Ambiente

O que fazem três jovens no lago? Mudam a Pateira de Fermentelos

Hélder, Alexandre e Inês, de Águeda, quiseram reconstruir o caminho pedestre da Pateira de Fermentelos e, com isso, sensibilizar a região para as questões ambientais. Dessa vontade resultou o projecto vencedor do Orçamento Participativo Jovem Portugal 2017

Texto de Nuno Rafael Gomes • 11/01/2018 - 16:39

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Visto de cima, o desenho natural que este lago forma assemelha-se a uma bota. Contudo, não se localiza em Itália, mas sim em Portugal — e não abrange apenas uma região. À sua volta expandem-se os concelhos de Águeda, Aveiro e Oliveira do Bairro, num abraço ao maior lago natural da Península Ibérica, a Pateira de Fermentelos. Existe ali uma espécie de templo para a fauna e flora, abundantes, que chamam os mais curiosos para passeios pedestres ou, simplesmente, para observação — e há muito para se ver. Contudo, o potencial desta maravilha natural foi sempre “sub-aproveitado”.

 

Quem o diz é Hélder Arede, de 24 anos, natural de Águeda e um dos membros do projecto vencedor do Orçamento Participativo Jovem Portugal 2017 (OPJ): Liga-te à Pateira. Partilha o prémio com os amigos Alexandre Pires e Inês de Castro, ambos com 23 anos, e, com eles, levou uma vontade comum a muitos habitantes daquela região para a frente: reabilitar o caminho pedestre da Pateira — que se estende por quatro quilómetros —, votado ao esquecimento durante muitos anos. O percurso liga a zona da Pateira de Óis da Ribeira, em Águeda, “até ao seu afluente sito em Requeixo”, em Aveiro.

 

Ao longo dos últimos tempos, aponta Hélder, “muito se tem falado deste problema” um pouco por todos os municípios circundantes e até pelos diferentes autarcas que foram ocupando os lugares de poder, mas as soluções “nunca apareceram”. Por isso, os três amigos decidiram colocar de lado o pouco que os separava: se as áreas profissionais não são as mais próximas (Hélder é jurista, Inês é contabilista e Alexandre, gerontólogo), também as ideologias políticas se distanciam. No entanto, o jovem jurista assegura: “Não há barreira qualquer na causa da sustentabilidade ambiental”.

 

As peculiaridades da Pateira enchem os olhos a muitos dos que, a partir de qualquer um dos acessos, a visitam. Os salgueiros, cujas folhas parecem deslizar para formar uma espécie de cascata estática, partilham o espaço com espécies tão distintas entre si, como os amieiros; os nenúfares e os jacintos flutuam água fora, mas os bunhos e as tabuas preferem as zonas mais húmidas. O bater das asas da águia-sapeira ecoa e há uma garça-vermelha, escondida na vegetação, a observar o movimento da próxima presa. Há muitas aves aqui — até já foi lançado um guia de observação ilustrado —, e há grande afluência de birdwatchers à Pateira. Sem esquecer as raposas, os javalis ou os coelhos-bravos, apenas três dos exemplos entre as inúmeras espécies presentes naquele local.    

 

Dar nova vida à Pateira para mudar a região

“Não raramente”, recorda Hélder, “vamos à Pateira e pensamos sempre no que pode ser ali criado”. Daí até terem conhecimento do OPJ não levou muito tempo, e, quase sem darem conta, juntaram-se “numa sessão de brainstorming, acabando por se desenvolver a proposta”. A 8 de Janeiro souberam que o projecto tinha sido o mais votado entre todos os candidatos ao programa criado pelo Governo português.

  

Todos os projectos que conseguiram o apoio através do OPJ foram apresentados numa edição especial do programa Maluco Beleza, de Rui Unas, onde também esteve presente Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação. Agora, esperam que a requalificação daquele caminho esteja terminada “até ao final de 2018”, uma vez que o montante necessário para a realização do projecto advém de 300 mil euros do Orçamento do Estado, valor fixado para apoiar todas as outras ideias seleccionadas. É que apesar de o vencedor ter sido o Liga-te à Pateira, há outros projectos cujas ideias serão materializadas. A diferença é que a proposta mais votada leva o valor máximo permitido para orçamento — um quarto da totalidade.

 

Os 75 mil euros com que o Liga-te à Pateira conta agora não serão, contudo, empregues apenas no percurso pedestre. “Serão também construídos três pontos de lazer, adaptados aos jovens, para os chamar à natureza”, detalha Hélder, acrescentando que o dinheiro também terá como destino “a teoria ambiental”. Serão elaborados relatórios ambientais, de forma a conhecer a fauna e a flora existente, substituindo-se “espécies invasivas por autóctones”, ao mesmo tempo que se constitui “uma área para estudo ambiental”.

 

A Pateira de Fermentelos, como explicam os vencedores do OPJ 2017, surge no século XV devido a “sucessivas inundações dos rios e alagamento dos campos ribeirinhos”. Agora, o renascimento daquele local está a cargo dos poderes locais da região, mas foram os três jovens de Águeda que moveram as águas para que tal acontecesse. A Hélder, Alexandre e Inês, ficou prometida a possibilidade de “acompanharem de perto o desenvolvimento do projecto”.

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