em duas, fomentando o racismo — deixaram uma marca profunda no urbanismo, com consequências na vida de milhares de pessoas que, até hoje, vivem na pobreza.

 

Johnny Miller desmontou há uns dias o poder destas imagens ao “site” da cadeia televisiva australiana ABC: “Acho que a natureza de uma imagem captada de um local alto no céu retira a antipatia visceral que existe sobre o outro. É quase como se tudo se tornasse um problema matemático que necessita ser resolvido, um problema da esfera do design.”

 

Agora, é do espaço que nasceu uma outra ferramenta para ajudar a combater a pobreza olhando também para os bairros de lata. Uma equipa de investigadores dos Estados Unidos desenvolveu e testou um programa informático para fazer estimativas de pobreza a partir de imagens de satélites. Os resultados sobre a eficácia deste programa foram publicados esta sexta-feira, 19 de Agosto, num artigo na revista científica "Science". Com este desenvolvimento, a equipa espera ajudar a combater a pobreza de uma forma mais eficaz.

 

Há 700 milhões de pessoas em todo o mundo que vivem abaixo do limiar de pobreza, de acordo com o Banco Mundial. Isto significa que vivem com menos de 1,9 dólares por dia (valor actualizado em Outubro de 2015). Fazendo contas e passando para euros, aquele valor equivale a menos de 51 euros por mês.

 

Para se combater esta situação é preciso conhecer a distribuição desta pobreza no território. Mas esta necessidade revela uma falha de base. “Um grande obstáculo no desafio de reduzir a pobreza é a falta de informação de qualidade sobre a distribuição da pobreza”, explica ao PÚBLICO Neal Jean, um dos investigadores da equipa que publicou o artigo na "Science" e que é da Universidade de Stanford, na Califórnia (Estados Unidos). “A aplicação dos métodos tradicionais de recenseamento dos agregados familiares é extremamente baixa, tanto a nível espacial como temporal. Por isso, muitas vezes nem sequer se sabe onde vivem as pessoas mais pobres, o que impede o desenvolvimento de intervenções [anti-pobreza] que tenham como alvo aqueles que mais beneficiariam delas.”

 

Em África, este problema é generalizado. “De acordo com o Banco Mundial, houve 39 países africanos entre 59 que, entre 2000 e 2010, fizeram menos de dois recenseamentos que permitissem medir a pobreza de forma representativa a nível nacional”, lê-se no artigo. Além de bastante caros, estes levantamentos são “difíceis a nível institucional, já que alguns governos vêem poucos benefícios no facto de o seu desempenho fraco ser documentado”.

 

Se quiserem combater a pobreza, os países africanos precisam urgentemente deste tipo de conhecimento sobre as suas populações. Nos últimos tempos, recorreu-se ao uso de telemóveis e de redes sociais para obter esta informação, mas os dados móveis pertencem a empresas privadas e pode ser difícil obtê-los. Por outro lado, já se tentou usar imagens de satélite nocturnas, onde se vêem as luzes associadas à urbanização. Mas os mais pobres muitas vezes vivem em locais sem iluminação pública.

 

Lê o texto completo em PÚBLICO.PT

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