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Os cientistas estudaram, no ratinho, os efeitos do consumo de cafeína

Os cientistas estudaram, no ratinho, os efeitos do consumo de cafeína Richard Chung/ Reuters

Mike Hutchings/ Reuters

Estudo

Imitar os efeitos da cafeína no cérebro para combater e tratar a depressão

Descoberta liderada por cientista português abre o caminho a futuros tratamentos de sintomas psiquiátricos induzidos pelo stress crónico, um dos principais "gatilhos" da depressão e das perturbações do humor

Texto de Ana Gerchenfeld • 09/06/2015 - 11:54

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O facto de ser constantemente submetido(a) a situações altamente stressantes pode desencadear sérias perturbações mentais, tais como depressão ou perda de memória. Agora, pela primeira vez, uma equipa internacional de cientistas, liderada por Rodrigo Cunha, da Universidade de Coimbra (UC), descobriu um mecanismo molecular que poderá explicar por que é que o stress crónico provoca uma deterioração do humor. Os seus resultados foram publicados na segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

 

A explicação prende-se com… o consumo de cafeína. Como escrevem estes cientistas na PNAS, estudos anteriores realizados em grandes grupos de pessoas já tinham concluído que, em situações de stress repetitivo — um dos principais "gatilhos" da depressão —, as pessoas aumentam o seu consumo de cafeína, o que tem por efeito uma redução da incidência dos estados depressivos.

 

Mas até aqui, ninguém sabia explicar este efeito protector da cafeína sobre o estado mental — efeito que se verifica não apenas nos seres humanos, mas também em animais como o ratinho. Numa primeira fase, os cientistas estudaram portanto, no ratinho, os efeitos do consumo de cafeína.

 

Para isso, explica a UC em comunicado, submeteram dois grupos de ratinhos, durante três semanas, a situações ditas de “stress crónico imprevisível”, ou seja a situações negativas sucessivas e por vezes extremas (tal como privação de água ou exposição a baixas temperaturas). Um dos grupos de animais recebeu, ao mesmo tempo, doses diárias de cafeína equivalentes a quatro a cinco chávenas de café para um ser humano.

 

"Apesar de todas as situações negativas a que foram sujeitos, [os ratinhos que consumiram cafeína] apresentavam menos sintomas do que os do outro grupo, que registou as cinco alterações comportamentais típicas da depressão: imobilidade, ansiedade, perda de prazer, menos interacções sociais e deterioração da memória”, explica Rodrigo Cunha, citado no mesmo documento. Em particular, os cientistas constataram que a cafeína impedia certas alterações, provocadas pelo stress, ao nível da comunicação entre os neurónios.

 

A segunda fase da experiência consistiu em identificar o mecanismo molecular responsável por este efeito protector. Mais precisamente, os cientistas analisaram o que acontecia ao nível dos chamados "receptores A2A da adenosina", presentes à superfície dos neurónios e que se sabe serem alvos da cafeína no cérebro.

 

Estes receptores, que regulam a libertação de certos neurotransmissores, são considerados como um potencial alvo terapêutico no caso da depressão, da toxicodependência e da doença de Parkinson. E justamente, um estudo realizado nos EUA em doentes com Parkinson já mostrara que um composto capaz de bloquear esses receptores A2A, a istradefilina, produzia melhorias significativas do estado mental dos doentes.

 

Esta não era a única pista, referiu ao PÚBLICO Rodrigo Cunha: “A minha colega e amiga Luísa Lopes (do Instituto de Medicina Molecular em Lisboa) já tinha mostrado que, no rato, o bloqueio [desses] receptores confere um benefício terapêutico face à deterioração cognitiva resultante de uma separação maternal durante a infância.”

 

De facto, quando a equipa administrou istradefilina a ratinhos deprimidos, em apenas três semanas “o fármaco foi capaz de reverter os efeitos provocados pela exposição inicial ao stress crónico imprevisível e os animais [tornaram-se] semelhantes aos ratinhos saudáveis”, frisa Rodrigo Cunha. Ou seja, não só a cafeína tinha um efeito preventivo contra a depressão, mas o bloqueio selectivo dos receptores A2A pelo fármaco permitiu cancelar os sintomas depressivos já manifestos.

 

Ensaios clínicos

“[Tanto quanto sei], este é o primeiro estudo que avalia o efeito do consumo regular de cafeína em modificações de humor causadas por stress crónico”, disse-nos ainda Rodrigo Cunha. “Julgo também ser este o primeiro estudo a apresentar [provas] experimentais de que o bloqueio parcial dos receptores A2A para a adenosina é o provável mecanismo de acção da cafeína na prevenção da deterioração do humor resultante da exposição ao stress crónico. Finalmente, é a primeira demonstração causal de que o bloqueio de receptores A2A para a adenosina confere um benefício terapêutico em animais com modificações do humor.”

 

“Os anti-depressivos disponíveis têm uma eficiência limitada e representam um custo sócio-económico significativo”, diz-nos ainda o cientista. Por isso, os bloqueadores de receptores A2A para a adenosina "poderão representar uma nova oportunidade terapêutica.” E embora ainda seja necessário realizar ensaios clínicos com o fármaco em questão, “a transposição para a prática clínica pode ser bastante rápida (…) porque estamos perante um fármaco seguro, já utilizado nos EUA e no Japão para o tratamento da doença de Parkinson”.

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