Adam Kedem/Unsplash

Crónica

Alterações climáticas: a nossa vez

Aparentemente, as alterações comportamentais das pessoas podem ter efeitos mais rápidos do que aguardar por políticas climáticas nacionais e internacionais e transições dos sistemas energéticos

Texto de Ana Marreiros • 06/11/2017 - 13:48

Ana Marreiros
Ana Marreiros vive em Lisboa e trabalha em comunicação. É atenta ao que se passa à sua volta

Distribuir

Imprimir

//

A A

De rajada passo os olhos pelos títulos dos media da última semana de Outubro e fico inquieta. Vários fenómenos assolam o país. Questiono-me se metade dos portugueses terão noção do limite em que vivemos. Portugal atravessa a segunda maior seca de sempre, mais de 80% do território está em seca severa e 7% em seca extrema. O Governo avisa que devemos fazer uso parcimonioso da água e que as autarquias devem limitar o uso da água em lavagens de ruas e regas apenas em situações inadiáveis. As piscinas municipais de Nelas deixaram de funcionar com vista a prolongar as reservas de água da Barragem de Fagilde, que abastece Viseu, Mangualde, Nelas e Penalva do Castelo. Em Viseu, a água para algumas populações está a ser abastecida através de camiões-cisterna. A falta de água na região do Caia, Portalegre, levou alguns agricultores a não fazerem as sementeiras do Outono — a pouca água que ainda existe nas albufeiras está guardada para o abastecimento público. A Igreja recomenda uma oração a pedir chuva. Mas a situação é tão grave que seriam precisos dois meses de chuva para resolver o problema. Uma palavra: assustador! Todas estas notícias aparecem “patrocinadas” pelas alterações climáticas.

 

Saberemos realmente o que são as alterações climáticas? Ou é mais um chavão que está na moda? Os incêndios em Portugal, as cheias na Austrália, em Miami ou nas Filipinas, os furacões nas Caraíbas e nos Estados Unidos, a seca na Síria e em Portugal, o degelo dos glaciares na Gronelândia ou o surto do vírus Zika são alguns dos fenómenos resultantes das alterações climáticas.

 

Diz-nos a história que, desde 1750, temos vindo a assistir a um aumento de gases com efeito de estufa na atmosfera causado pelo aumento da população, por uma agricultura intensiva que não permite que os nutrientes naturais da terra regenerem, por uma maior utilização do solo, desflorestação, industrialização e exploração de combustíveis fósseis para obter energia. Para contrariar estes factores e tentar garantir bem-estar à nossa geração e às gerações dos nossos filhos e netos surge, em 2015, o Acordo de Paris. Visa reduzir as emissões de gases com efeito de estufa até 2100, de modo a manter a subida da temperatura abaixo de 2ºC, ou preferencialmente, de 1,5ºC. Dizem os cientistas que a partir destes valores os fenómenos climáticos extremos, como secas e elevadas quantidades de chuva em períodos de tempo curtos, serão mais graves.

 

Espreito depois o que se diz lá fora. Desde Genebra, o secretário-geral da Organização Mundial de Meteorologia (OMM), Peterri Taalas, previne que "as gerações do futuro vão herdar um planeta muito menos hospitaleiro". São comentários baseados num relatório que refere que 60% dos gases com efeito de estufa são emitidos para a atmosfera a partir de fontes naturais e que o restante resulta da acção do homem em várias áreas: oceanos, solo, queima de biomassa, uso de fertilizantes e vários processos industriais. A reter: fala-se na acção do homem. Na nossa acção. Se cada um de nós diminuir a sua emissão de gases com efeito de estufa, estamos a cuidar do mundo.

 

No Verão, investigadores suecos lançaram algumas medidas que os cidadãos podem implementar para reduzir os efeitos das alterações climáticas. Aparentemente, as alterações comportamentais das pessoas podem ter efeitos mais rápidos do que aguardar por políticas climáticas nacionais e internacionais e transições dos sistemas energéticos. São 11 opções pessoais, dispostas por ordem de impacto. Preferir lâmpadas de baixo consumo é uma medida com baixo impacto. Secar a roupa ao ar, reciclar, lavar roupa com água fria e optar por carros híbridos são medidas de impacto moderado. Aumentar a ingestão de vegetais, substituir o carro eléctrico por uma vida sem carro, comprar “energia verde”, evitar um voo transatlântico, viver sem carro e ter uma criança a menos são medidas de alto impacto.

 

Para Portugal não concordo com a medida que tem maior impacto. A nossa taxa de natalidade precisa urgentemente de animação. No entanto, a grande maioria das medidas são de simples implementação no dia-a-dia. De que é que estamos à espera? As alterações climáticas estão demasiadamente evidentes nas nossas vidas e também são nossa responsabilidade. Basta que alteremos pequenos hábitos que agora fazemos em piloto automático.

 

Como a última semana de Outubro foi pródiga em notícias sobre alterações climáticas, recupero mais duas. A directora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, afirmou que “seremos todos torrados, assados e grelhados, se cruzarmos os braços” e que “precisamos de tomar decisões críticas sobre as alterações climáticas”. Quanto a Lagarde, não sei, mas eu não vou cruzar os braços. Deve ser por isso que prefiro o optimismo do ex-vice-Presidente dos Estados Unidos e Prémio Nobel da Paz em 2007, Al Gore, no novo documentário Uma Sequela Inconveniente: A Verdade ao Poder. Al Gore acha que podemos vencer a luta contra as alterações climáticas: “Vamos vencer. Vamos resolver a crise climática.” Eu quero acreditar que sim. Afinal, também está nas nossas mãos. Chegou a nossa vez. A vez dos cidadãos.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que