Orienta-te Redes Sociais
Paulo Rodrigues Ferreira

Paulo Rodrigues Ferreira, 29 anos, bolseiro de doutoramento e co-proprietário da Fyodor Books.

O excerto

O problema é não viver, não saber mais do que aquilo que se escreve numa maldita dissertação, não ter visto um filme, não ter ido a um festival de música, não ter aproveitado para namorar, para respirar o ar da cidade. O problema do bolseiro é o hiato entre a licenciatura e o fim do doutoramento ou do pós-doutoramento. O hiato entre os vinte e um ou vinte e dois e os quarenta anos. São muitos anos morto.

Olivia Harris/Reuters

Crónica

Vida de bolseiro

Na universidade não há vida. As portas fecham-se. Os centros de investigação não funcionam. O pós-doutoramento é uma ficção útil para que quem manda não tenha de se preocupar com o desemprego de umas quantas pessoas que existem saltando de tese em tese

Texto de Paulo Rodrigues Ferreira • 19/06/2014 - 15:26

Distribuir

Imprimir

//

A A

Receber uma bolsa de doutoramento é um bem precioso que deveria obrigar o bolseiro a frequentar uma missa de quinze em quinze dias. Ser pago para escrever uma tese e, de vez em quando, participar em eventos da maior elevação intelectual, tais como seminários e congressos. É uma dádiva.

 

Quatro anos com quase mil euros por mês e com disponibilidade para quase tudo, que a burocrática Fundação para a Ciência e Tecnologia obriga, através de relatórios, a comprovar que não se passou o tempo a comer amendoins. Pena que acabe. Pena que a minha bolsa acabe para o ano. Se entretanto não encontrar emprego, não terei direito a subsídio de desemprego. A única hipótese do ex-bolseiro de doutoramento é ganhar uma bolsa de pós-doutoramento, e depois disso entrar na meia-idade cravejado de artigos científicos no currículo, com pelo menos três dioptrias de miopia em cada olho e com o futuro assassinado pela ilusão de que a universidade o ampararia quando o resto falhasse.

 

Na universidade não há vida. As portas fecham-se. Os centros de investigação não funcionam. O pós-doutoramento é uma ficção útil para que quem manda não tenha de se preocupar com o desemprego de umas quantas pessoas que existem saltando de tese em tese.

 

O bolseiro de investigação tem um contrato e recebe dinheiro enquanto esse contrato for válido. Se for esperto, o bolseiro aproveita o tempo para escrever, para ler, para ver filmes, para namorar e, claro, para redigir a sua prestimosa tese que, da mesma maneira que demorou anos a ser escrita, demorará anos até que alguém para além do júri a leia. O bolseiro que não for esperto concentra-se apenas na tese, recebe o seu louvor e distinção e vai à sua vidinha: uma vidinha ultra-especializada (quem não aprecia temas como a descascagem da castanha na Etiópia do século XIX?) e imperdoavelmente ignorante.

 

Muitos fogem do país com a esperança de viverem de outra maneira. A pessoa de trinta anos carrega para o estrangeiro a sabedoria estampada na sua tese de doutoramento, candidata-se a uma bolsa e é feliz a escrever mais uma tese, mais um sem número de artigos. Regressa com quase quarenta. Talvez os portugueses o recebam de braços abertos. Nada como vir do estrangeiro empunhando um título académico.

 

Não é má a perspectiva de passar uns meses ou uns anos no estrangeiro, ainda mais se esse estrangeiro for Nova Iorque, cidade onde o bolseiro poderá compreender que existe vida para além da tese e da universidade. Mas um bolseiro é um bolseiro em qualquer lado. O problema não é ser precário, que isso são todos menos os ricos. O problema é não viver, não saber mais do que aquilo que se escreve numa maldita dissertação, não ter visto um filme, não ter ido a um festival de música, não ter aproveitado para namorar, para respirar o ar da cidade. O problema do bolseiro é o hiato entre a licenciatura e o fim do doutoramento ou do pós-doutoramento. O hiato entre os vinte e um ou vinte e dois e os quarenta anos. São muitos anos morto.

Eu acho que
P3 now speaks English. See our galleries

Audio

Laura quer que as pessoas entrem no atelier dos artistas "com um clique"

Movimento

Movimento cívico português quer pôr um fim à exportação de animais para fora da União Europeia. Avizinha-se uma luta longa e há barcos de papel para ajudar

Entre casais também há violações

Vídeo // A realizadora Chloé Fontaine chamou à curta metragem Je suis ordinaire — o que...