Reportagem

Fazem sabonetes, produzem o que comem, só vestem roupa usada

Cinco pessoas vivem a tempo inteiro no Monte dos Carvalhos/Mount of Oaks, no sopé da serra da Gardunha. Acolhem gente de muitos lados a fugir aos barulhos do mundo e a querer experimentar uma vida simples. Segunda de uma série de cinco reportagens sobre estilos de vida mais sustentáveis

Texto de Ana Cristina Pereira • 08/08/2017 - 12:36

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Respeitam o ritmo solar. Levantam-se com o Sol. Produzem grande parte do que põem na mesa. Fazem os seus próprios sabonetes e óleos essenciais. Aquecem a água do banho com sol ou lenha. Só usam água da charca e energia dos painéis solares, que lhes permite acender umas lâmpadas à noite e carregar telemóveis e computadores. Reutilizam roupa de familiares e amigos.

 

Estão no sopé da serra da Gardunha. Saindo da aldeia da Póvoa da Atalaia, no Fundão, segue-se por uma via estreita aberta entre terrenos agrícolas. Primeiro betão e terra, depois só terra. As placas estão em inglês. O inglês é a língua predominante no Monte dos Carvalhos/Mount of Oaks.

 

Cinco pessoas vivem aqui de forma permanente. Acolhem gente de muitos lados em fuga dos barulhos do mundo. Há uma pequena casa, com paredes de fardos de palha, para arrendar a 25 euros por noite. E espaço para montar tenda ou estacionar autocaravanas a cinco euros por noite.

 

Dão as boas-vindas a hóspedes (mínimo duas noites) e voluntários (mínimo um mês). Organizam dias abertos, retiros, workshops “destinados a promover um modo de vida mais natural e simples” (sobre plantas medicinais e aromáticas, saboaria natural, construção natural, por exemplo).

 

A propriedade não tem portões. Num primeiro socalco ficam os carros que usam para ir à aldeia (ou a outro lado) e a capoeira com as galinhas que estão a criar. É aí que aparece Márcia Luz. Convida a seguir por um caminho de terra para o socalco seguinte. Aponta uma biblioteca que é também uma retrete seca ou de composto, o que permite reduzir o consumo da água e converter excrementos humanos em fertilizante. A uns metros, a cozinha.

 

Bárbara Leite, mentora da comunidade, não está. Foi a Figueiró dos Vinhos ajudar a pensar em formas de regenerar a terra depois dos violentos incêndios de Julho. Na cozinha, estão Emma Cowan, a companheira dela, e Eric Conrath, o marido de Márcia. É meio-dia e Samuel, o filho de Márcia e Eric, está na Creche e Jardim-de-Infância da Santa Casa da Misericórdia de Alpedrinha.

 

A cozinha é o único edifício de pedra. Todos os outros são construções de fardos de palha, tijolo de adobe e terra leve, tabique, rebocos de barro e cal.

 

Ao nível da cozinha, fica um espaço multiusos, que serve para fazer ioga, meditação, workshops. E, logo a seguir, numa zona de estar. Em cima da mesa, sopa fria de courgette, melão e hortelã, salada de cenoura, puré de beterraba, pasta de abacate, arroz com sementes, azeitonas da quinta…

 

Praticam permacultura. Permacultura, no sentido dos fundadores, os ecologistas australianos Bill Mollison e David Holmgren, é “uma filosofia de trabalho com e não contra a natureza”. Implica uma determinada ética (cuidar da terra, cuidar das pessoas, limitar os consumos, repartir os excedentes) e uma forma de organizar o espaço (que permite melhorar o desempenho).

 

“Novas ordens” e “conversas sinceras”

Simplicidade é a primeira palavra que lhes ocorre. Respeito – pela natureza, pela humanidade, pela diversidade – será a outra. Identificam-se com o estilo de vida monástico. Várias religiões apresentam formas de vida monásticas – o hinduísmo, o budismo, o jainismo, o taoísmo, o cristianismo. Esta é uma comunidade de inspiração cristã, ainda que aberta a todas as crenças.

 

Têm por costume fazer exercícios espirituais segundo santo Inácio de Loyola. Fazem a revisão do dia, da semana ou do ano. Assentam tal prática em duas questões. Primeira questão: “O que me deu mais vida?” E isso, na sua interpretação, assume duas formas: “O que gostei mais do dia de hoje? Estou mais agradecida pelo quê?” A segunda questão é: “O que me tirou mais vida? Do que não gostei? Pelo que estou menos agradecida?” Servem estas questões para gerar reflexão. “Ajudam-nos a perceber onde estamos, enquanto pessoas e enquanto comunidade, e a fazer escolhas, a escolher mais o que nos dá vida”, esclarece Márcia.

 

“Eu acredito que precisamos de ordens”, diz Emma. “Não das ordens do passado, que eram mais para controlar do que para libertar, mas de novas ordens. As pessoas precisam de rituais, de contemplação. O silêncio é uma necessidade humana, como a água potável, a comida saudável, os bons pensamentos, as relações positivas, a capacidade de ter conversas sinceras."

 

O quotidiano está infestado de ruído. Só no silêncio cada um pode ouvir-se a si próprio. "Eu acho que estamos aqui para ser um pequeno modelo para uma comunidade mais abrangente, um lugar onde as pessoas podem vir e lembrar-se do que são e do que precisam, enquanto seres humanos”, explica.

 

Emma é uma socióloga especializada em reconciliação e paz. Tem experiência em cenários de grande intolerância. Trabalhou na Irlanda do Norte, onde se arrastou um conflito conhecido por "The Troubles". E num projecto internacional com intervenção em Israel e na Palestina. Era feliz. Realizava-se a fazer esse trabalho. Veio para o Monte dos Carvalhos por causa de Bárbara.

 

Sem Bárbara, Márcia é a única portuguesa à volta da mesa de madeira montada cá fora. Cresceu em Lisboa.

 

Márcia estudou Publicidade e Marketing. Trabalhou quatro anos na área antes de "virar a mesa". Foi “percebendo que não era feliz”. Foi um abalo para os pais, que tanto se esforçaram por lhe dar uma educação formal. Lá em casa, eram seis irmãos. O pai faz molduras e a mãe cozinha numa cantina. Decorria 2008. Nessa altura, passou alguns meses no Monte dos Carvalhos.

 

Um casal belga comprara aquele terreno, desistira do projecto e regressara à Bélgica. E Bárbara, oriunda do Porto, sentira uma espécie de vocação para o continuar. Enviara e-mails a amigos espalhados pelo mundo e reunira os 30 mil euros necessários para pagar a propriedade e mantê-la aberta ao mundo.

 

“Uma vida normal”

Márcia ainda se lembra do princípio, já lá vai uma década. Tudo isto era mais rudimentar e precário. “Só havia a cozinha de pedra e algumas tendas. A casa de banho nem tinha cobertura. Era um buraco na floresta. O banho? Acho que era uma cortina. Usávamos uns baldes de água que íamos buscar.” Nessa altura, não se imaginava a viver aqui. O Monte dos Carvalhos era só um lugar de passagem, um retiro, um sítio onde pousar a cabeça, parafraseando o poeta Manuel António Pina.

 

Pôs-se na Internet à procura de voluntariado no estrangeiro. Deparou-se com uma oportunidade em bairros degradados do México. Havia uma vaga na Homes for Hope, uma associação de combate à pobreza que constrói casas prefabricadas. Partiu em 2009, já a crise financeira, económica e social tinha chegado. Esteve seis meses a trabalhar e um a viajar pelo país.

 

O Monte dos Carvalhos manteve o seu papel. Márcia tornou a vir. Inscreveu-se no Serviço Voluntário Europeu, coordenado pela Agência Nacional para a Gestão do Programa Juventude em Acção e financiado pela Comissão Europeia. Ficou um ano em Chisinau, capital da República da Moldávia.

 

Trabalhava num Centro de Assistência e Protecção a Vítimas e a Potenciais Vítimas de Tráfico, parceria da Organização Internacional da Migrações e do Ministério do Trabalho, da Protecção Social e da Família. A Moldávia é um dos maiores fornecedores de vítimas de tráfico da Europa. Sentiu-se crescer com as vítimas de tráfico humano. Ao ouvi-las, percebeu até que ponto “é possível renascer”. Aquelas mulheres continuavam “com os sonhos que tinham antes de terem sido traficadas: ter uma família, um emprego, uma casa, uma vida normal”. Ela não. Ela não queria “ter uma vida normal”. Nem lhe passava então pela cabeça casar-se e ter filhos. Queria viajar, conhecer pessoas, ajudar quem dela precisasse. “Realizo-me ao ajudar, ao dar. Recebo muito ao dar”, dizia.

 

Nos tempos livres, juntavam-se uns 30 voluntários oriundos de vários países europeus. Foi num desses encontros que conheceu o marido, Eric Conrath, um técnico de farmácia de nacionalidade alemã, que estava a fazer voluntariado num centro ocupacional para crianças com deficiência. Ainda viajaram seis meses pela América Central – Nicarágua, Costa Rica, Panamá. E ainda viveram quase um ano na Alemanha antes de se instalarem aqui, no Monte dos Carvalhos.

 

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